12-04-2026 às 09h00
Humberto Werneck*
Carlos Drummond de Andrade costumava dizer que teve na vida duas “experiências fundamentais” – e deixava ouvintes e leitores de queixo caído ao declarar que nenhuma delas era a de escritor. Suas experiências fundamentais, afirmava, nada tinham a ver com a literatura, eram o jornalismo e o funcionalismo público. E acrescentava: dessas “experiências fundamentais”, preferia a de jornalista. Foi o que ouvi de nosso maior poeta quando, em 11 abril de 1985, fiz com ele longa entrevista, da qual pequena parte foi publicada, naquele mês, na revista IstoÉ. “Fui jornalista de banca lá em Belo Horizonte nos anos 20”, disse-me então, redator-chefe de “um jornal ainda muito primário, mas que tinha aquela força, aquela vibração. Ficava até altas horas da noite fazendo jornal.” Aquilo, relembrou, “era uma emoção muito grande”, maior ainda porque “trabalhava com grandes amigos.”
A publicação que tanta saudade deixou em Carlos Drummond de Andrade era o Diário de Minas, fundado em 1º de janeiro de 1899 com o objetivo de fazer oposição ao presidente do Estado (assim se chamavam os governadores até a Revolução de 1930), Silviano Brandão. Durou pouco nesse propósito, pois em novembro foi vendido para o Partido Republicano Mineiro, o PRM, que por décadas reinaria em Minas Gerais.
Drummond certamente já sabia da existência do Diário de Minas quando, vindo de Itabira, chegou a Belo Horizonte para morar, no início de 1920. Tinha 17 anos e uma sede enorme de mostrar o que escrevia. Mas não foi naquela porta que bateu primeiro – foi numa que estava mais à mão, a do Jornal de Minas, cujas modestíssimas instalações ficavam no térreo do hotel onde por um tempo residiram os Drummond de Andrade, na Praça da Estação. Reuniu coragem e foi oferecer colaboração ao diretor, que era aliás o faz-tudo da publicação, sem um auxiliar sequer. Ao longo de dois meses, desovou ali sete escritos – e então, revoltado com a miséria que o faz-tudo lhe pagava, desistiu do Jornal de Minas.
Meses mais tarde, já em 1921, Carlito (era assim que a família chamava o mais novo dos meninos) levou sua vitalícia timidez à redação de Diário de Minas, na esquina de Rua da Bahia com Guajajaras, deixou uns manuscritos e saiu correndo. Seu primeiro texto publicado ali, no dia 13 de março de 1921, foi um comentário sobre o livro Tântalos, de Romeu de Avelar, pseudônimo de Luís de Araújo
Morais, poeta alagoano que vivia em Belo Horizonte. Cerca de 80 crônicas, críticas, poemas e historietas de sua lavra pingariam no espaço de cinco anos, sem prejuízo da colaboração cada vez mais numerosa que ele emplacava em publicações do Rio e de São Paulo. Curiosamente, o jovem escriba que deixara o Jornal de Minas por se considerar mal pago nada recebia no Diário. Bastava-lhe a visibilidade que a publicação que assegurava.
No início de 1926, dependente ainda do pai, embora já casado, e sem a menor disposição para o ofício de farmacêutico – formara-se apenas para contentar o velho, que o queria “doutor” –, o poeta decidiu retornar a Itabira e tentar ganhar a vida como fazendeiro, prolongando assim uma extensa tradição familiar. O projeto não chegou sequer a ser iniciado, e não apenas pela incompatibilidade do poeta com a vida rural. A salvação veio, ao cabo de arrastados meses de agonia, graças ao amigo Alberto Campos, que, sendo irmão de um político influente, lhe ofereceu trabalho no Diário de Minas.
O primeiro emprego de Drummond significou a sua entrada no jornalismo – e, em certa medida, também no serviço público: pertencente ao PRM, então solidamente arranchado no poder, o jornal acabava sendo um órgão oficioso do Palácio da Liberdade. Basta dizer que o Minas Gerais, diário oficial do Estado, volta e meia lhe repassava material com que encher suas quatro, no máximo seis páginas. A composição era ainda manual, letra por letra. O que dava mais leitura no Diário talvez fosse o registro de chegadas e partidas de figurões na Estação Ferroviária, pois, dependendo do tom e da dosagem dos adjetivos, a coluna permitia avaliar a cotação de políticos aos olhos do Palácio.
Afora tais recados mineiramente enviesados, e pouca coisa mais, o Diário não tinha relevância jornalística – e foi isto, justamente, o que permitiu a Drummond e a outros jovens aspirantes à literatura que lá trabalhavam – João Alphonsus, Emílio Moura, Cyro dos Anjos, Afonso Arinos de Melo Franco – fazer do jornal do PRM uma trincheira do movimento Modernista em Belo Horizonte. Bem-humorado, décadas depois Drummond resumiria nos versos de “Poeta Emílio”, do livro Versiprosa:
Duas páginas de Brilhantina Meu Coração e Elixir de Nogueira,
uma página de: Viva o Governo,
outra – doidinha – de modernismo.
Em meados de 1927, um desentendimento com um figurão do governo resultou na demissão do diretor do Diário de Minas – o que fez com que Drummond fosse subitamente alçado à condição de redator-chefe. Mais que isso: durante algumas semanas, ele foi, na prática, o comandante do Diário de Minas. Responsabilidade que não lhe saiu dos ombros quando o novo diretor foi nomeado, pois o camarada não permanecia na redação por mais de meia hora, segundo ele contou em entrevista à professora Maria Zilda Ferreira Cury. “Então eu carregava [o jornal], era burro de carga”. Nem por isso se queixava da trabalheira – ao contrário, reconhecia ter vivido ali sua primeira experiência de “jornalista de banca”, ou seja, um fazedor de tudo no dia a dia da uma redação.
Nos anos finais daquela década, Drummond encontrou condições de trabalho menos espartanas no Minas Gerais, onde permaneceu até mudar-se para o Rio de Janeiro, em meados de 1934, para ser chefe de gabinete do ministro da Educação e Saúde Pública, seu amigo Gustavo Capanema. A rotina no diário oficial mineiro lhe permitiu aplicar-se como nunca antes ao exercício da crônica – gênero que, no Rio, ele haveria de cultivar com regularidade e brilho, de modo especial depois de haver deixado o serviço público, em 1962, uma vez que a aposentadoria não cobria suas contas.
Durante trinta anos – quinze deles no Correio da Manhã (1954-69) e outros tantos no Jornal do Brasil (1969-84) –, o poeta, gigante também na prosa, batalhou num regime de três crônicas por semana. No dia 29 de setembro de 1984, finalmente, à beira dos 82 anos, despediu-se dos leitores do JB com uma delícia de escrito a que deu o título “Ciao”. “Chegou o momento”, anunciou, “deste contumaz rabiscador de letras pendurar as chuteiras (que na prática jamais calçou) e dizer aos leitores um ciao-adeus sem melancolia, mas oportuno.” Sim, oportuno, explicou ele com drummondiano bom humor: podia, àquela altura, “gabar-se de possuir um título não disputado por ninguém: o de mais velho cronista brasileiro”. Fez um balanço de seus 64 anos de atuação na imprensa – e não deixou de creditar, com nostalgia e gratidão: foi “na velha Belo Horizonte dos anos 20” que nasceu “um cronista que (…), com a graça de Deus e com ou sem assunto”, por tanto tempo cometeu “as suas croniquices.”


