Créditos: Reprodução
05-07-2026 às 08h26
Caio Brandão*
O meu interesse pelas letras começou cedo, desde a meninice por volta dos dez, doze anos, quando lancei na rua Caldas, onde morava, o jornal O Mirim. Impresso em mimeógrafo a álcool e distribuído nas casas vizinhas, trazia notícias pueris. Tentei assinantes pagantes a um cruzeiro e alguma propaganda, mas sem êxito. Contudo, fui à luta, distribuindo de graça e me divertindo com as fofocas de então — inocentes, quase cândidas, se comparadas ao cenário de hoje e às suas severas contradições.
Aquele menino d’O Mirim mal sabia que, ao trocar o cheiro do álcool do mimeógrafo pelo chumbo quente do linotipo das redações e a incerteza dos tribunais, a inocência da rua Caldas daria lugar a arquivos de outra natureza. O faro que antes buscava o sumiço do gato da vizinha ou o namorico no portão, com o tempo, deparou-se com o inventário absurdo dos segredos da nossa província. Histórias guardadas a sete chaves que misturam, na mesma gaveta da hipocrisia, as ampolas do DOPS, os bilhões do Vorcaro e a famigerada lista negra dos motéis.
Os templos do pecado discreto, os motéis, foram surgindo em Belo Horizonte, edificados na periferia: um na famosa “curva do Xuá”, saída para o Rio de Janeiro, e outros tantos na direção de Brasília e do bairro Olhos D’Água. Era uma novidade que dividia a província: para muitos, parecia pura prostituição; para outros, apenas comércio promissor.
Leônidas — nome que aqui pego emprestado —, publicitário de renome na época, mas dono de uma insepulta disfunção erétil, costumava frequentar tais paragens munido de um aparato singular. Ali, ele empunhava uma seringa de agulha avantajada, que cravava sem piedade na glande frouxa e abatida, injetando uma dose reforçada de prostaglandina. O milagre químico aprumava o bruto por horas, às vezes por dias, e não raro ensejava uma intervenção cirúrgica de urgência para amansar a criatura orgulhosa e indomável.
Mas eram tempos bicudos e a polícia andava atenta. Próximo aos motéis, amoitado em alguma esquina sombria, o olheiro abelhudo ia anotando placas e fotografando os frequentadores que, no dia seguinte, recebiam intimações para prestar depoimento sobre isto e aquilo outro — mera intimidação e sabe-se lá com que real intenção.
Acompanhei, como repórter do jornal O Diário, momentos difíceis, hilários e alguns impublicáveis. Se na periferia o controle se dava pela espreita e pela chantagem moral, no coração da cidade o método era ostensivo. A sede do DOPS, na Avenida Afonso Pena, artéria principal de Belo Horizonte, mantinha-se protegida pela colocação na pista da conhecida “Garra de Tigre”, ou fura-pneus. Aquela esteira comprida de ferros longos e pontiagudos mantinha à distância até os mais ousados e atrevidos motoristas. Era o símbolo bruto de um tempo em que cruzar certas linhas, por descuido ou coragem, custava muito caro.
Frequentei o DOPS como repórter por muito tempo. Conheci os seus porões e noticiei o que foi possível noticiar, numa época em que, nas redações dos jornais, ficava plantado um censor — no caso do jornal O Diário, um oficial da Polícia Militar, homem sisudo, mas educado e de boa formação cultural, ainda bem.
David Hazan foi um dos chefes daquele departamento de vigilância social. Era correto, cumpria o seu papel, intimidava, mas não compactuava com a tortura. Vivia do salário e do reforço vindo de uma pequena loja de importados de baixo valor, em nome da esposa, Dona Ceci, localizada na Galeria Ouvidor, um arremedo de shopping, com entrada pela rua São Paulo.
No DOPS, o desenho daquele poder era complexo e cínico: Hazan abrigava nas dependências do departamento, no mesmo andar do seu gabinete, uma unidade do Exército, o DOI-CODI. Com os membros desse órgão, ele mantinha severas e constantes discordâncias no tocante às prisões e aos métodos de interrogatório. Entre salas contíguas, o silêncio burocrático de um chefe correto convivia com o eco abafado das sombras do regime.
Mas nem tudo era espinhos. Do próprio Hazan acabei me tornando amigo. Desse convívio, ouvi confidências, desabafos e até algumas bravatas, o que era normal para o cargo e a época. Contudo, em uma certa feita, visivelmente constrangido, ele me revelou o avesso daquela solene máquina de vigilância. Contou-me que o preso conhecido como “Mexicano”, a quem ele estendera a mão levando para trabalhar como jardineiro em sua própria residência, retribuiu a confiança escondendo drogas nos armários de seus aposentos — logo na casa do chefe do DOPS.
E os absurdos não paravam no jardim doméstico. David confidenciou-me, ainda mais ultrajado, que outro detento, o célebre Luís Raposão, mantinha nada menos que uma pequena destilaria de uísque falsificado operando em uma dependência externa do próprio prédio do DOPS. O negócio fraudulento contava com o conluio de alguns agentes da casa e faturava alto.
Para coroar o surrealismo daquele submundo, o audacioso Raposão ainda gerenciava, por meio de uma amásia, um discreto serviço de atendimento a casais para práticas libidinosas. Os encontros contavam com o auxílio de variados apetrechos eróticos, zelosamente acomodados em uma imensa mala de couro marrom. Respirando fundo diante de tanta desordem sob seu comando, David costumava desabafar: — Vou acabar enfartando. Profecia maldita: o enfarte realmente aconteceu tempos depois, ceifando-o em morte súbita.
Eram tempos estranhos e preconceituosos. Tudo causava espécie, e até a polícia tinha os seus reveses cotidianos. Na vizinha Delegacia de Furtos e Roubos, por exemplo, o clima era de pura insubordinação. Os detentos recebiam os visitantes, a imprensa e até o próprio delegado titular com arremessos de fezes e xingamentos em coro. Frente ao motim escatológico, o delegado Chico Doido não fazia por menos: sacava o revólver trinta e oito e ameaçava enfiá-lo no traseiro dos presos, que, escolados na audácia, sequer se intimidavam.
E o Vorcaro, onde entra nessa história? Entra apenas em uma ilação temporal. Se ele tivesse perpetrado, naquela época de porões e fura-pneus, os crimes financeiros que cometeu na atualidade, a pressão do sistema seria outra. Diante de um aperto do DOPS, o homem não levaria dez minutos para entregar até a data da primeira masturbação de Frei Rosário, a célebre figura da Ermida da Serra da Piedade — o mesmo santo homem que, longe dos altares, não se acanhava ao beliscar a bunda das serviçais que piedosamente o atenderam durante muitas e longas décadas.
*Caio Brandão é Jornalista

