Créditos: Divulgação
16-05-2026 às 08h33
Anna marchesini*
Há uma frase do professor José Pacheco que deveria estar estampada em cada repartição pública, cada sala de aula e cada grupo de WhatsApp: “Gentileza não é fraqueza. É coragem”.
Vivemos a era da urgência. O e-mail exige resposta imediata, o trânsito não perdoa hesitação, a rede social premia quem grita mais alto. Nesse cenário, ser gentil passou a ser visto como lentidão, como ingenuidade, como perda de tempo. Ledo engano.
A violência não começa no soco. Começa no “bom dia” ignorado. No pedido negado sem olhar nos olhos. No comentário ácido digitado em 5 segundos e que arruína o dia de alguém.
Pesquisas da Universidade de Harvard apontam que atos de gentileza liberam ocitocina, reduzem cortisol e aumentam a longevidade. Gentileza é literalmente remédio. Para quem oferece e para quem recebe. Ainda assim, economizamos gentileza como se fosse moeda rara.
Por quê? Porque confundimos respeito com submissão. Porque achamos que ser firme exige ser duro. Porque o mundo nos treinou para competir, não para cooperar.
Ser gentil hoje é revolucionário porque vai na contramão do sistema. É olhar no olho do atendente e dizer “obrigado” com nome. É ceder a vez no trânsito sem calcular se vão agradecer. É responder uma crítica com argumento, não com ataque.
Gentileza é escolher a pausa numa cultura de reação. É entender que por trás de todo CPF existe um cansaço, uma história, uma manhã difícil. É lembrar que eficiência sem humanidade vira apenas automação. E já escrevemos sobre insetos aqui.
O professor Pacheco, idealizador da Escola da Ponte, provou que é possível educar sem grito, gerir sem humilhação e construir sem autoritarismo. Não por romantismo. Por resultado. Ambientes gentis produzem mais, adoecem menos e permanecem.
Gentileza não é elogio vazio ou sorriso forçado. É dignidade em ação. É corrigir sem humilhar. É discordar sem desumanizar. É lembrar que toda pressa do mundo não justifica atropelar ninguém.
Num país com índices alarmantes de ansiedade e depressão, tratar o outro bem é política pública. É saúde mental. É construção de comunidade.
A revolução mais urgente não será feita com megafone. Será feita com “por favor”, “desculpa”, “precisa de ajuda?”. Será feita quando entendermos que o antídoto para um tempo bruto não é endurecer. É amolecer, sem perder a firmeza.
Porque no fim, a única coisa que realmente fica é como fizemos o outro se sentir. E gentileza, ao contrário do que dizem, não custa nada.
Custa não ter.
*Anna Marchesini é Educadora e palestrante

