Álvaro Damião, prefeito de BH - créditos: divulgação
02-01-2026 às 13h08
Samuel Arruda*
Desde que assumiu a Prefeitura de Belo Horizonte, o prefeito Álvaro Damião tem sido alvo de críticas relacionadas à condução da política urbana e ao impacto financeiro das decisões administrativas sobre a população. Entre as medidas mais recentes está o anúncio da instalação de 102 novos radares eletrônicos na capital, iniciativa que reacendeu o debate sobre o uso de multas como instrumento de gestão do trânsito.
Especialistas em mobilidade urbana e entidades da sociedade civil questionam se a ampliação do número de radares, por si só, contribui efetivamente para a redução de acidentes ou se acaba funcionando, na prática, como mecanismo de aumento de arrecadação, especialmente em uma cidade que já enfrenta problemas crônicos de mobilidade, falta de vagas de estacionamento, transporte público caro e serviços considerados insatisfatórios por grande parte dos usuários.
Paralelamente, a administração municipal anunciou novos reajustes nas tarifas de ônibus, medida que pesa diretamente no orçamento das famílias belo-horizontinas, sobretudo daquelas que dependem exclusivamente do transporte coletivo. A crítica recorrente é que os aumentos não têm sido acompanhados por melhorias perceptíveis na qualidade do serviço, como maior regularidade, conforto ou segurança.
Outro ponto que chama atenção é o estado de conservação da cidade. Moradores e comerciantes relatam aumento da sujeira urbana, sensação de abandono em diversas regiões e dificuldades na manutenção de espaços públicos. Até mesmo o Carnaval de Belo Horizonte, que nos últimos anos vinha se consolidando como um dos maiores do país, enfrentou dificuldades para captar patrocínios, o que foi interpretado por setores culturais como reflexo de falhas na articulação e no planejamento da gestão municipal.
No campo dos gastos públicos, também gerou controvérsia a contratação de um barco no valor de cerca de R$ 800 mil para operar na Lagoa da Pampulha, um cartão-postal da cidade que segue com altos índices de poluição. Para críticos da medida, o investimento simbólico não dialoga com a urgência de políticas estruturais de despoluição e saneamento, além de reforçar a percepção de prioridades distorcidas.
Diante desse cenário, cresce a defesa de que a política de trânsito da capital deveria ir além da simples ampliação da fiscalização eletrônica. Especialistas apontam que programas obrigatórios de reeducação em regras de trânsito e direção defensiva, especialmente para motoristas reincidentes, tendem a gerar resultados mais duradouros na redução de acidentes e infrações. A proposta inclui cursos presenciais ou online, avaliações periódicas e campanhas educativas contínuas, focadas na mudança de comportamento e não apenas na punição financeira.
Aliado politicamente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ex-vice do prefeito Fuad Noman, que faleceu durante o mandato, Álvaro Damião assumiu a prefeitura em um momento delicado. O desafio, segundo analistas, é demonstrar capacidade de gestão, priorizar políticas públicas com impacto social concreto e reconstruir a confiança da população, hoje marcada pela sensação de que o custo de viver em Belo Horizonte aumenta, enquanto os serviços e a qualidade urbana não acompanham esse crescimento.
*Samuel Arruda é jornalista e articulista

