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24-05-2026 às 08h29
Adriano Augusto Dias de Souza*
Assim como a nossa colega, que deu o máximo de si até o seu último instante, também tive provas em meu curso na faculdade essa semana. Tive também provações… Só nesses últimos dias foram 14 ônibus, trajetos à pé, correr do trabalho para o Campus, comer pouco, dormir mal… Enfim. Sei que assim como eu, assim como nossa colega do ICEX, milhares dos estudantes têm rotinas semanais maçantes para poder honrar nossa entrada na UFMG, garantindo a nossa permanência. Dói. Tem gente que acha que entrar na UFMG é difícil. Agora, pergunte a quem está lá dentro, o quanto é difícil permanecer até o fim do curso…
A tantas vezes nomeada melhor universidade do estado, do Brasil, uma das melhores do mundo, UFMG, tem muitos motivos para sustentar seus títulos. Toda essa excelência traduzida em títulos e honrarias, é a transcrição do trabalho árduo e contínuo de seus professores, técnicos e zeladores.
É, com certeza, a transliteração do incessante trabalho dos estudantes, dos pesquisadores da universidade. Afinal, os belos prédios e a boa estrutura não produzem ciência por si só. São as pessoas quem o fazem.
Me parece que os tempos idos da pandemia dessensibilizaram as pessoas quanto ao valor da vida humana. Os milhares de óbitos anunciados todos os dias em noticiários, a banalização disso tudo, fez com que o valor da vida humana decrescesse diante de nossos olhos. Mas não poder ser, do mesmo jeito, para a Universidade. Não para a UFMG. A chama que estampa, juntamente dos dizerem em latim “Aqui Começa Uma Vida Nova” deve nos conduzir, realmente, à vida. Não àquilo que ocorreu essa semana, à luz do dia, em um dos prédios da nossa faculdade. Não há honra em se calar diante do horror. Não há honra em silenciar trajetórias. Num momento em que o mundo, o Mercado, tem levado os corpos das pessoas além de suas capacidades, o papel da Universidade é, sim, demonstrar temperança e sabedoria.
O que se espera é que a UFMG possa demonstrar ser digna de seu nome. Que possa honrar a memória de nossa colega. Que possa fazer diferente, enquanto ainda é tempo, com seus milhares de estudantes. Rotinas duras, sem flexibilização, sem entender que o perfil da faculdade não é mais aquele que concentrava apenas as elites, que gozam de acessos e descanso. Que hoje, a universidade agrega em seu corpo discentes, corpos que têm de lutar mais para honrar a cada dia a camisa que vestem: UFMG. Nada mais justo que a Universidade pare, observe e compreenda os sinais que algumas pessoas têm dado a própria vida para dizer. Que, em breve, possamos todos ter uma vida nova!
*Adriano Augusto Dias de Souza é cientista do Estado

