Unidade Cláudia - Capítulo 2 - créditos: divulgação
01-02-2026 às 10h11
Rufino Fialho Filho*
— Eu sempre procurei me manter em condições de sair — relatava Josafá, enquanto subíamos a avenida principal em curva.
Seus passos eram firmes, uma resistência física que desafiava o céu nublado de abril.
— Precisava estar pronto para recuperar o tempo que me roubaram naqueles três metros quadrados. Uma cela vazia, Marcos. Só uma cama e o eco do meu próprio pensamento.
Ele parou por um instante, como se voltasse a sentir o cheiro do mofo e do medo.
— Conheci o MAR, Movimento Armado Nacionalista, em uma ação de expropriação no Rio de Janeiro. Para os banqueiros, era assalto. Para nós, era o financiamento da liberdade. Emitíamos recibos, entende? O valor exato, assinado. Era nossa dignidade. Minha função naquela manhã era a cobertura. O plano foi perfeito. Nenhum disparo, nenhuma gota de sangue. Mas o verdadeiro teste veio 48 horas depois.
Josafá descreveu o “ponto” de encontro. Marcos apareceu com uma missão: encaminhar uma passageira para fora do Brasil. O nome de código dele era Joãozinho. O dela, Maria Berenice
— Ela não era a Cláudia que você conheceu no conselho universitário — disse Josafá, abaixando o tom.

— Ela era uma menina de medicina. Destroçada. Tinha sido presa em Goiás, torturada até o limite do humano, e resgatada de um hospital pelo seu grupo Marcos. Lembra? Ela tremia tanto que o carro parecia vibrar junto.
Ele me contou como a observava pelo retrovisor. Maria Berenice — a Cláudia — não era uma mulher naquele momento. Era uma criança ferida, escondida atrás de uma beleza que a dor não conseguira apagar.
— Eu disse a ela que pegasse uns bombons na sacola. Tentávamos ser sensíveis, entende? Tínhamos experiência com o pânico alheio, mas o medo dela era contagioso. Era um medo perigoso, desses que entregam o jogo num estalar de dedos.
Tivemos que tirá-la da primeira “célula” antes do tempo. Ela era uma ferida aberta cruzando as fronteiras do país.
Décadas depois, aquela mesma menina subia ao palco de uma conferência internacional. Josafá estava lá, no fundo da sala, assistindo à metamorfose. Onde havia tremor, agora havia firmeza. Onde havia silêncio, agora havia convicções que silenciavam a plateia. Ela era outra. Era mais bela, porque agora sua beleza tinha o aço da sobrevivência.
— Ela não nos reconheceu — Josafá sorriu, um sorriso amargo. — Ou fingiu que não reconhecia. Nós fôramos, como ela escreveu depois em seus livros, apenas “uns homens sensíveis”.
Naquela noite, Josafá encontrou Marcos em um bar. Beberam vinho e riram da própria irrelevância histórica.
— Uns homens sensíveis! — disse o Homem Sensível Número 1 para o Homem Sensível Número 2.
A piada era o nosso escudo. Ríamos para não chorar o fato de que a mulher que ajudáramos a reconstruir agora caminhava de braços dados com o Doutor Bolívar Agustini. Ela entrava no restaurante imenso, cercada pela pompa da universidade, e passava por nossa mesa como se fôssemos apenas parte da mobília de um passado que ela decidira exilar longe mesmo do seu exílio na Europa.
A entrada de Bolívar na vida de Cláudia não foi um ato de sedução, mas um ato de curadoria. Ele não a conquistou pelo corpo, mas pela promessa de uma estrutura onde ela pudesse, finalmente, deixar de ser uma fugitiva para se tornar uma instituição.
Aqui está o detalhamento desse momento, onde a segurança institucional de Bolívar se impõe sobre o caos dos “homens sensíveis”.
(*) Rufino Fialho Filho é jornalista

