
Não existe pessoa ou nação que resista a permanente repetição dos mesmos problema - créditos: divulgação
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03-04-2025 às 10h00
José Aluísio Vieira (*)
O Padrão da Autossabotagem – O Brasil tem um talento peculiar: sempre que se aproxima de um avanço significativo, encontra uma maneira de retroceder. Não pense que isso seja obra do acaso. Decisões políticas, econômicas e empresariais frequentemente ignoram a história, repetindo erros já conhecidos. Essa autossabotagem não é apenas política ou econômica – é cultural, estrutural e, acima de tudo, evitável. O resultado? Crises cíclicas, oportunidades desperdiçadas e um país que parece condenado a girar em torno dos próprios fracassos.
Vamos aos fatos, seus impactos e as lições que o Brasil insiste em ignorar.
Adeus, Ferrovias: O Brasil Preferiu o Caos Logístico
Nos anos 1950 e 60, enquanto os EUA mantinham 226 mil km de ferrovias e países como a China começavam a construir uma malha que hoje supera 150 mil km, o Brasil tomou o caminho oposto. Seduzido pela indústria automobilística, desmantelou sua rede ferroviária – hoje reduzida a apenas 29 mil km operacionais – e apostou tudo em rodovias precárias.
Impacto: O agronegócio, pilar da economia brasileira, paga fretes até 30% mais caros que concorrentes globais. Caminhões atolados em estradas esburacadas viraram um símbolo de ineficiência.
Lição ignorada: Dependência excessiva de rodovias é um erro logístico e econômico. Ainda assim, obras como a Ferrovia Norte-Sul, iniciada há décadas, seguem paralisadas por má gestão e falta de prioridade.
O Confisco da Poupança: Um Golpe Oficial Contra o Próprio Povo
Em 1990, o governo Collor, em uma tentativa desesperada de conter a hiperinflação, bloqueou bilhões de reais das contas dos brasileiros. A promessa era evitar o colapso econômico. O resultado? O colapso veio mesmo assim.
Impacto: Empresas faliram, famílias perderam economias e a confiança no sistema bancário desmoronou. Décadas depois, o trauma ainda é usado como desculpa para a baixa adesão dos brasileiros ao sistema financeiro.
Lição ignorada: Medidas radicais e mal planejadas só aprofundam crises. O Brasil, porém, continuou flertando com intervenções improvisadas ao longo dos anos.
Petrobras e o Preço da Ilusão: Como uma Gigante Quase Afundou Sozinha
Entre 2010 e 2016, o governo decidiu controlar artificialmente os preços dos combustíveis para mascarar a inflação. O problema? A Petrobras vendia gasolina e diesel abaixo do custo, acumulando um prejuízo estimado em R$ 100 bilhões entre 2011 e 2014.
Impacto: A empresa, outrora símbolo de solidez, perdeu credibilidade, afastou investidores e quase comprometeu sua sobrevivência. Em 2023, o debate sobre controle de preços voltou à tona, mostrando que o passado não ensinou nada.
Lição ignorada: Intervenções populistas adiam problemas, mas cobram um preço alto depois. E o Brasil insiste em pagá-lo.
A Queda da OGX e Eike Batista: A Ilusão Bilionária
Em 2013, Eike Batista prometia transformar a OGX na maior petroleira privada do Brasil. Os campos de petróleo que ele alardeava, porém, nunca entregaram o prometido. Resultado: a empresa perdeu 99% de seu valor de mercado em menos de dois anos, e investidores amargaram bilhões em prejuízos.
Impacto: A falência da OGX abalou a confiança no mercado de capitais brasileiro, expondo os riscos de promessas exageradas e má gestão.
Lição ignorada: Transparência e planejamento realista são essenciais para negócios sustentáveis. No Brasil, porém, o otimismo ingênuo e o improviso ainda dominam.
Educação: O Abismo que o Brasil Escolheu Não Enfrentar
O Brasil investe pouco e mal em educação básica. No Pisa de 2022, o país ficou entre os piores em matemática e leitura, enquanto nações como Coreia do Sul e Finlândia transformaram suas economias com educação de qualidade.
Impacto: Uma força de trabalho pouco qualificada limita a inovação e perpetua a dependência de commodities, como soja e minério.
Lição ignorada: Educação é investimento, não gasto. Mas o Brasil segue cortando verbas e priorizando soluções de curto prazo, condenando gerações ao atraso.
Reforma Tributária Adiada: O Nó que Ninguém Desata
Há décadas, o Brasil discute uma reforma para simplificar seu sistema tributário – um dos mais complexos do mundo, segundo o Banco Mundial. Empresas gastam cerca de 1.500 horas por ano para cumprir obrigações fiscais (média global: 200 horas), mas interesses políticos e corporativos travam qualquer avanço.
Impacto: A burocracia e os impostos altos sufocam empreendedores e afastam investimentos, enquanto o país perde competitividade.
Lição ignorada: Um ambiente de negócios hostil é uma escolha, não um destino. O Brasil, porém, prefere remendos a mudanças estruturais.
O Brasil Não Aprende – Enquanto Outros Países Evoluem
Enquanto o Brasil repete erros, outras nações mostram caminhos melhores:
– Chile e estabilidade econômica: Adotou regras fiscais rígidas e construiu uma economia previsível, enquanto o Brasil oscilava entre planos econômicos desastrosos.
– China e infraestrutura: Apostou em ferrovias e portos, reduzindo custos logísticos, enquanto o Brasil se afundava em rodovias precárias.
– Irlanda e atração de investimentos: Criou um sistema tributário simples e competitivo, atraindo gigantes globais, enquanto o Brasil sufoca seus empreendedores com impostos e papelada.
O contraste é brutal – e deveria ser um alerta.
Considerações Finais – O Brasil Está Preparando seu Próximo Grande Erro?
Olhando para o presente, os sinais são claros: políticas populistas, falta de planejamento e resistência a reformas continuam moldando nossas escolhas. A Amazônia, por exemplo, é um tesouro desperdiçado – o desmatamento ilegal e a ausência de uma bioeconomia sustentável queimam o que poderia ser nossa maior vantagem competitiva, enquanto países como a Noruega lucram com recursos preservados.
Se o Brasil fosse um jogador de xadrez, estaria sacrificando suas melhores peças para proteger uma estratégia falha. A história não perdoa quem não aprende – e, se nada mudar, o país seguirá tropeçando nos próprios pés.
Duas grandes questões merecem reflexão: quem está errando? Os governantes que tomam decisões ruins ou a sociedade que, com seu jeitinho e tolerância ao improviso, as aceita sem resistência? Porque, no fim, o Brasil não precisa de inimigos externos – já faz um trabalho impecável se sabotando sozinho.
Mas há uma pergunta ainda mais urgente: será que o Brasil ainda tem tempo de mudar o jogo, ou estamos condenados a repetir o roteiro?
(*) José Aluísio Vieira é consultor empresarial, trabalha com educação financeira e finanças empresariais.