Créditos: Divulgação
14-06-2026 às 10h25
Vanessa Silva de Faria*
A vida e a obra de Carlos Drummond de Andrade se entrelaçam de maneira singular com a história de sua terra natal. Nascido no ano de 1902, em Itabira, MG, uma cidade marcada pela mineração e por fortes tradições locais, o poeta transformou suas experiências pessoais em matéria literária capaz de dialogar com leitores de diferentes tempos e lugares, pois sua escrita é, ao mesmo tempo, íntima e universal, o que permite ao público, mesmo ao público leitor não especialista em sua obra, reconhecer nos seus versos aspectos da própria vida.
Desde cedo, Drummond demonstrou sensibilidade para perceber as contradições de sua terra natal. Itabira aparece em sua obra como um espaço de memória e de inquietação: é a cidade da infância, das raízes, mas também das transformações impostas pelo avanço econômico e pela exploração mineral. Essa ambivalência entre afeto e crítica constitui um dos elementos mais ricos de sua poesia, pois revela um olhar atento às mudanças sociais e culturais que moldam a identidade de uma comunidade.
Ao longo de sua trajetória, que inclui passagens por Belo Horizonte e Rio de Janeiro, Drummond nunca se desvinculou de Itabira. Pelo contrário, a distância geográfica parece ter intensificado sua ligação afetiva com a cidade. Em seus poemas, Itabira não é apenas um cenário, mas um símbolo que condensa questões mais amplas, como o pertencimento, a memória e o impacto do progresso sobre a vida cotidiana.
Como vimos nos textos anteriores, publicados nessa coluna, Carlos Drummond de Andrade ocupa lugar de destaque na literatura nacional. Integrante do modernismo brasileiro, sua obra contribuiu para renovar a linguagem poética, aproximando-a da fala cotidiana e ampliando seus temas. Seus textos abordam desde questões existenciais até reflexões sociais e políticas, tornando-se referência para estudiosos de diversas áreas, para além da literatura. Essa transversalidade é um dos sinais da riqueza de sua vida e obra, que continua a inspirar pesquisas e interpretações.
Entretanto, a importância de Drummond não se limita ao campo simbólico. Sua atuação em favor da cultura de Itabira evidencia um compromisso real com o desenvolvimento cultural da cidade. Um marco significativo desse compromisso foi seu apoio à criação de um espaço dedicado à cultura local:

A trajetória institucional desse espaço criado em 1982 reflete, em grande medida, a valorização crescente da cultura na cidade. Em 1985, o Centro Cultural de Itabira passou a se chamar Fundação Cultural de Itabira, consolidando-se como uma entidade voltada ao fomento e à promoção cultural. Dois anos depois, em 1987, após a morte do poeta,a instituição recebeu o nome de Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA).
Esse processo de transformação institucional revela não apenas o reconhecimento da importância de Drummond, mas também a consolidação de um projeto cultural que dialoga com sua vida e sua obra. Assim como sua poesia busca compreender o mundo a partir do cotidiano, a FCCDA atua no sentido de aproximar a cultura da população, promovendo atividades que valorizam a diversidade artística e incentivam a participação comunitária.
A importância de Carlos Drummond de Andrade para Itabira pode ser compreendida em múltiplas dimensões. No plano simbólico, ele projetou a cidade nos cenários nacional e internacional, tornando-a conhecida por meio de sua poesia. No plano concreto, contribuiu para a criação de estruturas que possibilitam o acesso à cultura. No plano identitário, ajudou a construir uma narrativa sobre Itabira que continua a influenciar muitos de seus habitantes, estudiosos e admiradores de sua vasta produção literária.
Sua obra permanece como um instrumento de reflexão sobre temas contemporâneos. Questões como a exploração dos recursos naturais, as desigualdades sociais e o sentido da existência humana continuam presentes no debate atual, o que reforça a relevância de sua poesia. Ao ler Drummond, o leitor não apenas entra em contato com um autor consagrado, mas também se depara com perguntas que permanecem abertas.
Nesse sentido, a Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade desempenha um papel estratégico. Ao preservar documentos, objetos e edifícios onde Drummond viveu sua infância e parte da adolescência; promover eventos como a Semana Drummondiana, que neste ano celebra a sua 25ª edição; incentivar a leitura e a produção literária, a instituição garante que a obra de Drummond continue acessível e significativa, ao mesmo tempo em que atua como um espaço de produção cultural, estimulando diversas formas de expressão artística e contribuindo para o desenvolvimento cultural da cidade.
É fundamental reconhecer que a preservação do legado de Drummond não é uma tarefa estática. Trata-se de um processo dinâmico e a FCCDA, ao assumir essa missão, reafirma o compromisso de manter viva a memória e a obra do poeta e de promover a cultura como um direito de todos.
Como superintendente da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, entendo que Drummond é um patrimônio não apenas de Itabira, mas de todo o Brasil e, quiçá, do mundo. Sua obra atravessa gerações e continua a provocar reflexões profundas sobre quem somos e sobre o mundo em que vivemos. A FCCDA tem a responsabilidade de preservar esse legado e, ao mesmo tempo, de ampliar e democratizar o acesso à cultura, fortalecendo a identidade local e incentivando novas formas de criação artística. Ao cuidar da memória do poeta, cuidamos também do futuro da nossa cidade. Drummond construiu uma ponte entre Itabira e o mundo, uma ponte que continua sendo atravessada por leitores, artistas e cidadãos em busca de sentido, memória e expressão.


