28-10-2026 às 08h09
Samuel Arruda*
A viagem do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos Estados Unidos ganhou novos contornos nesta terça-feira (27), depois que o empresário mexicano Simón Levy, que afirma ter proximidade com o presidente americano Donald Trump, declarou que a operação para levar o parlamentar ao território americano teria sido articulada pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio.
A declaração ampliou a repercussão política do episódio, que já mobilizava a imprensa brasileira desde as primeiras horas do dia, quando aliados tentavam esclarecer o paradeiro do senador em Brasília.
Segundo informações publicadas pela Reuters, um aliado próximo de Flávio e uma fonte do governo americano confirmaram à agência que o parlamentar teria viajado para os Estados Unidos. A confirmação da viagem, entretanto, não significa que estejam esclarecidas as circunstâncias da saída do Brasil ou a eventual participação de autoridades americanas na organização do deslocamento.
Marco Rubio é apontado como responsável pela articulação
Em publicação nas redes sociais, Simón Levy afirmou que Flávio Bolsonaro teria chegado em segurança aos Estados Unidos e atribuiu a Marco Rubio a condução da operação. O empresário também declarou que, em território americano, o senador pretende liderar a oposição ao governo brasileiro.
Levy mencionou ainda o nome “Operação Alba” ao se referir à suposta articulação. Até o momento, porém, não há confirmação independente de que esse seja o nome oficial de uma operação conduzida pelo governo americano.
A alegação sobre o envolvimento de Rubio é relevante porque o secretário de Estado ocupa uma das principais funções da administração americana nas relações diplomáticas internacionais. Uma eventual participação institucional do Departamento de Estado em uma iniciativa destinada a retirar do Brasil um senador em meio a uma controvérsia judicial poderia provocar questionamentos diplomáticos entre Brasília e Washington.
É necessário, contudo, separar a declaração do empresário dos fatos confirmados por fontes independentes. Não foi apresentada, nas informações consultadas, documentação que comprove que Rubio tenha comandado pessoalmente a operação.
E a Casa Branca? O que se sabe até agora
A possível participação da Casa Branca passou a integrar o debate em torno da viagem, diante dos relatos sobre uma articulação envolvendo pessoas próximas ao governo de Donald Trump.
Entretanto, até o fechamento desta atualização, não foi possível confirmar, por meio de um comunicado oficial ou de uma declaração identificável de um porta-voz da Presidência americana, que a Casa Branca tenha assumido o comando da operação ou organizado diretamente a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil.
A confirmação de que uma fonte do governo americano informou à Reuters sobre a viagem não equivale a uma confirmação de que o governo dos Estados Unidos tenha planejado ou executado o deslocamento.
A distinção é fundamental para determinar se o episódio envolve apenas contatos políticos e apoio de aliados ou se houve participação formal de integrantes da administração americana.
O Diário de Minas continuará acompanhando eventuais manifestações oficiais do Departamento de Estado e da Casa Branca, assim como esclarecimentos das autoridades brasileiras.
Michelle Bolsonaro confirmou a viagem
Mais cedo, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF) teria confirmado a aliados que Flávio deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos. A informação foi divulgada pela imprensa brasileira, incluindo a coluna do jornalista Igor Gadelha, do portal Metrópoles.
Segundo os relatos publicados, o senador teria viajado acompanhado da esposa, Fernanda Bolsonaro, e das duas filhas. A viagem teria sido organizada com a participação de um grupo restrito de pessoas para evitar vazamentos prévios.
A informação sobre a saída do país também foi publicada pela Reuters, que ouviu um aliado próximo do senador e uma fonte do governo americano.
Até o momento, não há confirmação oficial de que Flávio tenha formalizado um pedido de asilo político nos Estados Unidos. A possibilidade foi mencionada em relatos atribuídos a pessoas próximas ao parlamentar.
O paradeiro do senador e as dúvidas sobre a saída do Brasil
O episódio ganhou dimensão adicional porque ocorreu após uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a entrega dos passaportes do senador à Polícia Federal dentro do prazo estabelecido judicialmente.
De acordo com a Reuters, o prazo terminou sem que os documentos fossem entregues. A agência também informou que uma autoridade da Polícia Federal afirmou não haver registro de que Flávio tenha deixado o país por um posto regular de controle migratório.
A imprensa argentina chegou a divulgar informações sobre uma possível passagem do senador pela região de Puerto Iguazú, na fronteira com o Brasil, antes de seguir para os Estados Unidos. Entretanto, as autoridades argentinas não confirmaram oficialmente essa versão.
A rota efetivamente utilizada, os meios empregados no deslocamento e as circunstâncias da saída continuam sendo pontos importantes para o esclarecimento do caso.
Possíveis consequências diplomáticas
Se for comprovada a participação direta de integrantes do governo americano na organização da saída de um senador brasileiro submetido a uma determinação judicial, o caso poderá gerar questionamentos diplomáticos e jurídicos.
Entre os pontos que podem exigir esclarecimentos estão a natureza dos contatos entre Flávio Bolsonaro e autoridades americanas, a eventual participação de agentes públicos dos Estados Unidos e o conhecimento que o governo brasileiro tinha sobre o deslocamento.
Uma confirmação oficial de envolvimento da Casa Branca também mudaria o alcance político do episódio, por indicar que a questão ultrapassou as relações pessoais entre aliados políticos e alcançou, potencialmente, o nível institucional do governo americano.
Por ora, contudo, essas hipóteses não devem ser confundidas com fatos comprovados. A atribuição da operação a Marco Rubio parte de uma declaração pública de Simón Levy, enquanto a participação direta da Casa Branca permanece sem confirmação oficial nas informações disponíveis.
Um episódio ainda em aberto
A viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos reúne questões políticas, judiciais e diplomáticas que dependem de esclarecimentos adicionais. A confirmação da viagem por fontes ouvidas pela Reuters e a declaração de Michelle Bolsonaro a aliados representam elementos relevantes para a reconstrução dos acontecimentos.
A alegação de que Marco Rubio teria comandado a operação acrescenta uma nova dimensão à controvérsia, mas não encerra as dúvidas sobre a participação institucional do governo americano.
O esclarecimento dependerá de manifestações oficiais das autoridades dos Estados Unidos, de informações da Polícia Federal e de eventuais posicionamentos do próprio senador e de sua defesa.
O Diário de Minas seguirá acompanhando os desdobramentos, com atenção especial a qualquer manifestação oficial da Casa Branca ou do Departamento de Estado que confirme, esclareça ou contradiga as informações divulgadas até agora.
*Samuel Arruda é jornalista e editor de politica

