Idade da Razão - Capítulo I
25-01-2026 às 10h10
Rufino Fialho Filho
Josafá vinha em minha direção, atravessando a névoa clara daquela manhã de abril. Sempre marcávamos esses encontros com a antecedência de quem ainda vive sob o rigor dos relógios clandestinos, como se a pontualidade fosse a única coisa que nos restasse de uma disciplina militar que o tempo desbotou. Eu o observava vindo. Passos cadenciados, precisos, cortando a avenida vazia onde quase nenhum carro ousava interromper o nosso palco.
“Eu caminho com cuidado”, ele costumava dizer, com um riso que não alcançava os olhos.
Eu o observava e ria sozinho, uma risada interna que evocava o fantasma do meu avô Juca. Vô Juca, mesmo velho, recusava bengalas e apoios; dizia que quem pisa firme não precisa de bengala. Josafá também pisava firme, mas sua firmeza não era herança — era uma técnica de sobrevivência. Aquela caminhada era o resultado de mais de dez anos de prisão, uma década onde cada metro quadrado foi medido e cada passo foi um cálculo contra a loucura. Tarcísio Delgado diria, mais tarde, que os cárceres esculpiram cicatrizes não apenas em seu rosto, mas nas dobras mais profundas de sua alma.
No cruzamento daquelas duas avenidas, a figura dele tornava-se cada vez mais nítida. A figura se revela sempre; a alma danificada, essa prefere o refúgio do silêncio.

Ilustração: Thiago de Paula
Eu o esperava com uma pergunta engasgada, uma curiosidade que me corroía: o que levara aquele homem a uma paixão tão estranha, tão silenciosa e, ao mesmo tempo, tão devastadora? Era uma paixão por Cláudia, sim, mas era também uma paixão por uma escola, por uma experiência de universidade que estávamos erguendo no alto daquele morro, tijolo por tijolo, entre um beijo roubado e uma citação acadêmica.
Conto isto agora porque o ciclo se fechou. Marcos morreu. Só agora, no vácuo deixado pelo seu último suspiro, sinto que posso contar tudo sem o medo de que ele sofra. Amáramos a mesma mulher. Compartilháramos os mesmos livros, os mesmos heróis e o mesmo sonho de uma sociedade que nunca chegou a desembarcar no porto que imaginamos. Éramos, e sempre fôramos, grandes amigos — cúmplices de um crime chamado esperança.
Se ele soubesse, em vida, de todos os detalhes, talvez não sofresse. Ou talvez o sofrimento fosse a única coisa que nos mantinha unidos. No enterro de Cláudia, não fomos rivais.
Fomos dois náufragos agarrados ao mesmo destroço. Choramos abraçados, o choro dos “homens sensíveis” que a história tentou quebrar, mas que o amor, em sua forma mais crua e imperfeita, insistia em manter de pé.
*Rufino Fialho Filho é Jornalista, escritor

