Moda dos anos 90 estão de volta - créditos: mulheres R7
07-03-2026 às 09h9
Giovana Devisate*
Recentemente, enquanto almoçava no centro da cidade, assistia ao jornal que passava na televisão do restaurante. A notícia era sobre a prisão dos criminosos que estupraram uma jovem de 17 anos em Copacabana. Engoli a comida com dificuldade. Em seguida, notícia de bombardeio na Turquia. De novo, é difícil conseguir comer. Na mesa do lado, uma senhora comentava com o marido que ela acreditava ser o fim dos tempos.
Dirigi de volta para casa, refletindo sobre as notícias e pensei no que a senhora, vizinha de mesa, disse. Um caminho longo, uma cabeça inquieta e uma comida sendo mal digerida. É quase impossível digerir sobre esse mundo e a humanidade.
Chegando em casa, abri o Instagram para responder algumas mensagens e tinha uma publicação, de uma página de moda, falando que “parte da tendência atual é recriar a estética das décadas passadas”. Claro que me perguntei por qual razão a gente olha tanto para o passado. Será que a nostalgia funciona como um motor criativo?
Os anos 90 e 2000 viraram tendência, voltamos a usar câmeras analógicas, provocamos a ascensão do nostálgico, com aplicativos que nos lembram a era dos blogs e o retorno dos fones com fio… É como se estivesse havendo um rebranding da virada de século, numa ressignificação das coisas que percebemos.
Acredito, mais a cada dia que passa, que a nostalgia funciona como um motor criativo porque a gente tem muita pouca fé no futuro, sem muitas expectativas… Agora que uma guerra se alargou, temos um ótimo exemplo! Como ter fé no amanhã?
A gente se volta para o passado porque não tem um olhar tão claro sobre os próximos anos. Essa dificuldade de imaginar o futuro cria uma cultura voltada para o passado… A gente até começa a achar as coisas antigas mais legais, mais autênticas.
Em setembro de 2025, escrevi um texto no qual disse que consumimos porque sonhamos, que “se não sustentarmos a ideia do amanhã, paramos de perseverar a nossa existência, de projetar o futuro, de persistir em algo maior que nós mesmos”. Disse que consumimos não só para satisfazer uma necessidade atual, “mas para alimentar um desejo de futuro”.
Ainda acredito nisso tudo, mas penso que o futuro tem, infelizmente, deixado de ser promessa. Na virada de século, a geração anterior viu grandes avanços tecnológicos libertadores, acompanhou a corrida espacial, assistiu filmes de ficção científica otimistas, com um futurismo facilitador e uma humanidade transgressora, com novos ideais e novas perspectivas.
Agora, o tempo corre mais rápido e o que vemos são crises climáticas gravíssimas e colapso ambiental, guerras, filmes de ficção mostrando o fim da humanidade e a tecnologia tomando conta das nossas vidas e nos controlando, até mesmo substituindo os humanos em tarefas que antes eram apenas nossas, nos causando tanta ansiedade. O futuro deixou de ser promessa de sonho e conforto e passou a ser ameaçador e incerto.
No fim, como falei, passou a ser mais fácil olhar para o passado e encontrar, na estética já conhecida, certo acalento. Relembrar a infância, a vida simples, as relações humanas menos mecanizadas, uma vida sem a saturação digital e sem esse vício tão prejudicial. O passado é um território conhecido e, por isso, viver o hoje com base nele parece ser mais estável e confortável.
Isso acabou não só levando a sociedade a revisitar as décadas de 90 e 2000 (na moda, no cinema, na música, na estética e na arte) como também fez com que a própria indústria se apropriasse dessa nostalgia e passasse a explorá-la de forma estratégica. O mercado, evidentemente, não ia deixar esses comportamentos passarem despercebidos. A nostalgia, o medo, a insegurança, as crises, tudo virou produto. Marcas começaram a surgir com soluções para nosso emocional instável, acompanhadas de estratégias que reeditam o passado como forma de manter a economia girando e o consumo em movimento.
No cinema e na música, por exemplo, aumentaram o número de remakes e continuações (como Sexta-Feira Muito Louca, que ganhou uma segunda parte depois de 22 anos), além da reutilização de referências já conhecidas na criação de algo novo (como no Future Nostalgia, da Dua Lipa, que se inspira em músicas das décadas de 70, 80 e 90).
Aí, fico pensando no quanto nos tornamos tecnológicos, mas pouco criativos. No quanto estamos aprisionados no presente, sem capacidade de movimento em direção ao futuro. Nunca tivemos tanta inovação tecnológica, mas também nunca sonhamos tão pouco porque, acho, estamos ocupados demais reagindo ao agora, digerindo o presente, lidando com as ansiedades e as demandas que chegam com os acontecimentos do hoje, com o fluxo gigante e constante de informação, com as notícias ruins.
Quem acorda, vê as notícias e consegue continuar vivendo normalmente, ainda não percebeu que a única coisa constante é a instabilidade da vida. O tempo é de instabilidade política global, de transformações tecnológicas, de crise climática, de ansiedade generalizada…
Na internet, tenho visto muitos memes sobre o fim do mundo, sempre fazendo piadas com a ideia de que, se tudo for acabar mesmo, não tem porque trabalhar, estudar, fazer dieta… A questão que fica para mim é que a nostalgia é um sintoma de uma geração, algo que espelha o que a humanidade vive.
*Giovana Devisate é historiadora da arte e designer de moda

