Créditos: Magnific
28-09-2026 às 13h26
Marcos de Noronha*
Em junho deste ano escrevi, nesta coluna, sobre autismos. Estava me preparando para um encontro multiprofissional no salão de festas da minha casa. O evento foi gratificante e pude aprender mais com o neurocientista, a nutricionista, o pediatra e os psicólogos da minha equipe. Em outro momento, numa aula patrocinada por um laboratório, discutindo o caso de um paciente com minha colega neurologista, ela me alertou que o autismo não é um espectro, mas uma doença — ou seja, é categorial.
Os diagnósticos de autismo aumentaram 500% desde a criação do nome TEA (Transtorno do Espectro Autista), nestes últimos 20 anos. Provavelmente, uma epidemia conquistada pelos neurologistas, considerando que eles realizam tais diagnósticos cerca de três vezes mais que os psiquiatras, que ficam em segundo lugar na lista. A meu ver, enfrentamos um dilema: de um lado, o crescimento absurdo do aparecimento dessa patologia, que talvez não possa ser explicado simplesmente pelo aumento dos fatores etiológicos; de outro, nosso desconhecimento para diagnosticar.
Há ainda um fator a ser considerado: a conscientização social sobre uma patologia descoberta recentemente e o interesse da sociedade em ser encaixada nela, para ter direito a benefícios sociais. Um paciente, em qualquer parte do planeta e pertencente a qualquer cultura, quando seu comportamento incômodo recebe uma identificação, pode se sentir compreendido e mais sossegado. No meu artigo anterior, contei que, em 1938, um médico do Hospital Johns Hopkins diagnosticou Donald, o primeiro caso, que morreu em 2023.
Antes de morrer, Don, como era conhecido, teve uma trajetória de superação, cursando uma faculdade e, aos poucos, aprendendo a se inserir na sociedade. Viveu na pequena cidade de Forest, no Mississippi, nos EUA, trabalhou como bancário e gostava de jogar golfe. Uma das atrações de Don era viajar, chegando a conhecer 40 países, porém não se interessava por namoros. Por outro lado, conquistou diversos amigos e é uma das provas de que o autismo pode ser superado.
E sobre este aumento exponencial da patologia? Já chegamos ao absurdo de associarmos o autismo à vacina tríplice viral, no passado, a partir de um artigo publicado na renomada revista The Lancet, assinado pelo médico britânico Andrew Wakefield e colegas. Mas tratava-se de uma pesquisa fraudulenta, e seus “irresponsáveis” foram punidos, com a cassação do registro médico de Wakefield e a retratação da revista.
Agrotóxicos, a idade dos pais, o sobrepeso e os nascimentos prematuros ainda podem estar entre as causas principais da patologia, mas nada disso explica, a meu ver, um aumento de 500%. O aumento do diagnóstico se deveu, principalmente, à modificação dos critérios. Trata-se de um quadro complexo, que exige uma avaliação igualmente complexa, abrangendo aspectos biológicos e ambientais, e deve ser tratado como espectro, para que, no futuro, tenhamos uma classificação mais justa, considerando também a diversidade dos sintomas conforme o paciente.
Necessidade obsessiva das mesmas coisas, comportamento repetitivo e o aparente desinteresse por relações sociais podem constituir um padrão comum. Eu faço uma constatação objetiva: a dificuldade de comunicação destes pacientes. Vejam que nem todos têm a sensibilidade ao barulho ou à luz, mas, para diagnosticar, investigo seu início e sempre encontro traços na infância. Há outro fator a considerar: as inúmeras comorbidades, como o TDAH (transtorno do déficit de atenção e hiperatividade), que também tem seu início na infância.
Traços de ansiedade acompanham estes casos, e a agressividade pode acontecer como reação desesperada às dificuldades de comunicação. É evidente o auxílio dos neurolépticos e estabilizadores, diminuindo ansiedade, agressividade e, algumas vezes, reduzindo quadros psicóticos associados. O canabidiol é uma novidade útil nos casos refratários e, para mim, hoje uma das primeiras escolhas. O universo imunológico e inflamatório dos autistas é objeto de discussão entre nós, profissionais de saúde.
Em 1979, a psiquiatra inglesa Lorna Wing, mãe de uma criança neurodivergente, introduziu o conceito de espectro para o autismo. Ela defendia um conceito que reúne pelo menos três características relacionadas à patologia: a indiscutível dificuldade de comunicação e, em consequência, de interação social. Estes dois aspectos levam a diversas consequências, podendo isolar o paciente e inibir seu interesse pelas interações — traço tipicamente humano, que busca prazer e proteção. O terceiro aspecto, defendido por Wing, é a dificuldade quanto ao pensamento imaginativo nos autistas.
Veja que este sintoma não reforça o mito antigo de que o autista não tem imaginação. Chamamos de metacognição a capacidade humana de nos entender e nos colocarmos no lugar do outro. Atribuía-se ao autista um déficit na total capacidade de imaginar o que o outro pensa ou sente. Hoje entendemos de forma diferente: ele tem, sim, uma dificuldade, mas apenas de imaginar de um certo jeito específico — o que muda completamente a leitura anterior. Um dos meus pacientes autistas, superansioso e inquieto, ao mesmo tempo inteligente e ativo, conseguiu se formar em psicologia. Entende como ninguém outros autistas, mas é carente daquilo que chamamos de imaginação social.
Para este paciente, quando se trata das interações humanas, ele se precipita, faz expectativas desproporcionais em relação a seus colegas de grupo de terapia social e não consegue, com facilidade, entender as intenções destes colegas. Para muitos deles, a fuga para o mundo virtual não é incomum. Precisam de um esforço constante de controle. Tal limitação na imaginação social é um fator que diminui as chances dos autistas nas interações. Não é por menos que muitos deles estão desempregados ou, pelo menos, sem renda. Dentre os autistas, apenas 8% são autônomos, como informou a bela reportagem da Superinteressante deste mês, “A Era do Autismo”.
Gostaria de destacar um outro fator: a imaginação não social, na qual não há evidência de déficit no autista. Ela se refere à criatividade em ideias, objetos, sistemas, arte e matemática. Às vezes, pode ser até superior à da maioria da população. Nossa equipe de Terapia Social e arteterapia das terças-feiras ressaltou, por diversas vezes, a incrível performance dos pacientes, cujos sintomas autistas não comprometeram sua criatividade. Porém, grande parte deles, quando criança, teria dificuldades em brincadeiras de faz de conta. Cresceram de forma mais solitária e voltados mais a objetos. Já suas narrativas, como no caso do meu paciente citado, são ricas.
Tal patologia, ou seu espectro, que começa na infância, pode trazer diversos comprometimentos no desenvolvimento e tornar a idade adulta um desafio para o paciente. Mas repito, estimulado pelo caso 1, o de Donald: eles podem ser treinados sistematicamente e superar suas limitações. Um exemplo disso ressaltei no artigo anterior, ao falar da equoterapia (reportagem no Psiquiatria Sem Fronteiras: https://youtu.be/pl22lYMhkwo). Mas, se formos considerar psicoterapias com especialistas em ABA, fonoterapias, terapias ocupacionais, fisioterapias e nutrição, os custos ficam mais altos. Não há dúvida de que uma criança privilegiada por esses recursos tem melhor recuperação. Durante minha formação, não tinha a mínima ideia do universo alimentar e das soluções estudadas pelos nutricionistas — o debate mais acalorado do seminário realizado em casa, sobre o tema, em junho.
Entendo que meus pacientes autistas têm, sim, imaginação, mas alguns não são capazes de expressá-la, assim como também não são capazes de se comunicar em diversas ocasiões. E nós, considerados normais? Devemos reconhecer também nossa dificuldade de entender a mente dos autistas. Quando recebo pais de autistas, através deles, vou aprendendo a entender o comportamento de seus filhos para ajudar a encontrar soluções no tratamento. Sei que são capazes de imaginar e, às vezes, de forma extraordinária, mas são ruins na imaginação social.
Nos resta respeitar a neurodiversidade, sem que isso signifique desistir de estimular os portadores desses quadros, que estão, a meu ver, classificados num espectro para uma melhor compreensão futura. E, considerando o número expressivo de pessoas com transtorno do espectro autista, o debate avança para o social: respeitar é procurar entender o tempo de resposta de cada um deles — uma barreira nas interações — e confiar que a nossa saúde nos dê a paciência necessária para a inclusão dessas pessoas nos nossos círculos. Termino lembrando os momentos de um dos grupos de terapia social, em que eles me superaram na capacidade de diálogo com membros autistas, ampliando minha compreensão de como é imprescindível a cooperação em uma sociedade.
*Marcos de Noronha é Psiquiatra titulado pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), é psicoterapeuta e psicodramatista reconhecido pela Federação Brasileira de Psicodrama. Preside a Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural e integra entidades internacionais dedicadas à psiquiatria cultural e transcultural. É um dos fundadores da Associação Mundial de Psiquiatria Cultural, autor de artigos científicos e dos livros Terapia Social e O Cérebro e as Emoções. Atua em Florianópolis coordenando grupos de Terapia Social nos setores público e privado, além de apresentar o programa Psiquiatria Sem Fronteiras e conteúdos do Humanitas TV no YouTube.

