Créditos: Divulgação
01-05-2026 às 09h08
Anna Marchesini*
É melhor o mundo separado de mim do que eu, de mim mesmo
“Cuida-te para não te separares de ti mesmo. É melhor que o mundo fique separado de ti do que tu, de ti mesmo.”
É provérbio africano. É antigo como a terra. E nunca foi tão urgente como agora, neste tempo de gente apressada para caber.
Porque existe uma epidemia silenciosa acontecendo: pessoas pedindo demissão de si mesmas todos os dias, com café na mão e crachá no peito. Assinam o ponto na empresa, no casamento, no grupo de amigos, na rede social. Assinam e vão, pouco a pouco, desapropriando a própria alma para não desobedecer a placa invisível que diz: “é aqui que você tem que caber”.
Tem quem case e se divorcie de si no mesmo cartório. Troca o sobrenome e, junto, troca o gosto, a vontade, a rua que prefere caminhar. Vira “esposa de”, “marido de”, e o nome próprio fica guardado na gaveta, junto com o sonho antigo que não combinava com a decoração da casa. Tem quem vista a moda da estação como se veste uma farda: sem perguntar se a cor combina com a alma, só se combina com a vitrine. Tem corpo jejuando não de pão, mas de liberdade, porque precisa caber na foto, na calça, na expectativa alheia. E a cada “sim” dito pra fora, é um “não” que se engole pra dentro, até a garganta virar depósito de silêncio.
Desde quando “caber” virou o verbo mais conjugado da existência? Desde quando agradar o mundo virou plano de carreira da alma? A pessoa cede a roupa. Depois, cede o riso. Depois, cede a opinião discordante na mesa do almoço. Quando percebe, cedeu o endereço de si mesma e passou a morar de aluguel nos outros, pagando com insônia o preço do condomínio. É um exílio ao contrário: o corpo presente, a essência deportada. E o mais trágico é que a gente chama isso de “maturidade”, de “bom senso”, de “saber viver”.
E se, um dia, a pessoa cansar de ser inquilina de si mesma? E se decidir que é melhor ser chamada de louca, de difícil, de antissocial, do que continuar sendo uma estranha dentro do próprio espelho? E se devolver o molde, rasgar a farda, desobedecer o padrão que nunca pediu seu tamanho? E se escolher a inteireza que dói, mas cura, em vez do encaixe que anestesia, mas adoece? Tem exílio que é volta pra casa. Tem solidão que é só o barulho do mundo fazendo silêncio pra, enfim, você se escutar.
Porque a única casa que não pode ir a leilão é a que mora dentro. A única demissão que não se assina é a de si mesmo. Que o mundo separe-se, se for preciso. Que a mesa fique com menos lugares, se for o preço da verdade. Que o armário fique com menos roupas, se for o custo da liberdade. No fim, entre ser aceito por todos e ser reconhecido por si, a segunda opção é a única que deixa a gente dormir em paz. Cuida-te para não te separares de ti. Que o mundo se separe.
*Anna Marchesini é Educadora e Palestrante

