Créditos: Magnific
01-09-2026 às 16h53
Caroline Fakhouri*
Mais tempo no quarto, menos conversa com a família, irritação por qualquer motivo, vontade de ficar sozinho. Na adolescência, mudanças como essas podem fazer parte da busca por independência. Mas quando o comportamento começa a se transformar em um padrão e o jovem deixa de se interessar pelas pessoas, atividades e situações que antes faziam parte da sua rotina, surge uma pergunta importante para os pais: é apenas uma característica da idade ou há algum sofrimento por trás disso?
A resposta não está em um comportamento isolado, mas na mudança em relação ao que era habitual para aquele adolescente. É o que explica Filipe Colombini, psicólogo e especialista em orientação parental. Segundo ele, os pais devem observar principalmente alterações persistentes e que começam a afetar diferentes áreas da vida.
“O primeiro passo é olhar se aquele adolescente mudou de forma significativa em relação a como ele era antes. O mais importante não é um comportamento em uma situação específica, mas mudanças persistentes que afetam diferentes áreas da vida, como relações familiares, desempenho escolar, convívio social e autocuidado”, explica.
Nem todo isolamento é sinal de problema
Querer mais privacidade, passar mais tempo com os amigos ou questionar regras da família faz parte do processo de construção de autonomia. O sinal de alerta aparece quando essas mudanças são acompanhadas por um afastamento progressivo, perda de interesse ou alterações importantes na forma como o jovem vinha funcionando.
Entre os comportamentos que merecem atenção estão isolamento cada vez maior, perda de interesse por atividades antes prazerosas, irritabilidade intensa e persistente, mudanças importantes no sono ou no apetite, queda no rendimento escolar e dificuldade de concentração.
Também é preciso observar manifestações frequentes de desesperança, culpa excessiva, baixa autoestima ou falas que demonstrem que o adolescente não vê sentido no futuro.
“O que merece atenção é quando ele passa a se afastar de amigos e familiares, abandona atividades importantes, demonstra sofrimento intenso ou perde o interesse pelas coisas que antes faziam sentido”, afirma Colombini.
Um dos desafios para os pais é justamente não interpretar esses sinais como “drama”, preguiça ou rebeldia. Ao mesmo tempo, nem toda mudança de humor significa que existe um transtorno mental. O que faz diferença é a intensidade, a duração e o impacto daquela mudança na vida do adolescente.
Redes sociais também entram nessa equação
A vida digital pode aumentar algumas das pressões que já fazem parte da adolescência. A comparação constante, a busca por aprovação, o medo de ficar de fora e a exposição a padrões irreais de aparência e comportamento podem contribuir para sentimentos de inadequação e afetar a autoestima.
Bullying e cyberbullying, conflitos familiares e dificuldades acadêmicas também podem pesar sobre o bem-estar emocional.
Isso não significa que as redes sociais sejam, isoladamente, responsáveis pelo sofrimento psíquico. O ponto é observar como o adolescente está se relacionando com esse ambiente e se o uso das plataformas vem acompanhado de mudanças no humor, no sono, nos relacionamentos ou na percepção que ele tem de si mesmo.
Como conversar sem transformar tudo em cobrança
Perceber que alguma coisa mudou é apenas o primeiro passo. Para muitos pais, a parte mais difícil vem depois: como abordar o assunto sem fazer o adolescente se fechar ainda mais?
Para Colombini, a maneira como a conversa começa pode determinar se o jovem vai se sentir seguro para falar ou se vai encerrar o assunto.
“O adolescente precisa sentir que será ouvido antes de ser corrigido. Conversas marcadas por críticas, sermões ou tentativas imediatas de resolver o problema costumam fechar o diálogo. Escutar com interesse, mente aberta, validar o que ele está sentindo e demonstrar disponibilidade são atitudes que fortalecem a confiança”, afirma.
Em vez de perguntas que soam como cobrança, do tipo “O que você tem?” ou “Por que está assim?”, os pais podem começar a conversa a partir do que observaram, sem pressupor uma resposta.
“Dizer que percebeu que o filho está mais quieto, perguntar como ele tem se sentido e deixar claro que existe disponibilidade para conversar pode ser mais efetivo do que tentar descobrir imediatamente o que está acontecendo”, indica o psicólogo.
“Também não é necessário exigir que o adolescente conte tudo de uma vez. O objetivo inicial é mostrar que existe um adulto disponível e disposto a ouvir.”
Quando é hora de buscar ajuda?
Nem todo sofrimento emocional exige a mesma resposta. Mudanças persistentes de comportamento, prejuízos importantes na rotina e sofrimento intenso, porém, indicam que pode ser necessário procurar avaliação profissional.
Situações como automutilação, falas recorrentes de desesperança ou qualquer menção a pensamentos ou intenção de tirar a própria vida exigem atenção imediata e não devem ser tratadas como uma fase da adolescência.
“A intervenção precoce é fundamental e essas falas jamais podem ser negligenciadas”, alerta Colombini. “Quanto antes o sofrimento é identificado e tratado, maiores serão as chances de reduzir prejuízos, fortalecer estratégias de enfrentamento e promover uma recuperação mais rápida”, afirma o psicólogo.
No Setembro Amarelo, a discussão sobre saúde mental na adolescência ganha espaço, mas a atenção não precisa ficar restrita ao mês de campanha. Segundo Colombini, para os pais, o primeiro passo não é tentar encontrar rapidamente uma explicação para o comportamento do filho, mas aprender a reconhecer quando alguma coisa mudou.
Mais do que vigiar cada comportamento, estar presente, manter o diálogo aberto e levar a sério mudanças persistentes pode fazer diferença. “E, sempre que necessário, a família deve buscar o apoio de profissionais especializados. Em situações mais delicadas, como quando há falas sobre morte, desesperança intensa ou ideação suicida, é fundamental procurar ajuda imediatamente”, explica Colombini.
O acompanhamento pode envolver psicólogo e, quando necessário, avaliação psiquiátrica. A orientação parental também pode contribuir para que os pais compreendam melhor o que está acontecendo e aprendam a manejar situações difíceis de maneira mais adequada. “O objetivo é não deixar a família sozinha diante de uma situação que ela não sabe como conduzir. Quanto mais cedo houver uma avaliação adequada, maiores são as possibilidades de intervir e reduzir os riscos”, afirma o psicólogo.
Sobre Filipe Colombini: psicólogo e CEO da Equipe AT, empresa com foco em Acompanhamento Terapêutico (AT) e atendimento fora do consultório, que atua em São Paulo (SP) desde 2012. Especialista em orientação parental e atendimento de crianças, jovens e adultos. Especialista em Clínica Analítico-Comportamental. Mestre em Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Professor do Curso de Acompanhamento Terapêutico do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas – Instituto de Psiquiatria Hospital das Clínicas (GREA-IPq-HCFMUSP). Professor e Coordenador acadêmico do Aprimoramento em AT da Equipe AT. Formação em Psicoterapia Baseada em Evidências, Acompanhamento Terapêutico, Terapia Infantil, Desenvolvimento Atípico e Abuso de Substâncias.

