Economia brasileira cresceu 1,3% primeiro trimestre, mas inicia desaceleração no segundo semestre - créditos: divulgação
31-07-2026 às 10h00
Por Breno Mendes Araujo
O primeiro semestre de 2026 revelou uma economia brasileira marcada por uma aparente contradição. De um lado, indicadores macroeconômicos mostraram resiliência, com crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), inflação em desaceleração, mercado de trabalho ainda aquecido e uma balança comercial superavitária. De outro, empresários, investidores e exportadores continuam convivendo com um ambiente de elevada insegurança jurídica, forte presença estatal na economia, alta carga tributária e crescente instabilidade política, fatores que limitam investimentos de longo prazo.
O PIB brasileiro cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao trimestre anterior, refletindo o bom desempenho do consumo e de alguns segmentos produtivos. O governo mantém projeção de crescimento em torno de 2,3% para o ano, enquanto parte do mercado trabalha com estimativas mais conservadoras, próximas de 1,8%, em razão dos efeitos dos juros elevados e das incertezas internacionais.
Ao mesmo tempo, a inflação apresentou desaceleração nos últimos meses, aproximando-se do teto da meta estabelecida pelo Banco Central. Esse movimento abriu espaço para novas reduções graduais da taxa Selic, embora a autoridade monetária continue sinalizando cautela diante dos riscos fiscais e das incertezas externas.
No comércio exterior, o Brasil continuou registrando superávits importantes na balança comercial, impulsionados principalmente pelo agronegócio e pelas exportações de commodities. Entretanto, esse desempenho passou a enfrentar um novo fator de risco: o aumento das tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre determinados produtos brasileiros, afetando uma parcela relevante das exportações nacionais.
O peso da política sobre a economia
Embora os indicadores macroeconômicos mostrem relativa estabilidade, permanece o debate sobre o impacto das decisões políticas no ambiente econômico.
Críticos da atual condução econômica sustentam que a expansão dos gastos públicos, a insegurança regulatória, as frequentes mudanças tributárias e a crescente judicialização das relações econômicas reduzem a previsibilidade necessária aos investimentos privados. Na avaliação desses analistas, o excesso de intervenção estatal amplia o chamado “custo Brasil” e reduz a competitividade internacional.
Por outro lado, defensores da política econômica argumentam que a atuação do Estado foi importante para preservar o crescimento, estimular o consumo e manter o mercado de trabalho aquecido diante de um cenário internacional mais desafiador. Também sustentam que programas públicos e investimentos governamentais podem funcionar como instrumentos anticíclicos em momentos de desaceleração econômica.
A coexistência dessas duas visões evidencia que o debate econômico brasileiro envolve diferentes interpretações sobre o papel do Estado na economia.
Tarifas norte-americanas e seus reflexos
A recente elevação das tarifas dos Estados Unidos sobre determinados produtos brasileiros ilustra como disputas diplomáticas e políticas podem produzir impactos econômicos concretos. O aumento dos custos de acesso ao mercado americano tende a reduzir a competitividade de empresas exportadoras, afetando especialmente setores industriais que dependem daquele mercado.
Independentemente das motivações políticas atribuídas a essa decisão, o episódio reforça a importância de uma política externa voltada para a diversificação de mercados, ampliação de acordos comerciais e fortalecimento da segurança jurídica para investidores nacionais e estrangeiros.
Caminhos para um Brasil mais competitivo
Independentemente da orientação ideológica de cada governo, algumas medidas costumam aparecer entre as propostas defendidas por economistas de diferentes correntes para ampliar o potencial de crescimento do país:
estabilidade fiscal e previsibilidade das contas públicas;
simplificação tributária e redução do custo de conformidade para empresas;
fortalecimento da segurança jurídica e respeito aos contratos;
redução gradual da burocracia e digitalização dos serviços públicos;
ampliação da abertura comercial e celebração de novos acordos internacionais;
incentivo à inovação, produtividade e competitividade industrial;
investimentos em infraestrutura logística, energia e tecnologia;
maior integração entre universidades, centros de pesquisa e setor produtivo;
fortalecimento das agências reguladoras com atuação técnica e independente.
Um projeto de longo prazo
Nenhuma economia moderna prospera apenas pela ação do Estado ou exclusivamente pela atuação do mercado. Países que alcançaram elevado desenvolvimento econômico geralmente combinaram instituições sólidas, estabilidade regulatória, responsabilidade fiscal, ambiente favorável ao empreendedorismo e elevada produtividade.
Para que o Brasil alcance um ciclo consistente de crescimento, geração de empregos qualificados e aumento das exportações, será necessário reduzir as incertezas políticas que frequentemente contaminam decisões econômicas, fortalecer a confiança institucional e ampliar a competitividade das empresas brasileiras.
Mais do que alternâncias ideológicas, o país necessita de políticas públicas estáveis, respeito às regras do mercado, ambiente regulatório previsível e inserção internacional baseada em interesses econômicos permanentes. Somente assim será possível transformar o enorme potencial produtivo brasileiro em crescimento sustentável, aumento da renda e maior protagonismo no comércio mundial.
*Breno Mendes Araujo e administrador de empresas e Ceo da Eletro Force

