Presidente Luíz Inácio Lula da Silva - créditos: imagem por IA
13-03-2026 às 17h12
*Soelson B. Araújo
O debate sobre minerais críticos e terras raras ganhou força no cenário internacional e colocou o Brasil no centro de uma disputa estratégica global. Essenciais para a produção de baterias, turbinas eólicas, carros elétricos, semicondutores e equipamentos militares, esses elementos são considerados o “ouro do século XXI”. O país possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, atrás apenas da China, o que o coloca em posição privilegiada na nova economia da transição energética.
Nos últimos anos, Estados Unidos e União Europeia intensificaram esforços diplomáticos para garantir acesso a esses recursos, buscando reduzir a dependência da cadeia produtiva chinesa. A crescente demanda internacional deve triplicar até 2040, impulsionada pela expansão de tecnologias limpas e eletrificação global.
Diante desse cenário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem adotado um discurso de soberania sobre os minerais estratégicos brasileiros. Em declarações recentes, Lula afirmou que o país não deve repetir o modelo histórico de exportar matéria-prima barata e importar produtos industrializados de alto valor agregado. A ideia do governo é fortalecer uma política nacional de minerais críticos e estimular a instalação de indústrias no Brasil para agregar valor à cadeia produtiva.
Corrida global por minerais estratégicos
O interesse internacional aumenta a corrida global desses minerais estratégicos, recursos que estão ligados à corrida tecnológica entre grandes potências. Atualmente, a China domina grande parte da produção e do refino de terras raras no mundo, o que leva países ocidentais a buscar novas fontes de fornecimento.
Nesse contexto, o Brasil surge como uma alternativa estratégica. Além das reservas expressivas, o país possui potencial geológico ainda pouco explorado — apenas cerca de um quarto do território foi mapeado detalhadamente. Especialistas alertam que, sem uma estratégia clara, o Brasil corre o risco de repetir o papel histórico de exportador de commodities, sem desenvolver sua própria indústria tecnológica.
Para enfrentar esse desafio, o governo federal instalou o Conselho Nacional de Política Mineral, responsável por orientar políticas públicas e estratégias para o setor até 2050, incluindo o aproveitamento de minerais críticos e terras raras.
Vale do Jequitinhonha: potencial estratégico
Em Minas Gerais, o Vale do Jequitinhonha desponta como uma das regiões mais promissoras do país para a exploração de minerais estratégicos, especialmente lítio e terras raras. Estudos recentes do Serviço Geológico do Brasil apontam que a região pode se tornar um pilar importante da segurança energética global e do desenvolvimento regional.
O chamado “Vale do Lítio” já vem atraindo investimentos bilionários e ampliando a produção mineral na região, gerando empregos e estimulando novas cadeias industriais. Em 2024, a produção local superou 900 mil toneladas e mobilizou cerca de R$ 6,3 bilhões em investimentos.
Apesar desse avanço, especialistas defendem que o país precisa dar um passo além: desenvolver também a cadeia industrial das terras raras e de outros minerais críticos presentes na região.
Para economistas e especialistas em mineração, o principal risco é repetir o padrão histórico da economia brasileira: exportar recursos naturais e importar tecnologia.
A estratégia defendida por parte do setor produtivo e acadêmico é clara: transformar o Vale do Jequitinhonha em um polo tecnológico ligado à transição energética, com indústrias de baterias, ímãs permanentes, componentes eletrônicos e equipamentos para energia renovável.
Nesse contexto, cresce a expectativa de que o presidente Lula amplie sua defesa da soberania mineral também para as terras raras do Vale do Jequitinhonha, garantindo que a exploração desses recursos esteja vinculada ao desenvolvimento industrial nacional.
Se bem aproveitada, a riqueza mineral da região pode representar uma transformação econômica profunda para o interior de Minas Gerais, historicamente marcado por baixos indicadores sociais.
Ao combinar exploração responsável, agregação de valor e políticas industriais, o Brasil pode deixar de ser apenas fornecedor de matéria-prima e se tornar protagonista na economia da transição energética.
Mais do que uma disputa por recursos naturais, a corrida pelas terras raras coloca em jogo o futuro tecnológico e industrial do país — e o Vale do Jequitinhonha pode e deve estar no centro dessa transformação.
*Soelson B. Araújo é empresário, jornalista e escritor

