Créditos: Magnific
03-08-2026 às 13h26
Andressa Gonçalves*
No segundo domingo de agosto, o Dia dos Pais costuma celebrar histórias marcadas pelo cuidado, pela presença e pelo afeto. Para muitas famílias que passaram pela adoção ou pelo acolhimento familiar, porém, a data ganha um significado ainda mais profundo: representa a construção de um vínculo que nasceu na convivência, foi fortalecido pela confiança e transformou o conceito de paternidade em uma experiência cotidiana de acolhimento.
Ao mesmo tempo em que homenageia pais presentes, a data também convida à reflexão sobre uma realidade que afeta milhares de crianças brasileiras: a ausência da figura paterna. Muitos meninos e meninas crescem sem o reconhecimento legal do pai ou sem sua participação efetiva na criação, enquanto as mulheres assumem, sozinhas, a responsabilidade pelos cuidados e pela educação dos filhos.
Nos últimos anos, especialistas têm ampliado o debate sobre o chamado “abandono paterno” ou “abandono parental paterno”, expressão utilizada para discutir a ausência material e afetiva de pais na vida dos filhos. Em alguns espaços, também ganhou visibilidade o termo “aborto paterno”, empregado em debates públicos para criticar a renúncia às responsabilidades parentais por parte de alguns homens. Embora a expressão não tenha reconhecimento jurídico e seja alvo de controvérsias entre especialistas, ela evidencia uma discussão cada vez mais presente sobre a necessidade de ampliar a responsabilização da figura paterna na criação dos filhos.
Para Maria da Penha Oliveira, psicóloga e coordenadora do Grupo Aconchego, ser pai é muito mais do que algo biológico, o papel do pai é importante para a formação da criança “A paternidade não se constrói apenas pelo vínculo biológico. Ela nasce da presença, do cuidado e da disponibilidade para construir uma relação de confiança com a criança. É no cotidiano, nas pequenas experiências compartilhadas, que esse vínculo se fortalece e o sentimento de pertencimento se consolida”, afirma.
Nas famílias formadas por adoção, essa construção acontece de forma gradual. O primeiro Dia dos Pais costuma representar um marco importante, resultado de um processo de adaptação em que adultos e crianças aprendem a construir uma nova relação. O reconhecimento da figura paterna, muitas vezes, surge aos poucos, conforme o vínculo é fortalecido nas experiências compartilhadas do dia a dia.
Os primeiros meses de convivência podem ser desafiadores. Crianças que passaram por situações de violência, negligência ou acolhimento institucional carregam histórias que influenciam a forma como estabelecem novas relações de confiança.
Nesse contexto, a especialista destaca que a paciência, o respeito ao tempo da criança e a construção de uma rotina estável são elementos fundamentais para o fortalecimento dos vínculos. “Toda criança precisa de adultos que sejam referências de cuidado e proteção. No caso da adoção, esse vínculo vai sendo construído aos poucos, respeitando o tempo da criança, sua história e suas vivências. O afeto é resultado de uma relação que se estabelece com segurança, acolhimento e permanência”, explica Maria da Penha.
Além da realidade das famílias adotivas, o Dia dos Pais também abre espaço para discutir a importância da participação paterna desde os primeiros anos de vida. Estudos mostram que o envolvimento ativo dos pais contribui para o desenvolvimento emocional, cognitivo e social das crianças, reforçando que a parentalidade deve ser exercida de forma compartilhada.
Para o Grupo Aconchego, ampliar esse debate significa reconhecer que toda criança tem direito não apenas a uma família, mas a adultos que assumam, de forma responsável, seu papel no cuidado e na proteção. Mais do que celebrar a figura paterna, a data é um convite para refletir sobre a importância da presença, do compromisso e da construção de vínculos capazes de transformar histórias.
Sobre o Grupo Aconchego – O Aconchego é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, fundada em dezembro de 1997, que trabalha em prol da convivência familiar e comunitária de crianças e adolescentes em acolhimento familiar e institucional.
Filiado à Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção – ANGAAD o Aconchego é reconhecido como referência em Brasília e conta com grande projeção nacional na criação de tecnologias sociais com vistas à garantia do direito das crianças e adolescentes à convivência familiar e comunitária, por meio de ações de intervenção com potencial para a transformação social e cultural.

