Feira Popular da Av. Afonso Pena (antiga feira Hippie)
Giovana Devisate*
10/04/2026 17h50
Giovana Devisate*
O ano era 2019, ventava muito naquele dia, apesar do calor. Me lembro como se fosse ontem de estar andando sozinha por Lisboa, visitar uma das livraria mais famosas da região e ver, no LXFactory, um brinco de nuvem que me fez olhar para o céu. Usei o brinco outro dia, que me fez olhar para o céu de novo e recordar um tanto de coisas que não acesso com frequência sobre essa viagem pré-pandemia.
Sempre que viajo, compro alguma pequena lembrança. Me interessa contar a história dos dias felizes, das novas descobertas, dos lugares que conheci, dos locais que sonhei em conhecer. Dentro ou fora do país, a gente sempre se aproxima de novas coisas, costumes, estéticas e é interessante que possamos, de certa forma, ter um pedaço disso tudo com a gente depois de voltar para casa.
Gosto de três tipos de compras em viagens: cartão postal, objeto decorativo ou qualquer peça de artista ou artesão local e acessórios, especialmente de feiras tradicionais. Essas são as coisas que mais gosto de ganhar de presente também, além de livros.
Cartão-postal porque é fácil de comprar, de levar na mala ou na bolsa, já que não pesa nem ocupa espaço. É bom porque serve tanto para ser incluído em um álbum ou caixa de lembranças (eu guardo quase todos juntos) como também pode ser pendurado na parede ou colocado em porta-retrato. Gosto de comprar em museus, bancas de jornal… Quase todo lugar tem!
Objeto decorativo ou qualquer peça de artista ou artesão local é ótimo por contar sobre a história da viagem de uma maneira mais intimista, visto que, de certa forma, registra um contato entre o viajante e o lugar, muitas vezes registrando também o encontro com o próprio artesão ou artista.
Eu gosto de procurar por quem faz e comprar diretamente com eles, seja no local de trabalho ou em feiras da cidade. Isso garante que o dinheiro da compra chegue, de fato, até eles e me permite ouvir as suas histórias, conhecer um pouco sobre o trabalho e sobre os processos, valorizando o trabalho. É assim que gosto de me relacionar e acho que também podemos lembrar dos lugares através das memórias que criamos com as pessoas que conhecemos no caminho.
Acessórios, especialmente de feiras tradicionais, porque gosto de vestir aquilo que diz algo sobre mim. Curto quando o que está no meu corpo, o que carrego comigo, o que me veste e me acompanha durante os meus dias é capaz de contar histórias sobre a minha vida e, claro, sobre as pessoas que participaram da produção daquilo.
Andei pensando sobre isso ontem porque me dei conta da quantidade de braceletes que tenho: uma caixa com muitos reunidos, embolados, misturados. Uso todos, amo todos, lembro de onde todos vieram.
Ontem, inclusive, escolhi vestir um que comprei em uma cidade de Minas Gerais chamada Cordisburgo. Tem uma pedra incrustada em uma estrutura de metal bem simples. Já faz mais de 14 anos.
Na parede do meu quarto também cabe o mundo. Tenho cartão postal que trouxe de Paris, escultura que ganhei de presente dos meus pais e que veio de Minas também. Tenho pratos de cerâmica de Salvador – BA, de Diamantina – MG, de Piranhas – AL. Tenho um papiro emoldurado que trouxe do Egito, quadro que comprei diretamente do artista, em Buenos Aires… Um pouco de tudo.
Na minha estante, objetos que pude reunir ao longo de muitos anos. Diria que uma vida inteira… Pequena lhama de pelúcia que ganhei de gente que amo e que lembrou de mim enquanto viajava para lugares que também sonho em conhecer, castiçal de alabastro que trouxe com todo o cuidado do mundo do Egito, varinha da Hermione que comprei na Universal de Orlando, há quase 15 anos…
Acho que existe muita poesia nisso tudo. Casa é museu, é espaço de memória, de amor. O que vestimos também diz sobre as nossas experiências de vida e é muito legal poder reunir essas histórias ao nosso redor, seja no corpo ou na casa, para que possamos lembrar do que somos possíveis de realizar, do que vivemos antes de estarmos onde estamos e do que ainda podemos sonhar em viver amanhã.
A gente se nutre das boas vidas que tivemos antes desse dia, nessa vida. É como se cada viagem fosse uma vida inteira por si só. Amo todas as minhas e amo lembrar de cada uma ao andar pela casa, ao entrar no meu quarto, ao vestir minhas roupas, ao escolher qual acessório vou usar no dia.
Existe muita poesia nisso tudo. Fazer uma curadoria do que vale comprar, expor e manter com a gente por toda a vida. Qual história contar, qual objeto escolher para contar essa história? São essas coisinhas que distraem a gente do peso tão grande da vida.
*Giovana Devisate é historiadora da arte e designer da moda

