26-10-2026 às 07h40
Samuel Arruda*
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito neste domingo, 25 de outubro, e conquistou um quarto mandato à frente da Presidência da República, em uma disputa marcada pela polarização política e pela recuperação eleitoral no segundo turno. Lula derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL), revertendo a vantagem obtida pelo adversário na primeira votação. O novo mandato, de 2027 a 2030, começa com um desafio central: atender às expectativas da população sem comprometer ainda mais as contas públicas.
A vitória representa um marco na trajetória política de Lula, que já governou o país entre 2003 e 2010 e voltou ao Palácio do Planalto em 2023. Entretanto, o cenário econômico e político que encontrará no início do próximo governo impõe dificuldades importantes. A dívida pública elevada, o custo dos juros, as despesas obrigatórias e os compromissos assumidos durante a campanha exigirão escolhas que poderão afetar diretamente o bolso dos brasileiros.
O resultado eleitoral também não representa um cheque em branco. Embora tenha conquistado votos suficientes para permanecer no poder, Lula terá de governar um país dividido politicamente, com uma oposição expressiva e um Congresso Nacional de perfil mais conservador, circunstância que poderá dificultar a aprovação de medidas econômicas e sociais.
O QUE O BRASILEIRO PODE ESPERAR NA PRÁTICA?
A principal dúvida após a eleição é se o novo governo conseguirá transformar as promessas de campanha em melhorias concretas para a população. A resposta dependerá, sobretudo, da capacidade de conciliar crescimento econômico, geração de empregos, aumento da renda e controle das despesas públicas.
Na área social, a tendência é de continuidade dos programas de transferência de renda, com destaque para o Bolsa Família, além de iniciativas voltadas à educação, à alimentação e à redução da pobreza. O governo também deverá buscar medidas para aliviar o endividamento das famílias e apoiar pequenos empreendedores.
Essas políticas podem contribuir para sustentar o consumo e movimentar a economia, principalmente entre as famílias de menor renda. Entretanto, os resultados dependerão da disponibilidade de recursos, da qualidade da execução dos programas e de seus efeitos sobre a atividade econômica.
Outro compromisso importante é a mudança na jornada de trabalho, com a proposta de acabar com a escala 6×1. A medida poderá beneficiar milhões de trabalhadores, mas sua implementação exigirá negociação política e discussão sobre os impactos nos custos das empresas, na produtividade, nos salários e na geração de empregos.
O desafio será garantir que a melhoria das condições de trabalho aconteça sem provocar efeitos indesejados, como aumento de preços, redução de contratações ou ampliação da informalidade em determinados setores.
DÍVIDA PÚBLICA E JUROS: O PRINCIPAL LIMITADOR
O maior obstáculo para a execução das promessas presidenciais será a situação fiscal do país. O Brasil carrega uma dívida pública elevada, enquanto o governo precisa financiar despesas com Previdência, saúde, educação, assistência social, folha de pagamento e investimentos em infraestrutura.
A dívida, por si só, não significa que o país esteja impossibilitado de crescer ou de realizar investimentos. O problema aparece quando o endividamento aumenta de maneira persistente, os juros permanecem elevados e o governo não consegue demonstrar que suas receitas e despesas estão em uma trajetória sustentável.
Nesse cenário, uma parcela importante do orçamento fica comprometida com o pagamento de juros, reduzindo a margem disponível para investimentos e novas políticas públicas.
Na prática, isso significa que o governo poderá ter dificuldades para ampliar simultaneamente os benefícios sociais, executar grandes obras, conceder vantagens ao funcionalismo, financiar programas de desenvolvimento e cumprir as metas fiscais.
Se as despesas crescerem continuamente acima da capacidade de arrecadação, o país poderá enfrentar maior pressão sobre os juros, o câmbio e a confiança dos investidores. Esses efeitos podem chegar ao cotidiano da população por meio de crédito mais caro, dificuldades de financiamento e pressão sobre os preços de determinados produtos.
Por outro lado, um ajuste fiscal excessivamente concentrado no corte de investimentos e de serviços essenciais também pode prejudicar o crescimento econômico e atingir a população mais vulnerável.
O desafio, portanto, será encontrar um equilíbrio entre responsabilidade fiscal e proteção social, evitando tanto o descontrole das contas quanto uma política de austeridade que comprometa serviços públicos fundamentais.
Durante a campanha, Lula defendeu a continuidade dos programas sociais, o aumento da renda dos trabalhadores, a expansão dos investimentos públicos, o apoio aos microempreendedores e a ampliação das oportunidades educacionais.
Também assumiu compromissos relacionados à jornada de trabalho, ao enfrentamento do crime organizado e à renegociação de dívidas.
O problema é que cada nova política pública exige uma fonte de financiamento, uma estrutura administrativa e, em muitos casos, aprovação do Congresso Nacional.
Medidas que envolvam gastos permanentes são especialmente delicadas. Uma despesa criada hoje pode continuar pressionando o orçamento durante muitos anos, inclusive quando a arrecadação desacelerar.
Por isso, o governo precisará esclarecer quais compromissos serão executados imediatamente, quais dependerão de aprovação legislativa e quais terão de ser implementados gradualmente.
A população deverá observar menos o volume de anúncios e mais os resultados efetivos: aumento do poder de compra, redução do desemprego, melhoria dos serviços públicos, diminuição das filas na saúde, avanço da educação e condições mais favoráveis para as famílias quitarem suas dívidas.
A capacidade de entregar resultados concretos será decisiva para avaliar o sucesso do quarto mandato.
CONGRESSO MAIS CONSERVADOR PODE DIFICULTAR A GOVERNABILIDADE?
Outro fator determinante será a relação do presidente com o Congresso Nacional. A nova composição parlamentar, com fortalecimento de partidos de direita e centro-direita, indica que Lula terá de negociar intensamente para aprovar seus projetos.
Isso significa que a vitória nas urnas não garante a aprovação automática das propostas do governo. A ampliação de benefícios, as mudanças na legislação trabalhista e as reformas econômicas dependerão de articulações com deputados e senadores.
A dificuldade poderá ser ainda maior se o Executivo insistir em propostas rejeitadas por setores importantes do Legislativo. Nesse caso, o governo terá de escolher entre negociar mudanças, adiar medidas ou enfrentar derrotas parlamentares.
A capacidade de diálogo será essencial para evitar uma paralisia política que prejudique investimentos e reformas necessárias ao país.
INFLAÇÃO, JUROS E ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS
Para o cidadão comum, o desempenho econômico será medido principalmente pelo que acontece no supermercado, nas contas de casa, no custo do financiamento e na possibilidade de conseguir emprego.
O cenário inicial exige cautela. Segundo reportagem publicada pela Reuters em 26 de outubro, a dívida pública brasileira já supera 82% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto a inflação estava em 4,6% e a taxa básica de juros, em 13,75%. Esses indicadores representam obstáculos para a expansão do crédito e para a recuperação do poder de compra.
Se os juros permanecerem elevados, empresas poderão adiar investimentos, consumidores terão mais dificuldades para financiar bens e famílias endividadas continuarão pressionadas.
Por outro lado, uma queda sustentável da inflação e dos juros poderá estimular o consumo, ampliar os investimentos e favorecer a criação de empregos.
O governo terá, portanto, de buscar condições para que a economia cresça sem depender exclusivamente do aumento dos gastos públicos. A produtividade, a segurança jurídica, a qualificação profissional e a capacidade de atrair investimentos privados também serão fundamentais.
O brasileiro não deve esperar que a reeleição produza uma melhora imediata em sua situação financeira. Os efeitos das decisões econômicas dependem de vários fatores e podem levar meses ou anos para aparecer no cotidiano.
O QUE ACONTECERÁ COM O SALÁRIO MÍNIMO E OS PROGRAMAS SOCIAIS?
A política de valorização do salário mínimo deverá continuar entre os temas centrais do governo. Entretanto, o aumento efetivo dependerá das regras vigentes, da inflação e das condições fiscais.
O projeto de Orçamento federal para 2027, apresentado pelo governo em agosto, estimou o salário mínimo em R$ 1.741. Esse valor é uma previsão orçamentária, não uma garantia de que todas as demais promessas serão executadas.
A continuidade dos programas sociais também deverá ocupar posição importante na agenda presidencial. O Bolsa Família e as iniciativas de apoio à educação e aos trabalhadores de baixa renda tendem a permanecer entre as prioridades.
O ponto central será a capacidade de financiar essas políticas de forma sustentável. Benefícios sociais podem reduzir a pobreza e estimular a economia, mas sua ampliação precisa considerar as receitas disponíveis e as demais obrigações do Estado.
Se houver crescimento econômico, aumento da produtividade e melhora da arrecadação, o governo terá mais condições de financiar políticas públicas. Se a economia perder força e as despesas continuarem crescendo, a margem de atuação será menor.
O GOVERNO TERÁ DE ESCOLHER ENTRE GASTAR MAIS E EQUILIBRAR AS CONTAS?
Essa será uma das principais questões do quarto mandato.
O governo defende a manutenção dos investimentos públicos e dos programas sociais como instrumentos para estimular o crescimento e reduzir as desigualdades. Críticos dessa estratégia argumentam que a expansão das despesas, sem controle suficiente, pode aumentar a dívida e dificultar a redução dos juros.
Há argumentos econômicos dos dois lados, mas o resultado dependerá da qualidade das decisões adotadas.
Cortar investimentos essenciais pode comprometer a infraestrutura e o crescimento futuro. Entretanto, ampliar gastos permanentes sem receitas compatíveis pode agravar o endividamento.
A solução exigirá revisão de despesas, combate ao desperdício, avaliação dos resultados dos programas públicos, melhoria da arrecadação dentro das regras legais e definição de prioridades.
Também será necessário distinguir investimentos capazes de elevar a produtividade de medidas que produzem benefícios imediatos, mas deixam obrigações financeiras para os anos seguintes.
O orçamento público não é ilimitado. Cada decisão de gasto precisa ser confrontada com outras necessidades da população.
SEGURANÇA PÚBLICA E COMBATE AO CRIME ORGANIZADO
A segurança pública será outra área em que a população cobrará resultados concretos.
O enfrentamento das organizações criminosas exige integração entre União, estados e municípios, inteligência policial, combate à lavagem de dinheiro, controle do sistema penitenciário e fortalecimento das investigações.
O governo federal poderá ampliar sua participação nessas ações, mas não conseguirá resolver o problema apenas com anúncios ou operações pontuais.
O resultado dependerá da coordenação com os governos estaduais e da capacidade de atingir as estruturas financeiras das organizações criminosas.
A população deverá avaliar o desempenho nessa área pela redução dos crimes, pela segurança nos bairros e nas estradas e pela capacidade do Estado de recuperar territórios submetidos à influência de grupos criminosos.
A ECONOMIA SERÁ O PRINCIPAL TESTE DO QUARTO MANDATO
Lula inicia seu novo período de governo com uma vitória eleitoral expressiva, mas também com responsabilidades proporcionais às expectativas que ajudou a criar durante a campanha.
O presidente terá de demonstrar que é possível ampliar oportunidades sociais, melhorar os serviços públicos e estimular o crescimento sem comprometer a estabilidade econômica.
A dívida pública será um dos principais indicadores a acompanhar. As projeções fiscais divulgadas pelo Tesouro Nacional apontam que o endividamento continuará elevado nos próximos anos, o que reforça a necessidade de uma estratégia consistente para estabilizar sua trajetória.
Se o governo conseguir combinar crescimento, controle das despesas, inflação em queda e geração de empregos, poderá criar condições para melhorar a renda e ampliar os investimentos.
Se, ao contrário, os gastos crescerem sem sustentação financeira, a dívida aumentar persistentemente e os juros permanecerem altos, as dificuldades poderão atingir tanto as famílias quanto as empresas.
A política também será determinante. Um Congresso resistente, disputas partidárias e dificuldades para aprovar reformas poderão limitar a execução do programa de governo.
A vitória de Lula garante mais quatro anos de governo, mas não garante, por si só, prosperidade econômica ou melhoria imediata das condições de vida.
A expectativa mais concreta é a continuidade das políticas sociais, acompanhada de novas tentativas de elevar a renda, ampliar oportunidades de trabalho e estimular a economia. Ao mesmo tempo, o presidente terá de enfrentar uma dívida pública elevada, juros altos, famílias endividadas e limitações orçamentárias.
O governo precisará demonstrar como pretende financiar os compromissos assumidos e quais medidas adotará para evitar que as despesas cresçam acima da capacidade do país de sustentá-las.
Para o cidadão, a avaliação será objetiva: o salário comprará mais? O emprego ficará mais acessível? O crédito será menos caro? A saúde e a educação melhorarão? A violência diminuirá?
Essas são as questões que determinarão a percepção popular sobre o novo mandato.
A reeleição oferece a Lula a oportunidade de consolidar seu legado político. Entretanto, a responsabilidade de governar exige mais do que promessas: exige resultados, transparência e capacidade de tomar decisões difíceis.
O grande desafio do quarto mandato será conciliar a agenda social com a responsabilidade fiscal. Se conseguir avançar nas duas frentes, Lula poderá encerrar o governo com uma economia mais sólida e melhores condições de vida para a população. Caso não consiga, o peso das promessas não cumpridas e das dificuldades econômicas poderá se tornar o principal legado de sua última gestão presidencial.
*Samuel Arruda é jornalista e editor de política

