Evento da passagem de ano em Turmalina com mais de dez mil pessoas entre visitantes e população local - créditos: PMTUR
02-01-2025 às 14h08
Samuel Arruda*
Em plena véspera de Ano-Novo, moradores de diversos bairros de Turmalina, no Vale do Jequitinhonha, enfrentaram mais uma interrupção no abastecimento de água. A situação tornou-se ainda mais crítica diante do aumento expressivo da população flutuante neste período, com a cidade lotada de visitantes, temperaturas elevadas e famílias privadas de condições mínimas para atividades básicas, como higiene pessoal e preparo de alimentos.
O problema ocorre em um contexto de crescimento urbano e populacional do município, o que elevou significativamente a demanda por água ao longo dos últimos anos. Diante desse cenário, especialistas e representantes da comunidade têm cobrado investimentos estruturais por parte da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), como a ampliação de reservatórios e a modernização dos sistemas de captação e tratamento. As cobranças ganham ainda mais força diante dos resultados financeiros da empresa: em 2024, a Copasa registrou lucro líquido de R$ 1,32 bilhão, número que reforça a expectativa por melhorias efetivas no serviço.
Segundo lideranças locais, as reclamações não são recentes. O tema já foi debatido no plenário da Câmara Municipal, formalizado por meio de representações junto ao Ministério Público e encaminhado também à ARSAE — Agência Reguladora de Serviços de Abastecimento de Água e Esgotamento Sanitário do Estado de Minas Gerais. Apesar disso, a população afirma não receber respostas claras nem soluções definitivas.
A insatisfação aumenta diante da percepção de que, mesmo com tarifas consideradas elevadas, as interrupções no fornecimento continuam frequentes, muitas vezes sem comunicação adequada por parte da concessionária, o que alimenta um sentimento de descaso.
O episódio também reacende expectativas políticas frustradas. O prefeito de Turmalina, Zilmar, é aliado político e amigo pessoal do secretário de Estado Marcelo Aro, correligionário do governador Romeu Zema, a quem apoiou publicamente durante a campanha ao Senado no município. Diante dessa proximidade, parte da população esperava maior atenção do Governo do Estado para um problema crônico que afeta diretamente a qualidade de vida dos moradores. Não se trata de defender privilégios — outros municípios também enfrentam dificuldades semelhantes —, mas de reconhecer que Turmalina atravessava um momento sensível: logo após a virada do ano, a cidade ainda se preparava para as comemorações de seus 77 anos de emancipação política, evento que tradicionalmente atrai ainda mais visitantes.
As críticas se intensificam em meio ao debate sobre a privatização da Copasa. Se, enquanto empresa pública e altamente lucrativa, a companhia não consegue assegurar a regularidade de um serviço essencial, cresce o receio de que, sob uma gestão privada, regiões como o Vale do Jequitinhonha sejam ainda mais penalizadas. Para muitos moradores, a pergunta permanece aberta e incômoda: se agora, sendo pública, a água já falta, o que poderá vir depois?
*Samuel Arruda é jornalista e articulista

