Relações parassociais, disputas entre comunidades e uso excessivo das redes podem afetar a rotina e o bem-estar de jovens Créditos: Divulgação
25-09-2026 às 17h55
Luciana da Silva*
Acompanhar todos os lançamentos, participar de grupos de fãs, comprar produtos e defender um artista não são, por si só, sinais de comportamento problemático. Comunidades de fãs podem estimular amizades, criatividade e pertencimento. O problema aparece quando a admiração deixa de conviver com autonomia e respeito e começa a interferir na rotina ou justificar ataques a outras pessoas.
Segundo Filipe Duarte, professor de Sociologia da UNIASSELVI, a intensidade da admiração não define, sozinha, um chamado “fandom tóxico”. O principal aspecto está na forma como esse envolvimento se manifesta e nas consequências que produz. “Ser muito fã, acompanhar todos os lançamentos, participar de grupos ou comprar produtos não torna alguém automaticamente tóxico. A linha divisória não está simplesmente na intensidade da admiração, mas na forma como ela se manifesta e nas consequências que produz”, explica.
A situação se torna preocupante quando o fã passa a manifestar comportamentos hostis e até mesmo violentos. “Isso acontece quando o fã não tolera nenhuma crítica ao artista, interpreta opiniões diferentes como ataques pessoais ou acredita que proteger o ídolo justifica humilhar, perseguir ou ameaçar outras pessoas. No plano coletivo, o ambiente se torna tóxico quando o grupo normaliza esse comportamento e passa a premiar quem demonstra mais lealdade atacando rivais”, afirma o professor.
Mais do que classificar alguém como um “fã tóxico”, o professor recomenda observar os efeitos concretos dessa relação. “Se a pessoa perde sono, compromete os estudos, gasta mais do que pode, abandona outras relações ou vive em estado permanente de conflito por causa do artista, a participação deixou de ser apenas uma fonte de prazer”. Duarte ressalta ainda que “fandom tóxico” não é um diagnóstico clínico, mas uma expressão utilizada para descrever dinâmicas coletivas e comportamentos prejudiciais.
A proximidade ilusória das redes sociais
Um dos conceitos que ajudam a entender esse comportamento é o da relação parassocial: vínculo afetivo desenvolvido de maneira assimétrica, geralmente com artistas, influenciadores ou personagens. O fã pode sentir carinho, identificação e familiaridade com aquela figura pública, embora a relação seja assimétrica: ele acompanha diversos aspectos da vida do artista, enquanto o artista não conhece aquele fã individualmente.
Com as redes sociais, esse fenômeno se intensificou. Artistas aparecem todos os dias na tela do celular falando diretamente para a câmera, mostrando bastidores e compartilhando momentos de vulnerabilidade. Comentários, lives e respostas ocasionais podem aumentar a percepção de proximidade, embora a relação continue sendo desigual.
“Isso não é necessariamente negativo. Esse vínculo pode oferecer inspiração, conforto emocional e sensação de pertencimento. O problema começa quando a familiaridade é confundida com reciprocidade e o fã passa a acreditar que possui algum direito sobre a vida, as decisões ou a intimidade daquela pessoa”, ressalta Duarte.
Cancelamentos e hostilidades
“Em muitos fandoms, o artista deixa de ser apenas alguém de quem a pessoa gosta e passa a integrar sua identidade. A música, a série ou a celebridade ajuda o fã a construir amizades, encontrar pertencimento e se apresentar socialmente. Por isso, uma crítica ao ídolo pode ser sentida como uma crítica ao próprio fã e ao grupo do qual ele faz parte”, destaca o professor.
Segundo ele, também existe uma lógica de competição nesses ambientes. “Número de seguidores, visualizações, reproduções, prêmios e posições em rankings passam a ser tratados como provas de superioridade. Assim, fãs de artistas diferentes começam a se enxergar como adversários, mesmo quando não existe uma rivalidade real entre os próprios artistas. Curtidas, comentários e compartilhamentos tornam essas disputas muito visíveis e permitem que o conflito seja transformado em engajamento”.
Uma pesquisa conduzida por acadêmicos da Universidade de Tecnologia de Chemnitz, na Alemanha, com 265 fãs de cultura pop da China e da Alemanha encontrou associação entre relações parassociais e violência. Intitulado ‘The Dark Side of Fandom’ (‘O Lado Negro do Fandom’, em tradução livre), o estudo foi publicado em 2025 e apontou que, quanto mais forte e intensa é a relação parassocial do fã com o seu ídolo, maior é o desencadeamento de três fatores em cadeia: alta na identificação com o grupo; aumento direto do desprezo, preconceito e rivalidade contra comunidades de fãs de outros artistas ou críticos; e disposição para atacar o grupo rival, o que inclui linchamentos virtuais, campanhas de difamação e assédio online.
“As brigas entre fãs ainda podem expor o jovem ao cyberbullying, a ameaças e à humilhação pública. Essas experiências aparecem associadas a tristeza, solidão, sensação de desamparo e outros sinais de sofrimento emocional. Mas é importante afirmar que participar de um fandom não provoca, por si só, problemas de saúde mental. O fandom não é, necessariamente, a causa única de ansiedade, depressão ou qualquer outro transtorno. Muitas vezes, o sofrimento já existe, levando o jovem a buscar refúgio e pertencimento nesses grupos. A participação pode, inclusive, ser positiva. O jovem encontra amigos, desenvolve habilidades criativas, aprende idiomas, participa de campanhas sociais e se sente acolhido. O risco aparece quando essa experiência se torna compulsiva e começa a substituir outras dimensões da vida”, destaca.
O ídolo é responsável pelos seus fãs?
De acordo com o especialista, os artistas e a indústria do entretenimento têm responsabilidade sobre a formação de fandoms tóxicos, mas não devem ser responsabilizados inteiramente pelo que seus fãs fazem. “Um artista não controla tudo o que seus fãs fazem. Porém, a indústria estimula vínculos emocionais intensos porque eles geram engajamento, consumo e divulgação. Metas de visualizações, batalhas de votação, rankings e campanhas competitivas podem alimentar a ideia de que o fã precisa provar sua devoção o tempo todo. Artistas e equipes podem contribuir estabelecendo limites claros, desencorajando ataques e evitando mobilizar fãs contra críticos ou concorrentes”, diz.
O professor da UNIASSELVI aponta que as redes sociais também são parcialmente responsáveis. “As plataformas também têm responsabilidade, porque transformam atenção e conflito em métricas de engajamento. E os próprios fãs continuam responsáveis por suas escolhas. Portanto, não existe um único culpado: o problema nasce da interação entre artistas, empresários, patrocinadores, plataformas e comunidades de fãs”.
Um estudo feito por pesquisadores das universidades de Edimburgo, Leicester e Manchester analisou 17 estudos e 52 medidas de efeito sobre relações parassociais com influenciadores e resultados relacionados à saúde mental. Os pesquisadores encontraram associações tanto com resultados positivos, como bem-estar e pertencimento, quanto com resultados negativos, como uso problemático das redes sociais e sofrimento psicológico. As associações foram mais fortes nos estudos que envolviam adolescentes.
Os resultados reforçam que a relação com uma figura pública não deve ser tratada automaticamente como prejudicial. O ponto de atenção está no equilíbrio e no impacto sobre o cotidiano. “O primeiro passo é não ridicularizar o interesse do jovem. Quando o adulto começa dizendo que o artista é uma bobagem ou que o fandom é perda de tempo, o adolescente tende a se fechar e esconder ainda mais o que faz na internet. É mais produtivo demonstrar curiosidade e tentar compreender o que aquele grupo oferece: amizade, reconhecimento, diversão, identificação ou uma forma de escapar de algum problema”, afirma Duarte.
Caso pais ou responsáveis identificarem situações prejudiciais, é importante estabelecer limites e orientar o jovem. “Os limites costumam funcionar melhor quando são claros, coerentes e acompanhados de diálogo. Em vez de agir apenas por proibição ou confisco, os responsáveis podem combinar horários, preservar o período de sono, acompanhar gastos e estabelecer momentos sem tela. Também é importante conversar sobre algoritmos, publicidade, privacidade e relações parassociais, ajudando o jovem a perceber que sentir proximidade com um artista não significa ter acesso ou direito sobre a vida dele. Mas, se houver prejuízo grave ou persistente nos estudos, no sono, na saúde, nas relações ou no controle dos gastos, é indicado buscar orientação de um profissional, como um psicólogo”, conclui Duarte.
Sobre a UNIASSELVI
A UNIASSELVI é uma das mais conceituadas instituições de ensino superior do Brasil. Com uma oferta diversificada de mais de 500 cursos, que incluem Graduação, Pós-Graduação e Profissionalizantes, nas modalidades presencial, semipresencial e a distância (EAD), a instituição se destaca pela sua abrangência e qualidade educacional. Presente em todos os estados brasileiros, a UNIASSELVI conta com uma ampla rede de mais de 1,3 mil polos e mais de 16 unidades de ensino presencial. É reconhecida como a única instituição de grande porte nacional a receber nota máxima no Recredenciamento Institucional, concedido pelo Ministério da Educação (MEC). A missão da UNIASSELVI é fornecer os recursos e o suporte necessários para que os alunos construam suas próprias histórias e alcancem o sucesso acadêmico e profissional, promovendo assim o desenvolvimento pessoal e profissional de cada estudante.
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