Show de Bad Bunny, sucesso de público - créditos: divulgação
14-02-2026 às 16h22
Giovana Devisate*
Foi impossível acordar na segunda-feira, dia 9 de fevereiro, sem pensar sobre o show do Bad Bunny no intervalo do Super Bowl. Pela primeira vez na história, a apresentação foi realizada inteiramente em espanhol, com exceção do trecho de participação da Lady Gaga. O artista porto-riquenho conseguiu, em menos de 15 minutos, realizar um show que enaltece a América-Latina e quebra barreiras com uma estratégia muito inteligente de soft power!
Ver o vídeo da apresentação e não se emocionar com o final, como brasileira, foi impossível também. O evento foi um importante manifesto nesses tempos em que os EUA atuam ainda mais com campanhas anti-imigrantes. Bad Bunny clamou por suas raízes latinas e por sua cultura, não só com o que mostrou, mas também ao se negar a falar em inglês mesmo dentro dos Estados Unidos.
Ele chamou o Ricky Martin para cantar, em respeito à sua própria cultura e aos que vieram antes dele, abrindo caminho para que, hoje, ele mesmo pudesse receber convites para cantar no show de intervalo do Super Bowl. Também convidou a Lady Gaga para participar, gesto que pode ser lido como estratégico, já que simboliza um diálogo entre o mainstream norte-americano e a força cultural latino-americana. Mostra uma união bonita que pode, um dia, vir a ser muito bem resolvida.
A apresentação foi tão impactante política e culturalmente, que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, soltou uma nota de repúdio, dizendo que foi a pior apresentação que ele já viu na história do NFL e que tudo foi uma afronta à cultura e soberania “americana”, criticando a língua e até mesmo a dança.
Lembrei que falei sobre a América-Latina aqui algumas vezes, especialmente em um artigo chamado “Eu venho de um lugar que sente demais” que, se você não lembra, vale a pena ler novamente! Basta procurar por ele na minha newsletter, no Substack, ou nos arquivos da minha coluna no site do jornal. No artigo, falo que não seríamos minimalistas nem se quiséssemos: não por uma questão estética, mas por não estarmos de acordo com o minimalismo eurocêntrico e estadunidense que “cria uma rejeição à diversidade cultural” e que “exclui os corpos, os ritmos, as expressividades e tudo de mais lindo que temos”.
Agora, vendo os comentários sobre o show de intervalo do Bad Bunny no Super Bowl, fica evidente como o nosso imaginário se construiu a partir de referências tão comuns, mesmo que em países diferentes. Na apresentação, os cenários representavam a vida dos países latinos, tanto no dia a dia quanto em ocasiões especiais, como em celebrações de casamento.
A forma como retratam a cana-de-açúcar, por exemplo, destaca o processo de colonização das américas, associado ao trabalho forçado e à exploração econômica. É algo que carrega anos de desigualdade e dominação e que serviu de crítica sobre como alguns países nos veem, até hoje, apenas como fonte de mão de obra.
Importante destacar que, por anos, Porto Rico foi um grande exportador de açúcar para os Estados Unidos e que, ainda nos dias de hoje, vive sob a regência deles, sendo um território não incorporado oficialmente aos EUA.
No show, a famosa frase “God Bless America” ganhou um sentido mais amplo e passou a ser sobre América, como continente, não apenas sobre os Estados Unidos, gesto de embate para a apropriação do termo “américa” como sinônimo de um país, apagando a existência de todos os outros países do continente.
Isso me lembrou a obra “América Invertida”, de 1943, do artista uruguaio Joaquín Torres García, já que Bad Bunny citou cada país da América em ordem contrária, de baixo para cima, do Chile ao Canadá, até destacar, por último, Porto Rico, o seu país de origem. A obra foi pensada para subverter a hegemonia eurocêntrica e a estadunidense, que são vistas como blocos centrais na geopolítica, além de também questionar a identidade latino-americana que comumente é vista como uma subcultura. Ao falar todos os países, nessa ordem, o cantor quis dizer para o mundo que somos todos América, no fim das contas.
Contudo, atualmente, percebo como o Brasil e a América Latina, em um geral, estão sendo disputadas, desejadas, assediadas… O mundo não quer ser a gente, ele quer a gente. As grandes potências mundiais estão de olho em nós, nos nossos reservatórios de água, nos nossos minérios e nas nossas terras vastas e férteis. Antes, o Brasil era tratado como periférico, terreno exótico, assim como nossos países vizinhos. Hoje, no entanto, vemos que a cultura brasileira está em ascensão com o cinema, a música, a culinária, os esportes, as séries e a moda tornando-se referência para outros países.
O que estamos vendo é um reposicionamento do que é a América Latina no imaginário simbólico do mundo e o crescimento do espanhol como um dos idiomas mais estudados ao redor do globo confirma esse movimento. A América Latina exporta cultura, com códigos que atravessam a nossa história e expressam o maximalismo que existe na nossa forma de viver e que impacta na forma que nos comunicamos com os outros países e como consumimos deles. Por isso, para tantas empresas, como a própria NFL, faz sentido entrar no mercado latino, acessar a nossa gente e cair no gosto do nosso povo. Talvez por isso escolher o Bad Bunny para esse show tenha sido tão importante para eles, apesar de tudo que ele representa para os Estados Unidos.
O Bad Bunny provoca a dominação dos imaginários ao redor do mundo a favor da cultura latina, indo de contramão daquilo que se espera de um show como esse, que acontece dentro dos EUA e é amplamente assistido ao redor do mundo. Ele foi extremamente corajoso por imaginar e projetar um futuro a partir das diferenças e por sonhar com uma revolução cultural, provocando os EUA que, constantemente, atua de forma violenta e autoritária com estrangeiros.
A apresentação do Bad Bunny foi afrontosa e, ao mesmo tempo, apaziguadora: somos todos de um mesmo território, ainda que diferentes. O cantor não resolve nenhum embate, mas provoca debates e nos permite sonhar com uma América mais consciente, coletiva e plural, onde o termo não se resume aos EUA.
No show, Bad Bunny mostra que a cultura consegue bater de frente com o poder, quando feito de maneira sutil e, especialmente, se nos unirmos para enfrentar o outro a partir da celebração da identidade latina, da cultura calorosa, da dança, do ritmo, da música, da comida, da cultura como um todo e do sorriso a qualquer custo! Protegemos e abraçamos os nossos e nós somos muitos! Como cantou Secos e Molhados: sangue latino, alma cativa…
*Giovana Devisate é historiadora da arte e designer de moda

