O mundo não é mais o mesmo - créditos: divulgação
01-11-2026 às 10h42
Rogério Reis Devisate
Imagine uma família reunida à mesa para o habitual almoço de domingo. Estão todos presentes, mas um acompanha as notícias, outro responde a mensagens, alguém percorre fotografias e vídeos, enquanto uma conversa é interrompida pelo som de uma notificação. Ninguém se levantou, ninguém abandonou o encontro, mas todos parecem estar em lugares diferentes, embora permaneçam sentados à mesma mesa.
Nunca dispusemos de tantos meios para nos comunicar, nem vencemos as distâncias com tamanha facilidade, mas talvez nunca tenha sido tão difícil olhar nos olhos daqueles com quem conversamos, tornando-se cada vez mais necessário distinguir comunicação de convivência, pois receber mensagens não significa estabelecer vínculos, assim como conhecer acontecimentos da vida alheia não equivale a participar dela. Podemos conversar com alguém do outro lado do planeta enquanto deixamos de escutar quem está diante de nós, numa contradição que revela transformações dos nossos hábitos e da própria experiência da presença humana.
Há algum tempo, em Homo sapiens cellularis, examinei essa transformação, imaginando uma humanidade que, depois de desenvolver extraordinárias capacidades intelectuais e modificar a natureza, parece cada vez mais dependente das pequenas telas que carrega consigo. A expressão não pretendia anunciar uma nova espécie biológica, mas provocar uma reflexão sobre como nossos inventos modificam nossos comportamentos. Crianças chegam à escola sem perceber as condições do tempo durante o percurso, adultos atravessam ruas e jardins sem observar a paisagem, enquanto acontecimentos distantes disputam nossa atenção com a vida que prossegue ao redor.
Acrescenta-se outra circunstância curiosa: vivemos cercados por instrumentos concebidos para economizar tempo, embora tenhamos a impressão de que ele se tornou progressivamente escasso. Documentos circulam instantaneamente, operações bancárias dispensam deslocamentos e a inteligência artificial realiza em minutos tarefas que antes exigiam horas, mas o tempo recuperado frequentemente é ocupado por novas solicitações, como se a velocidade tivesse deixado de ser uma qualidade dos instrumentos para se transformar numa exigência da existência. Talvez nunca tenhamos sido tão escravos do tempo, esquecidos de que aquele medido pelos relógios nem sempre corresponde ao que experimentamos interiormente, pois algumas das experiências mais significativas da existência dependem da liberdade de deixá-lo passar, entregando-nos, de vez em quando, ao dolce far niente, essa antiga sabedoria de encontrar prazer em, por alguns momentos, nada fazer.
Talvez exista, entretanto, uma transformação ainda mais profunda, porque parecemos portar um microfone permanentemente ligado. Com o celular, todos podem falar, opinar, comentar, divulgar, contestar e responder, sobre praticamente qualquer assunto, a qualquer momento, sem depender de um interlocutor presente ou de alguém que lhes tenha solicitado uma manifestação. Nunca tivemos tamanha facilidade para dizer o que pensamos, mesmo quando pensamos pouco sobre aquilo que dizemos, e é possível que, justamente por podermos falar tanto, estejamos nos acostumando a ouvir cada vez menos, num comportamento que já examinei em Currupaco, currupaco…, ao tratar do risco de nos transformarmos em simples reprodutores de mensagens e opiniões, dispensando o esforço de compreender seus fundamentos e consequências.
A solidão contemporânea pode, assim, adquirir contornos inesperados, quando nossas próprias escolhas e os mecanismos de recomendação das plataformas favorecem conteúdos semelhantes àqueles que já consumimos, criando uma espécie de isolamento acompanhado, no qual permanecemos cercados por manifestações de concordância e progressivamente menos expostos à diversidade dos argumentos humanos.
Não me refiro propriamente ao radicalismo das posições políticas, mas a algo anterior e mais abrangente: a disposição de ouvir apenas o que confirma nossas certezas. É possível defender ideias moderadas com extraordinária intolerância intelectual, assim como sustentar convicções profundas sem perder a capacidade de reconhecer a inteligência de quem discorda. O problema não está necessariamente na posição assumida, mas no fechamento do pensamento à possibilidade de que o outro tenha alguma coisa a nos ensinar. É natural pensar que escutar significa também admitir que a experiência alheia possa modificar nossa compreensão do mundo, mas estamos pouco abertos a isso.
Erich Fromm, ao investigar liberdade, insegurança e pertencimento, ajuda a perceber como a proteção oferecida pelos grupos pode conviver com a renúncia à autonomia individual, enquanto Byung-Chul Han permite refletir sobre o cansaço produzido pelo excesso de estímulos e exigências. São perspectivas distintas, mas que se encontram na percepção de que podemos perder parcelas de nossa autonomia justamente quando acreditamos ampliar indefinidamente nossas possibilidades de escolha.
No livro Charada do Fim do Mundo: a inteligência artificial ante a ética da nossa inteligência, examinei os desafios éticos decorrentes da crescente participação da inteligência artificial em atividades antes dependentes do julgamento humano. A questão agora pode ser formulada pelo lado inverso: não apenas o que acontecerá quando as máquinas executarem parcelas cada vez maiores das nossas tarefas intelectuais, mas o que acontecerá conosco se deixarmos de exercitar as capacidades de duvidar, ponderar argumentos, reconhecer contradições e revisar nossas próprias certezas. A inteligência das máquinas não deveria servir de pretexto para a acomodação da inteligência humana.
Seria injusto ignorar os benefícios dessas tecnologias. O problema não está nos aparelhos, mas em nós, pois podemos economizar horas e continuar sem tempo, receber milhares de informações e permanecer insuficientemente esclarecidos, conhecer incontáveis opiniões e jamais enfrentar seriamente uma ideia diferente da nossa. A conexão, concebida para ampliar nossos horizontes, pode terminar oferecendo incontáveis oportunidades de reencontrarmos nossas próprias convicções, alimentando nosso ego enquanto nos isola das experiências alheias e nos distancia até dos abraços fraternos.
Voltemos à família reunida à mesa, onde todos continuam próximos, embora cada um permaneça absorvido por acontecimentos distantes, talvez sem perceber que o encontro está acontecendo naquele instante e não poderá ser recuperado inteiramente depois. Estamos perdendo a disponibilidade para aqueles que nos cercam e a curiosidade intelectual que nos permite aprender com os demais, como se a facilidade de falar tivesse se tornado mais importante do que a disposição de escutar. Talvez precisemos, de vez em quando, desligar nossos microfones, não para deixar de participar do mundo, mas para voltar a ouvi-lo.
*Rogério Reis Devisate é Advogado/RJ. Membro da Academia Brasileira de Letras Agrárias, da União Brasileira de Escritores e da Academia Fluminense de Letras. Presidente da Comissão Nacional de Assuntos Fundiários da UBAU. Membro da Comissão de Direito Agrário da OAB/RJ. Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ.

