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23-09-2026 às 09h17
Samuel Arruda*
Luiz Inácio Lula da Silva abriu nesta terça-feira o debate geral da Assembleia Geral da ONU com um discurso que procurou apresentar o Brasil como defensor do multilateralismo e da soberania nacional. Mas a fala também foi cuidadosamente conectada à agenda política brasileira, apenas 12 dias antes do primeiro turno das eleições.
O presidente afirmou que a ONU atravessa um de seus momentos mais críticos, criticando o poder de veto no Conselho de Segurança, a incapacidade da organização de conter conflitos armados e aquilo que classificou como perda de credibilidade do sistema multilateral. Também defendeu negociações diplomáticas para guerras e uma reforma da estrutura das Nações Unidas.
A questão central, entretanto, não está apenas no que Lula disse, mas para quem ele falou.
Embora o cenário fosse internacional, diversos trechos pareciam destinados também ao eleitor brasileiro. Lula falou de segurança pública, bets, Pix, escala 6×1, democracia, desinformação e interferência estrangeira. A Exame classificou a fala como um discurso com características de campanha, justamente pela incorporação de bandeiras que estão no centro da disputa eleitoral.
A ONU como palco internacional — e brasileiro
Um dos momentos mais claros dessa estratégia foi a afirmação de que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, dentro de uma defesa da soberania brasileira.
Sem citar Donald Trump nominalmente, Lula criticou o uso de tarifas comerciais como instrumento de pressão e rejeitou interferências externas em processos eleitorais. O contexto é particularmente sensível: Brasil e Estados Unidos continuam negociando questões comerciais, enquanto a eleição brasileira ocorre em apenas 12 dias.
A escolha das palavras revela uma tentativa de fazer duas coisas ao mesmo tempo: confrontar politicamente a pressão americana sem fechar a porta para a negociação econômica.
Essa é uma distinção importante.
O discurso foi duro na retórica, mas não significou necessariamente uma ruptura diplomática com Washington. Antes da viagem, já havia expectativa de que Lula evitasse um ataque nominal a Trump justamente para não prejudicar as negociações comerciais.
A professora Andreza Aruska de Souza Santos, do King’s College London, avaliou que um confronto direto com Trump teria poucos benefícios diplomáticos para o Brasil. Para ela, Lula pode defender soberania internamente e, simultaneamente, tentar manter uma relação funcional com Washington.
O problema da fronteira entre Estado e campanha
É aqui que aparece a principal questão crítica do discurso.
A tradição da abertura da Assembleia Geral da ONU permite ao presidente brasileiro apresentar posições do país sobre grandes questões internacionais. Mas Lula aproveitou a oportunidade para introduzir temas eminentemente domésticos.
Falou contra as bets, defendeu o fim da escala 6×1, exaltou o Pix, apresentou ações contra o crime organizado e encerrou a fala mencionando diretamente a escolha eleitoral que os brasileiros farão em outubro.
A Exame interpretou essa combinação como evidência de que o discurso funcionou também como peça de comunicação eleitoral.
Isso não significa que os temas sejam ilegítimos numa tribuna internacional. A questão jornalisticamente relevante é outra: quanto do pronunciamento estava destinado à política externa brasileira e quanto estava destinado à audiência eleitoral doméstica?
A resposta parece estar justamente na mistura dos dois públicos.
Crime organizado: soberania versus cooperação
Outro trecho importante foi a abordagem da segurança pública.
Lula afirmou que o Brasil não pretende “terceirizar” a defesa de suas fronteiras e rejeitou a ideia de presença militar estrangeira. Ao mesmo tempo, defendeu cooperação internacional para bloquear o fluxo de armas e dinheiro que alimenta organizações criminosas.
É uma posição que tenta conciliar duas premissas: o combate ao crime precisa de cooperação internacional, mas a condução da segurança dentro do território brasileiro deve permanecer sob comando brasileiro.
O tema ganhou peso adicional depois que os Estados Unidos classificaram organizações criminosas brasileiras como terroristas, aumentando a tensão diplomática entre Brasília e Washington.
Economia: discurso social, minerais e tarifas
Na economia, Lula apresentou uma visão baseada em três eixos: redução da desigualdade, valorização do trabalho e maior controle nacional sobre recursos estratégicos.
O presidente defendeu que minerais críticos e terras raras sejam explorados de maneira a gerar valor agregado e transferência tecnológica para o Brasil. Também afirmou que o país poderá registrar recorde de exportações em 2026 mesmo diante das tarifas americanas.
Esse ponto merece uma leitura mais cuidadosa.
Exportar mais não significa necessariamente que as tarifas não estejam produzindo efeitos econômicos. O resultado agregado das exportações pode ser influenciado por preços internacionais, câmbio, diversificação de mercados, volume exportado e composição da pauta. Portanto, a afirmação presidencial deve ser separada da avaliação sobre o impacto efetivo das tarifas sobre empresas e setores específicos.
No campo monetário, o cenário doméstico também recomenda cautela. No mesmo dia do discurso, o economista Carlos Lopes, do banco BV, avaliou que a economia brasileira apresenta sinais de desaceleração, mas que mercado de trabalho e crédito ainda mantêm pressões inflacionárias. A avaliação do banco era de que o corte recente da Selic poderia ser o último por enquanto, embora o cenário permanecesse aberto.
Ou seja: o discurso de Lula apresentou uma economia brasileira resiliente, mas os indicadores acompanhados pelo mercado continuam mostrando um quadro mais complexo do que uma narrativa simplesmente otimista.
O Pix virou símbolo político
Outro elemento curioso foi a presença do Pix em um discurso na ONU.
O sistema criado pelo Banco Central passou de instrumento financeiro doméstico a símbolo da disputa econômica e tecnológica entre Brasil e Estados Unidos. Lula afirmou que o país não abrirá mão do Pix e rejeitou pressões que, segundo ele, poderiam ameaçar seu modelo.
Politicamente, a escolha é eficiente porque transforma uma tecnologia cotidiana — usada por milhões de brasileiros — em símbolo de soberania.
Economicamente, entretanto, é necessário separar o símbolo da questão regulatória: discutir interoperabilidade, concorrência, regulação financeira ou relações comerciais é diferente de discutir se o Pix pertence ou não aos brasileiros.
Big Techs e inteligência artificial
Lula também colocou a regulação das grandes plataformas digitais e da inteligência artificial no centro do discurso.
Aqui existe uma questão internacional genuína. A velocidade de desenvolvimento da IA, a proteção de dados, a remuneração de criadores e os mecanismos de moderação de conteúdo estão sendo discutidos em diversos países.
O presidente tentou enquadrar o problema como uma questão de soberania e governança global, defendendo regras para as empresas de tecnologia.
É uma das partes menos especificamente eleitorais do discurso e mais alinhadas à discussão internacional sobre governança tecnológica.
Meio ambiente: uma das áreas mais estratégicas
No campo ambiental, Lula procurou apresentar o Brasil como potência energética e ambiental.
Defendeu a preservação da Amazônia, redução do desmatamento, transição energética e exploração de minerais estratégicos condicionada à geração de valor no território nacional. Também destacou que o país pode conciliar crescimento econômico e redução das emissões.
Mas existe uma tensão importante nessa agenda: o Brasil quer simultaneamente expandir sua relevância como produtor de petróleo, explorar novas fronteiras de recursos naturais e se apresentar como liderança da transição energética.
Não necessariamente são objetivos incompatíveis, mas exigem políticas capazes de conciliar investimento, arrecadação, segurança energética e redução de emissões. O discurso apresentou a compatibilidade como possível; a questão prática é como ela será implementada.
O que os especialistas permitem enxergar
A análise dos especialistas consultados pela imprensa aponta para uma característica central do pronunciamento: Lula tentou evitar uma escolha entre diplomacia e campanha. Procurou fazer as duas coisas simultaneamente.
A análise de Andreza Aruska destaca que o momento eleitoral pesa inevitavelmente sobre a estratégia presidencial. O desafio é preservar canais de negociação com Washington sem transmitir ao eleitor brasileiro a imagem de que o governo está cedendo à pressão americana.
Já a análise econômica disponível hoje aponta para uma situação menos binária do que a retórica política costuma apresentar: há sinais de desaceleração, mas também resistência no mercado de trabalho e no crédito, mantendo preocupações inflacionárias.
A contradição central
O discurso de Lula pode ser resumido em uma contradição que não é necessariamente um erro, mas revela o desafio de sua política atual:
O Brasil quer se afirmar como potência soberana e, ao mesmo tempo, precisa negociar com as grandes potências das quais depende em comércio, tecnologia, investimentos e segurança internacional.
Lula escolheu enfatizar a soberania.
Isso explica a linguagem sobre tarifas, eleições, crime organizado, Pix e recursos minerais. Mas a soberania não elimina a interdependência econômica.
Da mesma forma, defender o multilateralismo é coerente com a tradição diplomática brasileira, mas a própria ONU que Lula criticou possui limitações estruturais que o Brasil sozinho não consegue alterar.
O saldo jornalístico da fala
O discurso teve uma característica particularmente marcante: não foi exclusivamente um discurso de política externa.
Foi, simultaneamente:
- uma defesa do multilateralismo e da reforma da ONU;
- uma resposta política às pressões dos Estados Unidos;
- uma defesa da soberania brasileira;
- uma apresentação da agenda ambiental e econômica do governo;
- e uma peça de comunicação dirigida ao eleitor brasileiro às vésperas da eleição.
Essa última dimensão é justamente o ponto que merece maior escrutínio.
A Assembleia Geral da ONU oferece a um presidente brasileiro uma das maiores vitrines diplomáticas do planeta. Lula usou essa vitrine para falar ao mundo, mas também para falar ao Brasil.
E talvez essa seja a principal chave para compreender o discurso desta terça-feira: a fronteira entre diplomacia presidencial e campanha eleitoral ficou especialmente estreita.
*Samuel Arruda é jornalista e editor de politica

