
Nick, um dos vários cachorros que a família Bicalho acolheu e amoju ao longo dos anos - créditos: Arquivo pessoal
31-08-2025 às 10h48
Gisele Bicalho (*)
Nossa casa sempre foi refúgio de muitos cachorros, todos barulhentos, amorosos e fiéis. Mamãe adorava. Acredito que esse amor tenha vindo de berço. Foi herdado do pai. Vovô Nenê era um cachorreiro convicto. Não por acaso, a maioria dos “cãopanheiros” de quatro patas era de perdigueiros. Quando a caça ainda era uma prática tolerada, esse era o esporte preferido dele. Ainda hoje, se fecho os olhos, consigo ouvir os latidos que rasgavam a madrugada, anunciando o fim da caçada na Chapada dos Veadeiros. Só depois dos latidos, a gente ouvia o barulho do caminhão e, por fim, as vozes dos caçadores que retornavam cheios de história para contar.
Vovó também gostava de cachorros. Combate, um cão enorme e indolente, mas nem por isso menos amoroso, era o seu fiel escudeiro. Sempre por perto, aguardava, com aquela bocarra aberta, as migalhas que ela deixava cair displicentemente ao lado da mesa de jantar. Hoje, décadas depois, a neta Jacq repete o gesto. “Quem sai aos seus não degenera”, diria Vovó se visse a cena, como quem reconhece no cotidiano a herança silenciosa dos afetos.
Se o Combate era grande, indolente e desengonçado, Rebelde se destacava pela elegância e garbo. Desfilava sua “caramelisse” pela casa, pelo quintal e com frequência avançava para além da ponte sobre o Córrego do Macuco. Mas por que o nome Rebelde? Uai, deixo que você tire as suas próprias conclusões. Se tinha um cachorro com personalidade forte era ele. Fazia e acontecia de acordo com as suas próprias normas. Freio era algo que ele desconhecia.
Na casa dos meus pais também viveram cães lendários. O primeiro foi Lusbel. Mamãe, além do enxoval, levou o seu cachorro e muita expectativa. Lusbel deu sorte ao casal. Papai e Mamãe viveram juntos por quase seis décadas. Somos frutos desse amor sem medida.
Depois do Lusbel, vieram Totó, Pupi, Marajá, Lord, Raf, Curisco, Barbudo e outros queridos. A fama deles corria solta. Marajá, um vira-lata da melhor estirpe, foi um dos mais famosos. Sempre que Papai ligava a caminhonete não dava outra. Lá ia ele correndo atrás, até que Papai aumentava a velocidade e se distanciava. A exceção ficou para o dia em que o Velho Osvaldo parou o carro e ofereceu carona a um conhecido. Não deu outro. Marajá, espertamente, aproveitou a oportunidade e se aboletou. Não houve quem o tirasse dali. O jeito foi levá-lo junto. Chegando em Santana da Prata, assim que Papai e o amigo desceram, Marajá foi atrás. E para surpresa de todos a garotada começou a gritar:
– Olha, gente! Olha gente, o Marajá tá aqui!
O amigo do papai não se conteve e comentou com um sorriso de orelha a orelha:
– Como é que pode? No município, o cachorro é mais famoso que o senhor.
Marajá foi outro famosinho. Em Conceição do Pará, não havia quem não o conhecesse. Simpático e muito brincalhão, fazia a alegria de crianças e adultos. Era muito fujão também. Naquela época, sem internet e, portanto, sem grupos de WhatsApp, toda vez que fugia era um Deus nos acuda. Para encontrá-lo era preciso montar uma força-tarefa e caminhar noite adentro pela cidade até que ele, todo serelepe, surgisse em alguma esquina. Namorando, obviamente.
Quem herdou o gosto pela fama foi a Meg, uma cachorra maravilhosa que vive na casa que foi dos meus pais. Para se impor, disputa espaço com o Nick e com o Rock. Ao contrário da Meg, o Rock mete o terror e se recusa a sair da infância. Já na pós-adolescência, continua a destruir móveis, almofadas e sandálias como se fosse um filhote rebelde. Nick, cachorro da cidade, como todo visitante que se preze, tenta manter a pose. Mas, admito, em se tratando do Rock, nesse embate o Nick raramente ganha. Essa é uma luta inglória.
A exemplo de todos os outros cachorros com quem já dividimos a existência, Meg foi adotada. O mesmo se deu com o Rock e com o Curisco. Essa história não é de hoje. O primeiro cachorro da Gyslaine foi o Totó, adotado depois que ela o encontrou abandonado na estação. Isso foi láaaa no tempo da delicadeza. Anos depois, a vida terrena de Totó chegou ao fim, os ferroviários se foram, e a estrada de ferro também. Dessa história, só herdamos a memória de um cachorrinho encantador, o quepe e a lanterna do Vovô, além de uma cadeira de chefe de trem comprada pela Lulu num leilão da RFFSA.
Tem também o Urso, na casa da Gyslaine e do João. O grandalhão espalha tanto pelo quanto amor pelos quatro cantos da residência. Os sobrinhos também são cachorreiros. Nina é a melhor amiga da Gabi e da Rafa. Tem também a Mel e a Diana. As duas, mãe e filha, dividem os melhores momentos do dia com o Miguel. Há também uma pequena matilha que faz a alegria da Maria Fernanda.
Na nossa morada de Beagá, se antes tínhamos a companhia da Shakira, uma bassê manhosa e lindinha, hoje quem vive conosco é o Nick. Barulhento, esperto e cheio de personalidade. É apaixonado pela Jacq, mas aceita amizade quando sente o cheiro de um petisco dos bons. Aprecia queijo, carne e outras iguarias que confirmam: o cachorro é mesmo o espelho dos donos.
Em Brasília, a convivência com os cães guarda histórias curiosas. A do Camões é uma delas. Esse encontro de almas se deu em uma feira de adoção. Foi amor à primeira lambida. Ali mesmo decidiram qual seria o nome do novo membro. Só na convivência diária descobriram que o cãozinho era cego de um olho. Como o autor de “Os Luzíadas”. Camões viveu cercado de amor até que se foi. Hoje, também adotado, quem faz a alegria das nossas florzinhas do Cerrado é o Napoleão. E, a exemplo do general francês, está sempre de guarda e sempre que pode dá uma fugidinha pelo condomínio. Tentativa de expandir os seus domínios. Se é que você me entende.
Cada um, com seus jeitos, hábitos e histórias, deixou marcas que não se apagam. Entre “cãominhadas”, estações, cidades e afetos, seguimos colecionando latidos, lambidas e lembranças. No fim das contas, são eles que nos ensinam o que é amor sem medida. Aliás, recentemente, a “Namaria Braga” deixou um recado para quem, como eu, diz: “Não quero ter outro cachorro porque o meu morreu. Não quero sofrer de novo.” Segundo ela, “não querer ter outro é fugir do amor.” E está certa. Amor nunca é demais. É sempre bem-vindo.
(*) Gisele Bicalho é jornalista