As aventuras de Daniel Vorcaro - créditos: blog abc do abc
04-01-2026 às 10h40
Jerônimo Colaço de Magalhães Filho (*)
O tsunami desencadeado pelas aventuras do banqueiro Daniel Vorcaro e o seu famigerado banco Master nos leva, de imediato, à celebre indagação de Lenin sobre o que é um assalto a um banco comparado ao estabelecimento de um banco?
Senão por uma grave divergência cognitiva de massa para ignorar que a sede de origem de todo o imbróglio presente reside na bem sucedida e pontual operação da Polícia Federal, alguns meses atrás, na meca do deus mercado, na avenida Faria Lima, em São Paulo, para alguns, “avenida farinha lima”, em uma sutil referência ao fato de que lá não apenas se consome, mas também se lava o diabo em pó branco
Tal operação, contrastando em sua eficácia e eficiência o espetaculoso e macabro show de horrores do governador Cláudio Castro, no Morro da Providência, no Rio de Janeiro (RJ), confirma para todos os efeitos da advertência do Conselheiro Acácio, personagem de Eça de Queiroz, para quem, o diabo é que a consequência vem sempre depois e nunca antes.
Os resultados da bem-sucedida operação policial, de imediato nos serve para atualizar uma máxima do filósofo do idealismo alemão Immanuel Kant, para quem uma imprensa corrompida é pior do que uma multidão enfurecida.
Outra não será a constatação ao observar as meias verdades em suas sucessivas edições lançadas como flechas ao tempo, por notórios colunistas, já de há muito conhecidos em órgãos de imprensa, que como poderosos conglomerados de empresas vivem uma relação promíscua com o famigerado “deus mercado financeiro”, o qual que deveriam, com o rigor kantiano, fiscalizar e defender a moralidade nesse reino das necessidades e ambições desenfreadas.
Afinal, para o filósofo alemão, a imprensa é fundamental para a promoção da moralidade e da justiça. Em nosso caso resta-nos a conferir, pois os antecedentes ficam a dever, e muito. Questão premente, neste episódio, e que clama aos céus é sobre a pergunta angustiante de quem fiscaliza o fiscal?
O jusfilósofo mineiro Joaquim Carlos Salgado, em seu genial magistério, em célebre ensaio intitulado “Estado ético e estado poético” já advertira de uma impropriedade de uma tecnoburocracia que, se apropriando de um órgão estatal busca uma enviesada autonomia em relação ao Estado Nacional.
Ele aponta mesmo o caso do nosso Banco Central (BC) cuja autonomia foi aprovada no Parlamento e apoiada por não poucos partidos de esquerda, tendo mesmo constado do programa de governo do finado candidato a presidente República do finado candidato presidencial do PSB, Eduardo Campos.
Eis aí para a nossa esquerda, um ninho de contradições a qual nem mesmo as astúcias hegelianas da razão seriam capazes de esclarecer.
A pergunta que não se cala é sobre a autonomia em relação a quem? Ao Estado Nacional cuja soberania interna e externa não pode comportar limites de qualquer ordem, pois ao que parece o debater que tentam escamotear neste rumoroso caso é justamente o papel e autonomia do Banco Central do Brasil, que insistem em ser autônomo frente ao Estado brasileiro, mas se relaciona incestuosamente com a avenida Faria Lima ou “farinha lima” e outros centros financeiros internacionais.
O Supremo Tribunal Federal (STF) o Tribunal de Contas da União, a Polícia Federal, o Parlamente e a mídia podem e devem, sim, fiscalizar e cobrar, pois não pode haver soberania frente à soberania estatal e a Lei, que deve ser para todos e diante da qual todos são iguais.
Quanto as relações pouco republicanas de ministros das cortes superiores, fartamente denunciadas pela mídia, devem elas, também, ao seu turno serem expostas à luz do Sol por óbvio não se permitindo que em decorrência desses desvios se comprometam a estabilidade política, econômica e social do País.
Afinal, parece nos ter esquecido dos graves prejuízos trazidos à economia e à soberania do Brasil pela famigerada operação “Lava Jato”. Neste ninho de contradições da política brasileira muitos são os que, com mãos de gato desejam que tudo venha abaixo, para que tudo permaneça como sempre.
Fiquemos, pois, afinal, com a advertência de São João Batista: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.
(*) Jerônimo Colaço de Magalhães Filho é jornalista

