Créditos: Magnific
04-11-2026 às 13h29
Direto da Redação*
A chegada de novembro marca o início de um período fundamental para a preservação da vida aquática em Minas Gerais: a piracema. Desde 1º de novembro, estão em vigor as restrições à pesca de espécies nativas, que se estendem até 28 de fevereiro de 2027. A medida busca garantir a reprodução dos peixes migradores, que percorrem rios e afluentes em direção às cabeceiras para encontrar condições adequadas à desova.
O fenômeno, cujo nome tem origem na língua tupi e significa literalmente a subida dos peixes, representa uma das etapas mais importantes do ciclo de reprodução de diversas espécies brasileiras, entre elas o dourado, o surubim e a curimatã.
Durante esse período, a pesca de espécies nativas fica proibida, tanto na modalidade profissional quanto na amadora. A legislação permite, dentro das condições estabelecidas pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF), a captura de determinadas espécies exóticas e híbridas, respeitando o limite de três quilos mais um exemplar por pescador. As regras específicas variam conforme a bacia hidrográfica, e o pescador deve consultar as normas aplicáveis à região.
A piracema, entretanto, não deve ser compreendida apenas como uma restrição temporária à atividade pesqueira. É também um alerta sobre a necessidade de proteger os rios, preservar os ambientes naturais e garantir a continuidade dos recursos hídricos e da biodiversidade.
Minas Gerais: a Caixa d’Água do Brasil
A importância desse período ganha uma dimensão ainda maior quando se considera a posição estratégica de Minas Gerais no cenário hídrico nacional.
O estado é conhecido como a Caixa d’Água do Brasil por abrigar nascentes e importantes áreas de contribuição de algumas das maiores bacias hidrográficas brasileiras. Entre elas estão as dos rios São Francisco, Grande, Paranaíba, Doce, Jequitinhonha e Paraíba do Sul.
Esses sistemas hidrográficos ultrapassam as fronteiras mineiras e abastecem populações, movimentam atividades econômicas, sustentam a agricultura, contribuem para a geração de energia e mantêm ecossistemas fundamentais em diferentes regiões do país.
O apelido de Caixa d’Água, portanto, não é apenas uma referência geográfica. Representa uma responsabilidade ambiental que precisa ser assumida pelo poder público, pelos setores produtivos e pela sociedade.
A proteção das nascentes, das matas ciliares e dos cursos d’água é indispensável para assegurar que essa riqueza natural continue cumprindo sua função.
Comitês de Bacias: a gestão das águas precisa de participação
Nesse contexto, os Comitês de Bacias Hidrográficas desempenham uma função estratégica.
Minas Gerais conta com 34 comitês legalmente instituídos, que reúnem representantes do poder público, usuários dos recursos hídricos e organizações da sociedade civil. Esses colegiados funcionam como espaços democráticos de discussão, planejamento e deliberação sobre a utilização e a conservação das águas.
Conhecidos como o Parlamento das Águas, os comitês discutem questões que envolvem abastecimento público, saneamento, irrigação, atividades industriais, mineração, recuperação ambiental e prevenção de conflitos pelo uso da água.
Entre os principais desafios estão a recuperação de nascentes, o combate ao lançamento irregular de esgoto, a redução da poluição dos rios, a preservação das matas ciliares e o enfrentamento dos efeitos das mudanças climáticas.
A atuação desses organismos é especialmente importante em bacias como as dos rios São Francisco, das Velhas, Paraopeba, Doce, Jequitinhonha e Grande, que enfrentam diferentes pressões ambientais e econômicas.
Não se trata apenas de administrar a disponibilidade de água, mas de garantir qualidade, quantidade e condições adequadas para que os rios continuem desempenhando suas funções ambientais e sociais.
Piracema e gestão hídrica: responsabilidades que se complementam
A proteção dos peixes durante a piracema está diretamente relacionada à qualidade dos ambientes aquáticos.
Não basta proibir a pesca durante quatro meses se os rios continuarem recebendo esgoto sem tratamento, resíduos industriais, rejeitos de atividades econômicas ou sofrendo com o desmatamento de suas margens.
A reprodução das espécies depende de condições ambientais adequadas, da conservação dos locais de desova, da manutenção do fluxo dos rios e da existência de corredores naturais que permitam a migração dos peixes.
Por isso, a fiscalização realizada pelos órgãos ambientais precisa caminhar ao lado de políticas permanentes de recuperação das bacias hidrográficas. Nesse trabalho, os Comitês de Bacias têm papel fundamental na articulação entre municípios, Estado, usuários e sociedade civil.
A piracema também exige conscientização dos pescadores. Respeitar o período de defeso significa contribuir diretamente para a manutenção das populações de peixes e para o equilíbrio dos ecossistemas.
Uma riqueza que não pode ser tratada como inesgotável
Minas Gerais carrega no próprio território uma responsabilidade que ultrapassa seus limites geográficos. A água que nasce em suas serras e percorre seus vales alimenta rios que abastecem milhões de brasileiros.
Ser reconhecido como a Caixa d’Água do Brasil exige mais do que celebrar a abundância de recursos naturais. Exige planejamento, fiscalização, investimentos em saneamento, recuperação ambiental e participação efetiva da sociedade na gestão das águas.
A piracema é um lembrete anual de que a natureza possui seus próprios ciclos e de que a sobrevivência das espécies depende do respeito a esses processos.
Preservar os peixes é preservar os rios. Preservar os rios é proteger as nascentes. E proteger as nascentes de Minas Gerais significa cuidar de uma riqueza que pertence não apenas aos mineiros, mas a todo o Brasil.

