Privatização da Copasa - créditos: BH 24 horas
18-06-2026 às 10h46
Direto da Redação
A conclusão da privatização da Copasa marca um dos momentos mais controversos da história recente de Minas Gerais. A operação movimentou cerca de R$ 8,4 bilhões e transferiu o controle da companhia para a iniciativa privada, tendo a Equatorial como principal investidora. O governo estadual manteve apenas uma participação residual de 5% e uma chamada “golden share”, instrumento que preserva poder de veto em algumas decisões estratégicas.
Para o governo, a venda representa uma solução financeira e uma aposta em maior eficiência operacional. Para uma parcela significativa da sociedade mineira, entretanto, a privatização simboliza a entrega de um patrimônio público construído ao longo de décadas com recursos da população.
A Copasa não era apenas mais uma empresa estatal. Com atuação em centenas de municípios, a companhia atendia cerca de 12 milhões de pessoas no abastecimento de água e milhões de mineiros nos serviços de coleta e tratamento de esgoto, desempenhando uma função essencial para a saúde pública, a preservação ambiental e o desenvolvimento econômico do estado.
O que preocupa é que o saneamento básico não pode ser analisado apenas sob a lógica do mercado financeiro. Água tratada e esgotamento sanitário são direitos fundamentais. Enquanto uma empresa pública pode equilibrar metas econômicas com objetivos sociais, uma companhia privada tem como principal compromisso a remuneração de seus acionistas.
A discussão central, portanto, não é apenas quem controla a empresa, mas quais serão as prioridades daqui para frente. Municípios menores, localidades rurais e regiões menos rentáveis continuarão recebendo os mesmos investimentos? As tarifas permanecerão acessíveis para as famílias de baixa renda? A qualidade dos serviços será mantida ou ampliada?
Outro ponto que chama atenção é o valor da operação. A Copasa chegou à privatização com valor de mercado estimado em aproximadamente R$ 21 bilhões, enquanto a venda das ações ocorreu por cerca de R$ 8,4 bilhões e com preço por ação inferior ao valor negociado no mercado em determinados momentos do processo. Para críticos da operação, o Estado abriu mão de uma das maiores companhias públicas do país por um montante que não reflete plenamente o potencial estratégico da empresa e sua importância para o futuro de Minas Gerais.
Defensores da privatização argumentam que haverá mais investimentos e maior eficiência. No entanto, experiências nacionais e internacionais mostram que os resultados nem sempre são uniformes. Em diversos lugares, processos de privatização de serviços essenciais geraram debates sobre reajustes tarifários, qualidade do atendimento e necessidade de maior regulação pública.
A reação popular também revela que o tema está longe de ser consenso. Durante toda a tramitação do projeto, houve manifestações, mobilizações de trabalhadores e questionamentos sobre a conveniência de transferir à iniciativa privada um serviço considerado estratégico para a população.
O Diário de Minas entende que a privatização da Copasa representa uma perda significativa para o patrimônio público mineiro. Mais do que uma empresa, estava em jogo uma estrutura responsável por garantir um direito básico à população. A arrecadação imediata obtida com a venda pode aliviar momentaneamente as contas do Estado, mas os impactos reais da decisão serão medidos ao longo dos próximos anos, quando os mineiros poderão avaliar se a promessa de eficiência compensará a perda do controle público sobre um dos serviços mais essenciais à vida.
Porque, ao final, a questão não é apenas financeira. O que está em jogo é quem define as prioridades de um recurso indispensável: o interesse coletivo ou a busca por rentabilidade.
*Samuel Arruda Editor de política

