Créditos: Ilustração produzida por IA
28-02-2026 às 13h00
Dídimo Teodoro de Piônio*
D1
Entre aqueles que tomaram conhecimento daquilo que a UFMG anotou como “ato de ofensa e discriminação contra pessoa com deficiência” e classificou como “episódio” [1], alguns viram três coisas. Um professor, que, segundo eles, errou. Um corpo docente, o da UFMG, cuja composição heterogênea inclui gente que, inclusive, acerta. E um dedo apontado.
Ignorando tanto o cadeirante quanto a humilhação a ele imposta, também viram dupla injustiça. Injustiça quanto ao peso atribuído ao erro desse professor sem considerar que, talvez, seu comportamento seja geralmente educado. E injustiça para com a UFMG, já que a instituição não pode ou não cabe a ela controlar seus professores, todos sujeitos a sucessos e fracassos.
2
A primeira tese defende que, apesar do “episódio”, esse professor não erra sempre, nem sempre acerta, podendo estar, a qualquer momento, numa fase ou noutra. Moralmente falho, esse argumento admite brechas no dever de respeitar o outro e, devido à sua essência lisonjeira, corrompe incautos. Refém de seu charme, a sociedade é forçada a conviver com a bipolaridade desse professor. Se o encontrou em sua fase do erro, que infelicidade a do cadeirante; vida que siga.
2.1
O que esse professor fez não foi “episódio” exclusivo e isolado, porque atuou três vezes.
Começou dizendo: – “Sou escroto, mas vou tirar o carro.”
Então, ele entrou em seu carro, procurou vaga, manobrou, estacionou etc. e atuou de novo: – “Tchau, cadeirante! Espero que você ande muito por aí.”
Então, retirou-se e, mais tarde, naquela mesma noite, atuou mais uma vez: – “E, aí, ele voltou a andar?”.
Isso não é erro. É: má-formação, efeito de tolerância materna, consequência de tolice paterna (aos nove anos de idade, a criança já sabe o que é certo e errado). É: adolescência mal conduzida, más influências, amizades podres. É: imaturidade e, em decorrência disso, inaptidão para qualquer papel na vida acadêmica.
Esse professor não errou. Simplesmente, repetiu o padrão de comportamento que, há muito tempo e em muitos lugares, praticou com consentimento, aplauso e incentivo do que a UFMG chama de “comunidade”. O que esse professor fez não se faz sem plateia.
Não se trata, pois, de opinar sobre comportamento individual. Trata-se de avaliar a tal “comunidade”, pois sua cultura influencia a sociedade e alimenta o mecanismo que toma “professor da UFMG” por modelo e fabrica seus espelhos.
2.2
Enquanto procurava vaga para estacionar o carro, esse professor deu rédea solta à sua imaginação.
No caminho até onde o cadeirante e sua esposa estavam, decidiu que aquela era a oportunidade que buscava para conhecer, na prática, o que escondia na escuridão profunda de sua alma. Eis que ansiava por reencontrar o que havia naquele buraco aparentemente impenetrável, fosse maravilha ou monstruosidade. Ao aproximar-se do casal, confessou seu desejo: – “Tchau, cadeirante! Espero que você ande muito por aí.”
Esse “que você ande” teve a intenção de submergir o outro, diminuí-lo, forçá-lo a esconder-se nas próprias vísceras. A eficiência de coação desse “que você ande” amplificou seu poder e, consciente da magnitude de seu narcisismo, perguntou à esposa do cadeirante, numa espécie de sonho ou de criação de realidade: – “E, aí, ele voltou a andar?”
2.3
Não houve dedo apontado para esse professor.
O que fizeram Diretório Acadêmico da Escola de Engenharia da UFMG, Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal de Minhas Gerais, Estadão, Ministério Público do Estado de Minas Gerais, Ordem dos Advogados do Brasil Seção Minas Gerais e Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais, foi mostrar esse professor apontando o dedo para todos.
O “episódio” é uma fotografia na qual esse professor aponta o dedo para o rosto de um homem cujas condições de defesa, por depender de cadeira de rodas, são desiguais. Por isso o ataque foi covarde e cruel.
2.4
Em tempo: o “corpo docente” da UFMG manifesta-se, em tese, por meio do Sindicato dos Professores de Universidades Federais de Belo Horizonte e Montes Claros (APUBH).
Os atuais interesses de APUBH estão registrados em https://apubh.org.br/; entre eles, os seguintes: – “o mercado financeiro sequestra nossos direitos”; – “um país sem ciência é um país sem futuro”; – “da luta ninguém se aposenta”; e, – “pelo fim da escala 6 x 1”. Palavras de ordem alheias a questões como caráter de “corpo docente”.
Por esses ou outros motivos, APUBH não se pronunciou sobre o “episódio”.

Fotos/créditos: https://aíbh;prg;br/
3
A segunda tese sugere que o corpo docente da UFMG ou é composto por professores que, aleatoriamente, acertam e, indiscriminadamente, erram, ou está dividido em dois grupos, que, aqui, chamamos de virtuosos e viciados.
No primeiro caso, qualquer professor é livre para praticar todo tipo de virtude e, a seu critério, todo tipo de vício.
No segundo caso, viciado é o que, por princípio, adere à mentalidade de “sou escroto”. Virtuoso é aquele que, por causa de sua fé na verdade, não seria hipócrita a ponto de dizer que nunca erraria. “Ninguém é perfeito, nem nasce para ser exemplo de moralmente”, diria um virtuoso, ecoando a primeira tese e abrindo portas à atrocidade. Portanto, é incerto se virtuosos resistiriam à pressão de viciados, nem se teriam firmeza de espírito suficiente para não serem cooptados pelo crime.
Há, então, que se retirar a confiança depositada em “professor da UFMG”, pois é perigoso aceitar lição de alguém que, a qualquer momento, pode surpreender com barbaridade. E arriscado, porque, no limite, as partes tendem à igualdade de perversão, sob a premissa de que o “professor da UFMG” seria louco se, diante de cadeirante, não o humilhasse.
3.1
Para segurança social, recomenda-se o seguinte: – avaliações psicológica, psiquiátrica e psíquica; – identificação daqueles que, com toda a calma do mundo, perguntariam a cadeirante se voltou a andar; e, – exoneração.
Conforme a gravidade de diagnósticos, transferência para instituição propícia à descida íntima ao vazio da alma, à meditação sobre o silêncio da jornada ao ressesso da caverna e à reflexão sobre o sentido secreto de um “episódio” cujas falas principais são:
– “Tchau, cadeirante! Espero que você ande muito por aí.”; e,
– “E, aí, ele voltou a andar?”
Além disso, recomenda-se repetição do procedimento até a consciência da vergonha que se diz que cada um guarda em si. Mesmo que isso signifique ter que tocar o chão do abismo com a ponta dos pés sem poder levantar-se da cadeira de rodas.
4
Longe da alegação de que errare humanum est, a UFMG prometeu “rigor na apuração dos fatos”. Independente disso, o “episódio” deverá afetar a forma como, na UFMG, são geridos os concursos para exercício de funções docentes.
A UFMG deverá demonstrar, inequivocamente, que adquiriu nova percepção a respeito de sua própria natureza intelectual e psicológica.
O sinal mais evidente da mudança deverá ser a exigência de coerência moral e política, simbolizadas por meio de lembrança anual do “episódio” com distribuição de medalha de honra ao mérito e, no auge do evento, homenagem a Pedro Édson Cabral Vieira.
[1] UFMG. Nota à comunidade. 14-2-2026 Dídimo Teodoro de Piônio

