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14-09-2026 às 08h51
Marcos de Noronha*
Uma foto recente feita pelo fotógrafo Brenno Carvalho, do jornal O Globo, viralizou e apareceu em diversos periódicos. Pela fresta de uma janela do tribunal, o fotógrafo flagrou os membros do STF rindo. O que foi um momento de descontração daquele grupo, ao mesmo tempo, provocou indignação na sociedade pelo momento crítico que vive o país, somado a problemas éticos envolvendo, principalmente, o ministro Alexandre de Moraes, após as revelações de sua relação com o banqueiro preso Daniel Vorcaro. O contraste foi a risada aparentemente descontraída das autoridades comparada à tensão social diante da impunidade.
Quando nos preparávamos para uma foto no sítio, no final de semana, minha sobrinha de 4 anos quis entrar no registro. Brincando, eu disse que naquela foto só entrariam pessoas bonitas — referindo-me a mim, ao meu irmão e à nossa mãe. Ela reagiu mal, talvez porque, na sua idade, ainda não fosse possível compreender a brincadeira. Por outro lado, todos nós rimos dos encantos daquela criança ou de suas próprias brincadeiras, como a de colocar a vovó de castigo por ter sido a última a levantar naquele dia.
O humor é universal, mas tem suas diferenças culturais. Na França, quando fui estudante de Etnopsiquiatria, associavam a nós, brasileiros, a imagem de um povo com tendência a se divertir. Ou seja, éramos reconhecidos como brincalhões. Em diversas sociedades tradicionais, ocorre com frequência uma brincadeira que provoca o riso de todos, muitas vezes com conteúdo sexual. O termo apropriado seria zombar de alguém. De acordo com o Oxford Dictionary on Historical Principles, o humor é “a faculdade de perceber e apreciar o que é ridículo ou divertido”.
Um paciente estudante de enfermagem, em uma das sessões em que discutíamos o tema, explicou que a piada sempre precisa de uma vítima para acontecer. Ele faz parte de um grupo de nove integrantes no qual se brinca muito e cujos membros, atualmente, gozam de boa saúde. A prova de que vivem um bom momento é que podem caçoar uns dos outros. Caçoam com respeito e todos parecem desfrutar do que chamamos de “esportiva”, uma tolerância própria de grupos de amigos.
Um outro paciente, juiz de direito, contou-me como foi agradável reencontrar seus colegas de escola, que não via havia muito tempo. Quando quis referir-se à alegria e à amizade, usou o termo “rolou até um bullying básico”, como expressão da intimidade que possuíam e dos aspectos especiais daquele reencontro.
Manuel Antônio de Almeida, em Memórias de um Sargento de Milícias, é reconhecido por retratar, em suas crônicas bem-humoradas, os costumes de seu tempo (ele viveu de 1831 a 1861). Em uma das passagens de seu livro, ressalta mais uma vez que o rigoroso Major Vidigal foi enganado: “O Leonardo ria-se às furtadelas do logro que levara o major.”
Com estas considerações, o leitor deve estar pensando que se aprende a brincar, que se divertir pode ser uma característica cultural e que, ainda, um grupo em que os integrantes se propõem a zoar uns dos outros pode revelar um traço de saúde. Porém, a dimensão do humor é bem maior e carrega diversas faces.
Se formos nos referir à psicopatologia, podemos destacar os transtornos de humor; contudo, diversos outros transtornos têm como protagonista o nosso sistema límbico, a área do cérebro destinada à regulação do humor. A partir do sistema límbico, podemos dizer que algumas pessoas, mesmo inteligentes, perdem o bom senso em diversas situações pela desproporcionalidade da manifestação afetiva. Daniel Goleman, psicólogo e jornalista americano, usou o termo “inteligência emocional” e foi citado por mim quando apontei os bastidores do nosso cérebro nas polarizações[1].
Agora, em setembro, no Centro Integrado de Cultura (CIC), realizaremos mais uma edição do Loucos por Arte (e o título tem sua dose de humor), e o tema, desta vez, será o humor. Claro que queremos fazer as pessoas rirem, destacando o cômico. Poderia ser o drama, provocando uma comoção e nos dando a oportunidade de expressar nossas tristezas. A tristeza, o medo e a raiva, fisiologicamente, são comuns nos seres humanos e vivenciados de modo desagradável, o que nos leva a querer afastar-nos das situações que os provocam. Porém, não é necessariamente desagradável recorrermos a um drama no cinema, no teatro ou na escolha de um romance. Já em relação à alegria e ao riso, são estimulantes e prazerosos. Queremos nos aproximar de momentos que os despertam. Alguns trabalhos defendem os efeitos terapêuticos do riso, como uma revisão sistemática de 2023 na qual, em 26 de 31 estudos, o riso diminuiu os sintomas depressivos. Foram analisadas terapias com humor com resultado 41% melhor.
do que as terapias que não contavam com esse recurso[1]. Outro estudo (Gelkopf, 2011), um dos artigos mais citados, distingue o uso clínico do humor em doença mental grave e discute seus riscos[2]. Não devemos romantizar o fato e, para tanto, precisamos analisar os contrapontos destas afirmações sobre as terapias do riso.
Ao recorrermos à neuroimagem para ver os bastidores de uma pessoa submetida ao humor, como mostra outro estudo de 2021, veremos que o humor e a psicopatologia compartilham os mesmos circuitos em nosso cérebro (córtex pré-frontal, sistema límbico)[3].
Eu me formei em psicodrama e não foi por acaso. Fui influenciado pela equipe da Clínica Colina Verde, ligada à Universidade Estadual de Londrina, durante minha formação em medicina e, sobretudo, por constatar a riqueza de uma psicoterapia que recorre à ação. Agindo, o paciente participante tem melhores possibilidades de obter resultados. A origem do psicodrama está no teatro, por meio das ações e descobertas de Moreno.
Em Beyond Laughter: uma revisão sistemática sobre intervenções com comédia, estudo publicado na National Library of Medicine em 2023, observa-se como a comédia vem sendo usada como intervenção em saúde mental, inclusive em grupos. Vamos diferenciar quando a comédia pode proteger, expurgar e alegrar e quando pode, ao contrário, prejudicar. Se o humor, seja ele cômico ou dramático, ajudar a comunicação e a expressão em um contexto respeitoso e adequado, o acolhimento do momento promove o bom resultado.
Por outro lado, quando a exposição e a depreciação contam com o despreparo do protagonista, soam agressivas, sem os elementos de ambiente que caracterizavam o “bullying básico” a que se referia meu paciente juiz, citado anteriormente. O sarcasmo e alguns tipos de ironia podem adoecer a pessoa em um processo de desmoralização. Um artigo descreve aspectos benignos do humor: “O humor como moderador na relação entre exaustão emocional e sintomas depressivos em estudantes universitários e na população geral”. Foi publicado em 2025 no Journal of Happiness Studies e assinado por diversos autores. E quando estamos deprimidos? A depressão nos tira a capacidade de produzir e de perceber o cômico? Em outros termos, rir e brincar é uma expressão de saúde. No CIC, nosso evento abre, tradicionalmente, em uma dinâmica permitida somente aos usuários das Terapias Sociais (todos os outros dias serão gratuitos e abertos à população). Com o tema humor, os participantes terão a oportunidade de confraternizar em um “teatro espontâneo”, no auditório do Museu da Imagem e do Som, diferentemente dos anos anteriores, em que tudo era realizado em um grande salão.
Lembram-se do “bobo da corte”? Tratava-se de uma figura na época dos reinados em que o artista, de forma cômica, era o único que possuía uma permissão, ainda que informal, para criticar a autoridade sem ser decapitado depois. Nas Terapias Sociais, utilizo muitas vezes o humor para me comunicar ou como um corretivo social, e também para descontrair, provocar a sensação de pertencimento nos grupos e melhorar a disposição dos participantes.
Se cada cultura modula o humor, que é universal na sociedade humana, este artigo de 2023 pode nos trazer alguns ensinamentos: Cultural differences in humor: A systematic review and critique, de Jackson G. Lu. Para o nosso Loucos por Arte, pretendemos usar a própria ambiguidade da palavra humor (cômico × afeto) como dispositivo pedagógico — o grupo pode partir da pergunta “de que humor estamos falando?” para explorar como o cômico modula o humor-afeto, tocando em estilos protetores versus sinais clínicos (mania com piadas inadequadas, depressão sem graça, riso patológico sem emoção).
A construção do evento inicia-se com bastante antecedência, na parceria que mantemos com a Fundação Catarinense de Cultura, responsável pelo espaço. Não contamos com nenhum recurso e, com a ajuda da secretária de nossa clínica, tento preencher os formulários e fornecer os documentos (inúmeros) para a confirmação da concessão. Os funcionários da instituição são gentis e procuram nos orientar, mas desta vez, dois meses antes do dia D, soubemos que não teríamos o salão principal para a exposição. Tudo teve de ser adaptado e soluções foram encontradas. Outro fato: o humorista, que deveria ser a atração estimulante do evento, deprimiu-se e não tenho certeza se estará presente.
Com imprevistos que sempre fizeram parte deste evento, considerando as edições anteriores, é preciso contar com a espontaneidade e a solidariedade da equipe e dos pacientes. Mesmo que isso possa comprometer a qualidade do momento, acaba nos ensinando que o ser humano carrega habilidades para sua adaptação, podendo oferecer o melhor de si. Basta ser estimulado. O riso pode ter um papel central em nossas vidas. O conhecido provérbio “o coração alegre é como um bom remédio” (Provérbios 17:22) tem sido citado ao longo dos séculos, e registros mostram que médicos vêm defendendo os aspectos potencialmente curativos do humor há centenas de anos. Sabe-se que as emoções positivas podem exercer até um papel imunológico. Em seu livro A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, Darwin especulou que a base evolutiva do riso tinha como função ser uma expressão social de felicidade, e que isso conferia uma vantagem de sobrevivência e coesão ao grupo. Em apoio a essa teoria, constatou-se que o riso ocorre em contextos sociais em mais de 95% das vezes.
Se o riso fortalece as relações sociais, produzindo prazer nos outros por meio de processos simples, também se mostra contagiante e recompensador, incentivando, assim, a continuidade das atividades sociais e promovendo a coesão grupal.
*Marcos de Noronha é Psiquiatra titulado pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), é psicoterapeuta e psicodramatista reconhecido pela Federação Brasileira de Psicodrama. Preside a Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural e integra entidades internacionais dedicadas à psiquiatria cultural e transcultural. É um dos fundadores da Associação Mundial de Psiquiatria Cultural, autor de artigos científicos e dos livros Terapia Social e O Cérebro e as Emoções. Atua em Florianópolis coordenando grupos de Terapia Social nos setores público e privado, além de apresentar o programa Psiquiatria Sem Fronteiras e conteúdos do Humanitas TV no YouTube.

