
Donald Trump presta um desserviço para a livre economia de mercado global - créditos: divulgação
Getting your Trinity Audio player ready...
|
05-04-2025 às 08h48
Rogério Reis Devisate (*)
Parece chegar ao fim o domínio global dos EUA. Como abraço de afogado, quer levar os países com quem tem parceria comercial.
Quem diria que veríamos algo assim ocorrer novamente? 97 anos após a Grande Depressão de 1.929, o mundo oscila e, sem entender o tamanho da gravidade, alegraram-se os países que não receberam taxações superiores às que estavam vigentes – o que talvez só demonstre a pouca relevância que lhes reconhece os EUA. O mesmo ocorreu com os países que foram pouco sobretaxados. A questão é que, em política, todas as armas são cabíveis e a influência econômica e fiscal têm tanta relevância quanto a guerra. Não sem motivos, o pensador e general prussiano Carl Von Clausewitz dizia que a guerra é continuidade da política.
Curiosamente, o nacionalismo está presente nos movimentos de Trump. Os Estados Unidos querem se proteger e valorizar a sua produção e domínio e, por isso, estende os seus tentáculos rumo às mais distintas direções. Foca no petróleo e no gás da Groelândia, bem como no Canadá, Panamá e Golfo do México, pretendendo, ainda, dominar os minerais raros do território ucraniano.
Busca se imiscuir em várias áreas do globo, aberta e declaradamente, sem pudores, no lugar do seu tradicional discurso de respeito à livre determinação dos povos enquanto, por procuração, fazia as suas guerras e política mundo afora.
Sabemos que a interdependência dos países é uma realidade neste mundo globalizado, estando já se flexibilizando a rigidez conceitual da Soberania. Em verdade, após as Grandes Navegações o mundo encolheu e a humanidade percebeu que os continentes eram conectáveis. Com o fim (oficial) da Guerra Fria, ingressamos na mundialização do capital, onde operações são efetuadas com um clique – de qualquer lugar, para qualquer lugar.
Essas iniciativas e ações dos EUA não são mero acaso. São jogadas com a finalística intenção de se manter no topo. Para alcançar esse objetivo, deixariam de recorrer a embargos comerciais ou às armas, se fosse necessário?
Aliás, quem diria que os EUA defenderiam o protecionismo! Para quem não se lembra, os EUA desqualificavam os países que fossem nacionalistas. Aqui, Vargas e Jango, de modo distinto, encerraram os seus governos pela pressão das forças externas, inclusive com a coincidência de ter enfrentado os mesmos algozes, como Carlos Lacerda, Eduardo Gomes e a chamada “banda de música da UDN”.
Contudo, pouco se fala nas pressões da Hanna Minning Co, mineradora norte-americana, que muito já influenciou a política brasileira e que tinha interesse declarado nos imensos depósitos de ferro existentes em Minas Gerais.
Sem muitos detalhes, basta lembrar que Vargas cassou a sua concessão de exploração, que foi, depois, revitalizada por Café Filho; o mesmo cenário se repetiu quando Jango combateu a sua concessão de exploração, que foi restaurada por Castello Branco. Aliás, sob outro viés, na Carta Testamento, Vargas falava na espoliação que sofríamos, enquanto, na declaração de renúncia, Jânio Quadros se referia às “forças terríveis” que se abateram sobre o seu governo.
Naqueles idos, os EUA lançavam a propaganda de que seriam “comunistas” os governos com viés nacionalista, algo que ganhava proporções imensas nas mãos do senador americano Joseph MacCarthy, com suas duras investigações – no período que ficou conhecido como Macartismo.
Agora, como cogitado, os EUA é que estão sendo “nacionalistas” e adotando medidas contra o mundo, com aumento de tarifas para a proteção da sua indústria, economia e povo. Estariam, por isso, se auto aplicando um reconhecimento comunista nessa ação nacionalista?
Noutro enfoque, o mundo parece que já não é – ou será – grande o bastante para o crescimento da população e da indústria e comércio de países como os Estados Unidos, a China, a Rússia e a Índia. Além disso, rateia o motor econômico da Europa unida, quando a Alemanha já não expressa a solidez de outrora.
Sem a Alemanha forte e sendo, como era, o dínamo da economia europeia, o continente inteiro fica vulnerável. Talvez por isso, num ato que desperta interesse e curiosidade, no dia 26 de março, a Comissão Europeia tenha pedido que, em caso de guerra, a população só estoque alimentos e suprimentos suficientes para 72 horas. Como não se costuma alarmar a população sem motivos, a fala é um alerta global para a iminência de conflito no continente europeu.
Noutro foco, do ponto de vista político-militar, a Europa é a OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte, entidade intergovernamental e braço norte-americano no continente. Opera a OTAN como verdadeira contenção da influência da Rússia e da China. Para valorizar esse imbróglio, basta considerar que a Rússia atacou a Ucrânia quando esta namorava o seu ingresso na OTAN e que isso ocorreu sob o silêncio dos EUA, da China e do resto do mundo.
Parecia que os EUA tinham perdido o seu poder de ditar posturas mundo afora, notadamente após os acontecimentos no Afeganistão e no Iraque. Talvez, por essa percepção global, agora os EUA estejam agindo para restabelecer a sua aparência de força e de poder moderador, ao adotar a postura de ousar querer mais e mais, com declarado interesse na incorporação da Groenlândia, Canadá, Panamá e Golfo do México (e nos minerais ucranianos).
Pelos motivos declarados ou por outros, a postura inovadora dos EUA se aproxima daquela adotada há cerca de 90 anos pela Alemanha, que precisava rearmar-se, ter fontes de energia ampliadas e novos territórios para se expandir. Ora, um país só adota essa postura por falta de opção. Algo como tudo ou nada. Precisa agir, mobilizar as suas forças e ousar no tabuleiro global, para ganhar uma sobrevida.
Por isso, nessa encruzilhada, os EUA forçam um abalo no mercado global, com esse aumento de tarifas. Aliás, o impacto é grande, com percentuais de até 49% (quarenta e nove por cento) para alguns países. No caso do Brasil, o percentual é de 10% (dez por cento) e não cremos seja por bondade ou empatia, mas por reflexo do nosso peso no mundo econômico, pois não exportamos com a força da China.
Toda opção política exige maturação das ideias e análise do contexto. A questão é que, na vida, cada escolha exige perda. Se escolhemos entre A ou B, ficamos com A enquanto perdemos B. No campo dessa guerra de tarifas, quando comparamos o parque industrial, o lastro em dólar, o peso das bolsas e dos mercados de valores e a influência na precificação das commodities, parece que estamos em posição mais vulnerável.
Os EUA sabem que são forte comprador e, pela ocorrência do Monopsônio, consegue influenciar na fixação do preço do que vai comprar. Contudo, sabe, também, que a China já o abala. Sabe, ainda, que o seu papel não é confortável e que o status quo não durará para sempre.
Como os EUA não agem sem conhecimento das regras do jogo, novas jogadas terão que ser feitas, adiante, inclusive por represália às reações que já se iniciam.
Por fim, numa metáfora, nessa rodada na mesa de jogos a nossa mão não está boa e não é hora de blefar ou comemorar. Todo cuidado é pouco e qualquer detalhe pode nos salvar ou nos comprometer a ponto de nos fazer perder as calças e ter de vender o jantar para comprar o almoço…
(*) Rogério Reis Devisate é membro da Academia Brasileira de Letras Agrárias, da União Brasileira de Escritores e da Academia Fluminense de Letras. Presidente da Comissão Nacional de Assuntos Fundiários da UBAU. Membro da Comissão de Direito Agrário da OAB/RJ. Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ. Autor de vários artigos jurídicos e dos livros Grilagem das Terras e da Soberania. Colunista do Diário de Minas