Noite estrelada - créditos: domínio público
04-04-2026 às15h38
Giovana Devisate*
Eventualmente me perguntam quais são os meus artistas favoritos. Acho essa pergunta bem difícil de responder porque cada período da história da arte tem características muito únicas, com nomes gigantes, que me marcaram durante o meu tempo na universidade.
Sempre respondo que tenho um apego pelo Monet porque amo as ninféias e porque ele marca uma grande virada na história da arte e, também, que amo Van Gogh, porque adoro o jeito que ele se relaciona com a própria loucura. Como a maioria das pessoas conhece esses artistas, citá-los me poupa de explicar muitas coisas. É a resposta básica, mas que não deixa de ser verdadeira: eu realmente amo e tenho cartões postais de obras dos dois na parede do meu quarto.
Nessa última semana, depois de ouvir essa pergunta sobre os meus artistas favoritos e responder a minha clássica dupla moderna Monet e Van Gogh, fiquei pensando em vários nomes que poderia ter falado, de outros períodos, mas que certamente fogem do óbvio para os leigos no assunto. Um deles é o da artista italiana Artemisia Gentileschi, que me traz muitas reflexões em tempos como o de hoje.
Artemisia Gentileschi foi uma pintora barroca nascida em Roma, em julho de 1593. Ela começou a pintar ainda muito jovem dentro do ateliê do pai, o artista Orazio Gentileschi. A partir disso, desenvolvendo as suas habilidades, se tornou gigante.
Como sabemos, muitos nomes femininos foram apagados ao longo da história da arte. Ela, no entanto, conseguiu fincar a sua bandeira no período em que viveu e se tornar a maior artista (mulher) do barroco. Ainda assim, quase nenhum livro a cita, nunca deixando de mencionar nomes de homens como Caravaggio, Rembrandt, Velázquez…
Importante frisar que muitas obras feitas por mulheres eram roubadas por seus maridos, irmãos ou até mesmo artistas (homens) da região, o que as fez começar a registrar seus rostos de maneira sutil em suas obras, como uma forma de assinatura, para tornar possível uma identificação.
Algo que me chama a atenção na história de Artemísia é que ela foi vítima de um estupro cujo autor do crime era um pintor amigo do seu pai. O crime, no período, não era o estupro em si, mas desonrar uma mulher, tomando a sua virgindade.
Nessa época, uma mulher virgem antes do casamento significava pureza, controle e, principalmente, garantia de linhagem para a família, com a certeza de que os herdeiros seriam filhos biológicos do marido. A virgindade de uma mulher não era só sobre ela, mas sobre a honra de toda a família, já que tinha um valor social e moral gigantesco.
Isso fez com que um abuso aos 18 anos ganhasse ainda mais significados: o problema para a artista não era só a violência sofrida, mas também a mancha da honra da família e do seu nome, já que tudo era sobre o corpo da mulher, sua virgindade e o que ela representava para o núcleo familiar e para a sociedade.
A Artemisia foi violentada em 1611 e ainda teve que provar em público que falava a verdade, por meio da tortura. Naquele tempo, a tortura durante o julgamento funcionava como um dispositivo para que as testemunhas não mentissem. Durante os 8 meses desse julgamento ao qual foi submetida, ela foi difamada e perseguida pelo abusador e seus cúmplices.
Agora, no entanto, me questiono se algo mudou quanto a isso ao longo desses anos todos. O que está diferente de lá pra cá? Como reescrevemos a história? Como contamos esses casos para que o mundo se torne mais saudável para as mulheres e melhor para todos?
Falo isso porque, até hoje, quando a gente fala do assunto, o foco ainda recai sobre a vítima, enquanto o agressor praticamente some da narrativa. Falando sobre o Brasil: o aumento do número de feminicídios e estupros escancara como a violência contra as mulheres é um problema sistêmico, estrutural e contínuo. Nas notícias veiculadas, pouco se vê a cara dos agressores, mas sempre temos certeza sobre quem é a mulher.
Os números cresceram e mostraram um padrão: muitas das violências que são divulgadas através de notícias acontecem dentro de casa, cometidas por parceiros ou ex-parceiros, pessoas da família ou conhecidos. O que se vê, no fim das contas, é um ciclo de violência que parece não ter fim e a impunidade é quase uma certeza, assim como naquela época, visto que o agressor da Artemísia não cumpriu pena… Acho, infelizmente, que em 400 anos, a culpa ainda não mudou de lado.
Muita gente considera que a arte de Artemísia passou a ser diferente depois que ela foi violentada. O que muda, acredito, não é o estilo tão influenciado pelo uso de luz e sombra do Caravaggio, nem os temas religiosos cativantes e chocantes, mas o reforço de um discurso em que mulheres são protagonistas.
No final de 1613, Artemisia foi para Florença e pintou “Judite decapitando Holofernes” e “Judite e a criada”, duas das suas obras mais conhecidas. Curiosamente, ambas foram encomendadas pela família Medici, grande mecenas das artes na região da Toscana.
Em 1616, Artemisia se tornou a primeira mulher, segundo registros, a ingressar na Accademia delle Arti del Disegno di Firenze e esse marco a autorizou a ter o seu próprio ateliê e a deu a liberdade de contratar modelos para as suas obras.
A retórica do barroco visava convencer, emocionar e reafirmar a fé e a arte era um dos principais instrumentos de persuasão depois de, ao longo de várias décadas, a igreja católica tentar defender uma forma de arte religiosa que conseguisse captar a atenção dos fiéis e despertar as suas emoções para as histórias contadas. Como o povo não era letrado e, consequentemente, não conseguia ler a bíblia, eles aprendiam sobre o catolicismo através das imagens.
Ainda assim, em Judite decapitando Holofernes, ela mostra uma cena intensa e violenta, sem suavizar o que está acontecendo. A personagem feminina não aparece idealizada, mas ativa e combatente.
Os detalhes da decapitação, no primeiro plano, são capazes de nos fazer imaginar os aspectos práticos de uma ação da qual não temos o menor conhecimento. Digo: podemos imaginar o esforço físico da tarefa.
A autora Cristine Tedesco diz que alguns dos personagens presentes nas obras da artista eram “musas e ninfas impertinentes; monjas orgulhosas e temíveis; senhoras audaciosas e poderosas; rainhas antigas […], Madalena; alegorias da pintura, da música, da paz, da retórica, da fama”.
Artemísia talvez, ainda no século XV, tenha entendido que podia usar a sua raiva como força e depositou o que pôde nas obras que presenteou ao mundo. Não sei o que pensar, além de que a sua sobrevivência a permitiu pintar todos os quadros seguintes e nos deu a possibilidade de conhecer a sua história, que é tão contemporânea, embora muitas das vítimas atuais não possam gritar ao mundo através da arte.
*Giovana Devisate é historiadora da arte e designer de moda

