Créditos: Freepik
03-02-2026 às 09h10
Marcos de Noronha*
Nos meus bons tempos de estudante, eu saboreava as obras do cartunista Henfil, que publicava suas charges n’O Pasquim, um periódico que ousava se manifestar quando a Ditadura Militar confiscava a liberdade do povo brasileiro. Por ironia, o cartunista se referia ao Sul do Brasil como um local de desenvolvimento, contrastando com um Nordeste subdesenvolvido, e alfinetava o poder político alegando que, por influência do Sudeste, esquecia o restante carente do país. Eu adorava as estórias da Graúna, do Capitão Zeferino e do Bode Orelana e colecionava os gibis desde os primeiros publicados. A conotação era de que poderosos desprezavam os pobres e, por sua vez, a pobreza de algumas regiões do país era devida ao desfavorecimento causado por estes poderosos.
Por outro lado, se usarmos como referência os fatos, a distribuição de recursos colhidos pelos impostos para diversas regiões do país vem privilegiando o Nordeste desde longa data. Minha breve reflexão nesta coluna não é especificamente sobre a desigualdade econômica regional, mas como a sociedade lida quando a região responsável por cerca de 80% da arrecadação do imposto federal faz algo que, mesmo podendo ser um exemplo de prosperidade, é imediatamente combatida por preconceitos e ativismos.
O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, ocupou o noticiário e as redes sociais ao combater a linguagem neutra, ao determinar que banheiros públicos respeitassem o sexo biológico e ao fiscalizar publicações nas escolas que estimulassem a variedade de gênero, numa atitude conservadora tipicamente de seu grupo político. Ações contra a política identitária vêm ocupando atualmente os meios de comunicação. São justificadas pelo intuito de preservar a família tradicional, a inocência das crianças e a ordem pública. Tais medidas aumentaram a popularidade do então governador em período pré-eleitoral.
Agora, em janeiro de 2026, o cenário político e jurídico de Santa Catarina causou diferentes reações em todo o país. O governador, ao sancionar uma lei que proíbe a aplicação de cotas raciais em instituições estaduais de ensino superior, confrontou a Lei Federal, e a medida deve ser derrubada. No lugar do critério racial, o Governo quer que sejam utilizados critérios socioeconômicos e da meritocracia. A medida chegou rapidamente ao comprometido STF, que, neste quesito específico racial, tem historicamente contradições que serão publicadas por mim no livro Polarização – Sintoma de Uma Doença Social.
Na introdução da minha obra, aguardando ainda segurança jurídica para ser publicada no Brasil, mesmo não sendo uma obra política, ao realçar formas de manipulação social, exemplifiquei momentos em que membros da corte utilizaram justificativas identitárias de ativistas extremistas, como Djamila Ribeiro e Silvio Almeida, mostrando um viés incompatível com a ocupação de seus cargos. “Como podem autores fomentadores de ódio, com suas publicações contundentes e equivocadas sobre racismo, serem referência para os supostos e honestos julgadores? No meio futebolístico, na Espanha, a campanha contra o racismo de um jogador brasileiro negro, em 2025, parecia ter o resultado oposto do pretendido.” Discorri sobre os equívocos de uma campanha que supostamente era para promover justiça social, mas com efeito paradoxalmente oposto.
O jornalismo brasileiro, deixando seu papel principal para fazer ativismo na questão racial, tem como modelo os EUA. Meus colegas de esquerda, em pleno tumulto do caso do Banco Master, insistiram em postar publicações sobre o paradoxo da inclusão social como contraponto às ações do governador de Santa Catarina; os conflitos em Mineápolis, nos EUA, envolvendo o ICE e o esforço de Bruce Springsteen em combater o presidente Trump; um dos meus amigos, psiquiatra, recomendou o livro Nazi y el Psiquiatra, de Jack El-Hai, e outra postagem com o seguinte texto: “Os jovens que mataram o cão Orelha estudaram em colégio evangélico e são seguidores de Nikolas Ferreira, Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e outros da direita cristã.” Talvez sem se darem conta, a todo custo, querem associar a “direita”, que denominam “extrema”, ao mal; também sem se darem conta, contribuem com a campanha de censura das redes sociais ao dizerem que a violência é devido à liberdade nestes espaços, onde o ódio é incentivado. Por outro lado, sem se darem conta, culpam a prosperidade do Sul Maravilha pela miséria do Nordeste.
Sobre o tema identitarismo e as diversas publicações tentando conotar algo que o fato em si não sustenta, recebeu minha atenção também, na introdução de minha futura obra: “E quanto ao que lemos ou assistimos na mídia nos últimos tempos, sobre notícias envolvendo crimes, querendo fazer entender motivações raciais, com ênfases desnecessárias a este quesito, onde nenhuma relação com a questão racial cabia?”.
Neste citado livro, no prelo, a minha intenção é mostrar as formas de manipulação social, onde, aliciados pela polarização patológica, repetimos mantras sem sequer refletirmos sobre suas mensagens subliminares. O noticiário no Brasil, nos últimos tempos, é um verdadeiro exemplo destas atitudes. Um grupo midiático que vem mostrando grotescas ações ativistas foi lembrado neste trecho: “Publicado no G1 em setembro de 2014, com o título ‘Mais um negro é morto pela polícia em NY’, porém, ao ler a mesma reportagem, descobre-se que o mesmo negro havia esfaqueado um jovem judeu dentro de uma sinagoga. Os referidos policiais primeiro agiram para proteger a vítima, como era de se esperar; depois, tentando proteger a si próprios, houve a morte do agressor. Mas por qual razão a redação daquele periódico escolheria um título com uma conotação inversa?”.
“O leitor encontrará diversos outros exemplos semelhantes de manipulação. Esta inversão escolhida da informação foi, provavelmente, uma opção de jornalistas em seu papel de militantes, prezando por uma agenda política ao invés de fazerem um verdadeiro e honesto jornalismo. Para tanto, deveriam retratar os fatos e não provocarem uma conotação pejorativa a uma suposta ação de poder entre brancos sobre os negros. Equívocos, ou ações desonestas como esta, foram corriqueiros em alguns veículos jornalísticos no Brasil, que formam um ‘consórcio midiático’, às vezes realçando alguns aspectos e outras ocultando fatos, seguindo seus interesses ideológicos.”
Confesso que ainda tenho minhas dúvidas se, nestes tempos de polarização política no Brasil, houve um consórcio entre os proprietários e acionistas dos periódicos ou se a ação, aparentemente orquestrada, chegando a distorcer os fatos com intenções ativistas, era individualmente dos jornalistas nestas empresas. Porém, a questão crucial retorna para nossas reflexões: qual conhecimento devemos ter e qual habilidade deve ser desenvolvida para fazermos frente às manipulações sociais? O que é preciso para que, com liberdade, possamos contar com o bom senso diante de ações que podem ser adotadas, pois já demonstraram servir à coletividade?
Durante as guerras, todas elas, vimos um aumento das manipulações sociais visando conquistar o apoio da sociedade e a estimulação das tropas. Não foi diferente na Guerra do Vietnã, dos EUA que acabara de salvar o mundo ao se juntar com os aliados no combate contra a expansão de Hitler e, então, na Ásia, enfrentava a expansão comunista. Naquele período, dentro dos EUA, inúmeras manifestações aconteceram contra a participação americana naquele conflito. Nestas manifestações existiam cartazes pregando a paz e outros alegando que o interesse era pela expansão do Imperialismo Americano no mundo. Desta vez, os americanos perderam.
O cenário mais plausível para os americanos era preservar o Vietnã do Sul como uma nação independente.
O Vietnã é um país comunista com uma economia pujante, de uma sociedade que ama gastronomia. Vejam as reportagens de Leo Paszkowski, no YouTube, em Outra Vida. Ele entra na vida deste povo e mostra como eles vivem, principalmente na antiga Saigon (Ho Chi Minh). Numa casa simples, fazem tudo no chão, ficam sentados na porta, compartilham sua cozinha com outras famílias e são muito amáveis.
A antiga Indochina Francesa era composta pelo Vietnã, Camboja e Laos. O primeiro, litorâneo e dinâmico, recebeu uma forte influência da China. O Camboja tem seus belos templos, mas foi lá a dramática história do Khmer Vermelho, que destacou Pol Pot e o genocídio sem precedentes. O Laos é bucólico e budista, num ritmo lento, um país pobre. Eu me pergunto: se, ao invés dos comunistas apoiando o Vietnã do Norte e apoiados pelos guerrilheiros do Sul (os Viet Congs) tivessem perdido a Guerra, como seria hoje aquela região? Após a reunificação, o país passou a se chamar República Socialista do Vietnã.
Terminar esta publicação fazendo uma analogia com a Guerra do Vietnã e suas consequências pode parecer incongruente, mas traz pitadas das ações de convencimento social iniciadas a partir da Guerra Fria, que teve seu apogeu entre 1947 e 1991, dividindo as influências capitalista e socialista. Não é exagero falar que as tensões mundiais que acompanham o início de 2026 fazem alusões a um mundo dividido, polarizado, instigado a cada vez mais ficar separado. Precisamos fazer movimentos na direção contrária, a de que todos somos irmãos, navegando num mesmo barco. E, para isso, eu acredito na contribuição do conhecimento para extrair o melhor de todos nós e na conquista do bom senso.
*Marcos de Noronha é Psiquiatra Titulado pela Associação Brasileira de Psiquiatria e Conselho Federal de Medicina, Psicoterapeuta e Psicodramatista reconhecido pela Federação Brasileira de Psicodrama
Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural
Membro da Associação Mundial de Psiquiatria Cultural
Associado da Seção de Psiquiatria Transcultural da Associação Mundial de Psiquiatria
Membro do Grupo Latino Americano de Estudos Transculturais (GLADET)
Com formação em diversas técnicas psicoterapêuticas, dedicou-se ao estudo de disciplinas que fazem fronteira com a psiquiatria, como sociologia e etnologia. É um dos fundadores da Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural e da Associação Mundial de Psiquiatria Cultural, tendo publicado artigos pioneiros nos principais periódicos científicos nacionais e livros sobre o tema.
Entre suas obras, destacam-se:
• Terapia Social – um relato intimista de sua trajetória e técnica;
• O Cérebro e as Emoções – uma abordagem contemporânea sobre o tema, com analogias entre práticas ritualísticas e os bastidores das psicoterapias;
• Polarização – Sintoma de uma Doença Social (no prelo).

