Créditos: Divulgação
27-10-2026 às 17h53
Cristiane Miranda*
Mudar de carreira na maturidade é uma realidade para profissionais que buscam novos desafios, mais autonomia e a oportunidade de realizar sonhos adiados ao longo da vida. De acordo com o Relatório Workforce, elaborado pela consultoria Korn Ferry em 2025, 58% dos brasileiros entre 40 e 50 anos pretendem se engajar em uma transição de carreira, percentual superior à média mundial, de 47%.
Outro levantamento, realizado em 2024 pela NOZ Inteligência em parceria com a Maturi, startup dedicada a fomentar oportunidades profissionais para pessoas com mais de 50 anos, mostra que 70% das mulheres entre 43 e 82 anos já realizaram uma transição profissional ou consideram fazê-la. Entre os homens da mesma faixa etária, o índice é de 65,3%.
A pesquisa também revela que a flexibilidade é um dos principais fatores que motivam as mulheres a buscar novos caminhos profissionais. Entre as entrevistadas, 55,2% desejam atuar como consultoras, autônomas ou freelancers, enquanto 38,2% pretendem abrir o próprio negócio. Os dados evidenciam o interesse por modelos de trabalho que ofereçam maior autonomia e novas possibilidades de realização profissional.
Para Débora Andrade, psicóloga e responsável pelo Programa de Orientação de Carreiras na Wyden, a transição profissional nessa fase da vida está relacionada não apenas à busca por novas oportunidades, mas também a um processo de autoconhecimento e revisão das prioridades. Segundo ela, muitas mulheres iniciam suas trajetórias profissionais influenciadas pelas circunstâncias, pelas condições financeiras e pelas expectativas familiares e sociais.
“Dentro da minha vivência, vejo esse cenário sendo movido por um alinhamento interno, pelo autoconhecimento e por novas motivações em relação ao trabalho. Muitas mulheres começaram suas carreiras por necessidade, pelas oportunidades que surgiram ou pelo retorno financeiro que determinada profissão oferecia naquele momento. Também há influências externas, como a família, o cônjuge e a própria sociedade. Aos 40 anos, essas mulheres já acumularam uma vasta experiência, e o autoconhecimento e o amadurecimento passam a ter um peso maior em suas decisões. Como o momento de vida também é outro, podem surgir inquietações, uma sensação de inadequação e a busca por áreas que estejam mais alinhadas aos seus propósitos”, explica Débora.
Alinne Ovelar, responsável pela área de Orientação de Carreiras no Ibmec Brasília, destaca que a mudança profissional nessa etapa não deve ser vista como um apagamento da experiência anterior, mas como uma oportunidade de aproveitar os conhecimentos adquiridos e construir novos caminhos. Ela também chama a atenção para fatores estruturais que podem influenciar essa decisão, como o etarismo e as barreiras à ascensão profissional feminina.
“Ao falar sobre o processo de transição de carreira de mulheres acima dos 40 anos, é importante compreender que esse movimento representa a ressignificação de suas trajetórias profissionais, e não um recomeço do zero. A motivação pode surgir do desejo de alcançar maior autonomia, flexibilidade e alinhamento com o próprio propósito, mas também pode estar relacionada a uma resposta às experiências de etarismo ou às barreiras que ainda limitam a ascensão profissional das mulheres”, afirma Alinne.
É nesse contexto que se insere a história de Fátima Ferraz Faceira, de 54 anos. Após mais de duas décadas de experiência na área de comércio exterior, ela decidiu retomar um antigo sonho: cursar Direito. Atualmente, a estudante está no primeiro período da graduação na Estácio e planeja concluir o curso nos próximos cinco anos.
Formada inicialmente em Comunicação Social, Fátima construiu sua trajetória profissional como especialista em importação e exportação e também fez MBA em Comércio e Finanças Internacionais. O desejo de estudar Direito, no entanto, sempre esteve presente. Após o MBA e o nascimento da filha, ela chegou a cursar dois períodos da graduação, mas precisou interromper os estudos diante das demandas da vida profissional e da maternidade.
“Após os 50 anos, precisamos rever nossas metas e reorganizar nossa rota. No meu caso, cursar Direito é a realização de um sonho antigo, que precisou ser adiado em função das responsabilidades profissionais e maternas, mas que agora decidi retomar. Acredito que a experiência que acumulamos ao longo da vida, tanto profissional quanto pessoal, torna essa nova escolha ainda mais enriquecedora”, afirma Fátima.
A decisão também tem um objetivo profissional: unir os conhecimentos adquiridos ao longo de mais de 20 anos no comércio exterior à formação jurídica. Entre as possibilidades de atuação, ela considera o Direito Internacional e o Direito Aduaneiro, áreas que dialogam diretamente com sua experiência anterior.
Além da realização pessoal, a estudante destaca a importância de manter uma postura aberta ao aprendizado e aproveitar as oportunidades oferecidas pelo ambiente acadêmico. Fátima ressalta a qualidade do corpo docente, o acesso a materiais de estudo e à biblioteca virtual, além da troca de experiências proporcionadas pelas aulas presenciais, que reúnem estudantes de diferentes idades e trajetórias profissionais.
Para ela, a mudança de carreira exige disposição para aprender, mas também coragem para superar barreiras relacionadas à idade. “Minha dica para quem pensa em mudar de carreira após os 50 anos é não se deixar limitar pelo etarismo, nem mesmo pelo autoetarismo, que é quando nós próprios impomos barreiras em razão da idade. É preciso ter coragem para perseguir nossos objetivos, humildade para aprender com pessoas de diferentes gerações e confiança de que sempre é possível construir novos caminhos”, destaca.
A trajetória de Fátima mostra como a formação acadêmica pode fazer parte de um processo de reinvenção profissional em diferentes fases da vida. Mais do que iniciar uma nova graduação, sua escolha representa a possibilidade de atualizar metas, aproveitar a bagagem acumulada e abrir espaço para novas oportunidades. Em um cenário no qual os levantamentos apontam o interesse pela transição de carreira, sua experiência reforça que a idade não precisa ser um impedimento para aprender, mudar de direção e realizar novos projetos.
Fátima Ferraz Faceira fez transição de carreira depois dos 50 anos. Formada em Comunicação Social, atualmente cursa o primeiro período de Direito na Estácio.


