Desfile de moda realizado por IA - créditos: Freepik
08-02-2026 às 15h20
Giovana Devisate*
A inteligência artificial anda ocupando cada vez mais espaços nas nossas vidas. São aplicativos surgindo com ferramentas variadas que podem otimizar tarefas cotidianas, ampliar processos criativos e transformar a maneira como nos comunicamos, trabalhamos e produzimos coisas.
Algumas pessoas usam IAs para simular conversas com psicólogos, nutricionistas, médicos, agentes de viagem e outros profissionais, passando a mediar relações humanas, decisões e imaginários. Isso tudo mostra como a tecnologia ultrapassa os limites da ética e como as pessoas também perdem a noção do que é certo, errado, ideal e, pior: como a maioria não tem ideia do perigo que é não acessar profissionais de verdade, realmente capacitados.
Recentemente, vimos estourar a música A Sina de Ofélia, que seria a versão brasileira de The Fate of Ophelia, da Taylor Swift. As vozes da Luiza Sonza e do Dilsinho, na versão da música produzida por IA, são idênticas às da vida real e esse é o perigo: nenhum dos dois de fato gravou a música, tudo foi produzido por inteligência artificial. A versão, que não foi autorizada, entrou para o Top 50 entre as músicas brasileiras mais ouvidas no Spotify e ficou entre as Billboard Brasil Hot 100, até ser removida das redes sociais por causa dos direitos autorais. Isso nos faz discutir com agressividade sobre questões de autoria, autonomia, eficiência, ética e limites que precisam existir entre o humano e a máquina…
Na moda, também vemos a IA chegando de diversas formas. Algumas campanhas publicitárias estão sendo produzidas com plataformas de inteligência artificial e até mesmo imagens para sites de venda estão sendo geradas, sem a necessidade de contratação de modelos, equipe de criação e produção especializada.
Isso me leva a querer discutir sobre a inteligência artificial, também sob a perspectiva da moda, mas de um outro lugar: recentemente, um desfile de alta-costura foi inteiro inventado, sem que nenhuma roupa ou modelo existisse de verdade, no campo físico… Não estaríamos indo longe demais?
Imagina ser convidado para um desfile, logo na semana de moda mais importante do mundo e, inevitavelmente, sentir-se traído pelo destino ao deparar-se com um telão transmitindo roupas e modelos que sequer existem? Se a alta-costura tem ligação direta com o apreço pelo manual, intrínseca com o tempo, como pode um desfile da categoria “acontecer” virtualmente apenas, feito através da inteligência artificial?
*Giovana Devisate é designer e historiadora da moda

