Saúde mental é uma questão social e uma demanda relevante para o poder público - créditos: Outras Palavras
04-04-2026 às 14h24
Por Daniel Deslandes*
Com a elegância necessária às grandes causas e a acidez precisa de quem observa a sociedade, a capital mineira assiste a um movimento que transcende a moldura dos quadros. A Sete Galeria acaba de inaugurar a mostra “Habita-me – A face oculta dos transtornos mentais”, e o que se vê é uma lição de coragem em tempos de superficialidade e frieza digital. Ao ocupar o espaço da Associação Médica de Minas Gerais, a exposição não apenas apresenta arte; ela abre um canal de diálogo visceral sobre a psique humana, conduzida pela sensibilidade de Maria Helena Bonfim e Lorena Mascarenhas.
Ocupar o território médico com a poesia é um ato político e humanitário. Frequentemente, os transtornos mentais são reduzidos a diagnósticos que desencadeiam estigmas, mas a arte tem a capacidade única de traduzir o indizível. A curadoria de Michel Salazar e Marcos Esteves organiza esse caos emocional em formas e cores, ela retira a dor do isolamento e a coloca na esfera coletiva. A importância de tratar a saúde mental sob o viés artístico reside justamente na humanização da patologia: a arte não busca a cura rápida do comprimido, mas o reconhecimento do indivíduo que habita aquela angústia.
A abertura da mostra ganha um contorno ainda mais urgente ao coincidir com a semana do Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Em um momento em que a sociedade volta seus olhos para a neurodiversidade, a exposição se coloca como um manifesto necessário: a mente humana não é um padrão, rigor ou modelo a ser seguido, mas um território a ser compreendido em toda a sua pluralidade. Ao unir o vigor da saúde com a liberdade de expressão na forma da poesia, o projeto rompe o verniz do preconceito e convida o público a enxergar além do óbvio.

E, neste encontro entre a técnica e a alma, a produção editorial de Heloisa Prado e do Studio Lili Zaramela amarra uma narrativa onde o espectador é convidado a deixar de ser apenas observador para se tornar um ser empático. Falar sobre transtornos mentais através da estética é romper o silêncio que mata tanto quanto a doença. É, afinal, um lembrete necessário de que a mente é um território complexo e que a compaixão, aliada à arte, continua sendo o melhor caminho para iluminar nossas sombras mais profundas. Belo Horizonte agradece o convite à reflexão, lembrando que habitar a si mesmo, com todas as fissuras, é a arte mais difícil e nobre que existe.
Aos interessados em conferir de perto essa potente colisão entre estética e saúde, a exposição “Habita-me – A face oculta dos transtornos mentais” segue em cartaz na sede da Associação Médica de Minas Gerais (AMMG), localizada na Av. João Pinheiro, 161, no Centro de Belo Horizonte. A visitação permanece aberta ao público até o final do mês, funcionando de segunda a sexta-feira, das 9h às 19h, e aos sábados, das 9h às 13h. Com entrada gratuita, a mostra é um convite indispensável para quem busca compreender as complexidades da mente através da força transformadora da arte contemporânea.
Como Presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Expressão da OAB/Barro Preto, reitero que iniciativas como esta são fundamentais para que o direito à voz e à manifestação artística das subjetividades não seja silenciado pelo estigma. Vale a visita — de preferência, com o olhar atento e o coração aberto.
*DANIEL DESLANDES, advogado, Presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Expressão da OAB/Barro Preto e Colunista do Jornal Diário de Minas

