22-10-2026 às 11h21
Por Marcos de Noronha
Quando terminei a faculdade de medicina, no início da década de 1980, em Londrina, mudei-me para a França — hoje em polvorosa com as manifestações violentas. Havia conquistado uma bolsa de estudos e decidi fazer etnopsiquiatria. Naquela época, os tempos eram de paz no Mediterrâneo, na Universidade de Nice. Eu tinha duas famílias de padrinhos: uma do Rotary Club Internacional, que me concedeu a bolsa, e outra da Equipe de Casais da Igreja Católica, que nos acolheu.
O Sr. Planet era da região de Champagne, noroeste da França, e o Sr. Minard, da região de Bordeaux, sudoeste do país. Eu não tinha conhecimento algum sobre vinhos. Meu requinte não passava das garrafas azuis conhecidas como Liebfraumilch — vinhos alemães —, mas, nas festas de estudantes, quando havia vinho, era mesmo Sangue de Boi, o mais tradicional do Brasil, produzido pela Vinícola Aurora.
O primeiro impasse foi quando fomos convidados, eu e minha esposa da época, a um jantar na casa do Planet, onde ele abriu os trabalhos com champagne já na largada. Sendo daquela região, queria nos impressionar com a bebida de boas-vindas, mas, impulsivamente, rejeitei, dizendo que não gostava. Diante da expressão do meu anfitrião, resolvi dar-lhe uma chance — e, até hoje, não provei um champagne tão memorável. Ele me contou que a que me servira eu não encontraria para comprar no comércio. Foi assim que começou minha escola de champagne com o Sr. Planet, que se estendeu por toda a minha pós-graduação; em parte dela, hospedei-me no sótão do mesmo prédio da Rue de France, no calçadão, onde ele ocupava o terceiro andar. No térreo, tinha sua ótica, toda moderna e próspera.
Eu contava à família Minard sobre o Sr. Planet, que me ouvia com atenção nos jantares que alternávamos. O Sr. Minard era gerente de um banco tradicional francês e não queria ficar em desvantagem. Sempre escolhia o melhor Bordeaux — também dos que eu não encontraria no comércio — para impressionar. Até hoje não experimentei nada igual ao daquelas reuniões, que sempre terminavam com mais alegria do que começaram. O vinho não era uma simples bebida, mas algo cultural e, para alguns países, seu cartão de visita. Reconheci isso ainda no avião, ao retornar ao Brasil, quando experimentei um bom vinho brasileiro. Era da Almadén, então de um grupo americano e hoje pertencente à Miolo, em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul (vejam, no meu programa Psiquiatria Sem Fronteiras, no YouTube, as entrevistas que fiz).
Mas vamos aos bastidores desta bebida. Primeiro, devemos reconhecer que o vinho é a embalagem, e o etanol, o seu conteúdo — o mesmo das embalagens de cachaça, de uísque ou das garrafas de álcool. Ao ingerirmos, independentemente de a garrafa ter custado R$ 20 ou R$ 400, o álcool percorre um caminho no nosso corpo e passa por alguns órgãos, como o fígado. Nesse instante, o prazer pode ser imediato, e o conhecimento aplicado pode me fazer distinguir a boa bebida da não tão boa. Enquanto o prazer é privado, a socialização é coletiva, mas ambos são imediatos — o que justifica o encontro. Afinal, qual seria o sentido de viver senão para momentos como estes?
Se o etanol dessas garrafas pode ser nefasto para o organismo, esse dano é difuso e não imediato. Um psiquiatra trabalha com sérias consequências de alguns comportamentos e hábitos humanos. Algumas dessas consequências são mais fugazes do que outras. A embriaguez, por exemplo, é perceptível e pode nos levar a acidentes. Em contrapartida, se o álcool é um carcinógeno do mesmo grupo do amianto e do tabaco — classificação da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), da OMS, que inclui tanto a bebida alcoólica quanto o etanol e o acetaldeído, seu metabólito —, as consequências nesse campo ocorrerão com o tempo e conforme a propensão de cada um.
Temos alguns desafios a considerar, embora eu não conheça nenhum estudo que aponte uma dose segura para o álcool. O primeiro é o suposto benefício cardiovascular: será que ele supera os transtornos psiquiátricos e o aumento da incidência de câncer?
Aqui, os números são menos generosos do que a fama do vinho sugere. Um levantamento global publicado no Lancet Oncology estimou em 741 mil os novos casos de câncer atribuíveis ao álcool em 2020 — 4,1% de todos os diagnósticos, com participação bem maior entre homens do que entre mulheres (Rumgay et al., 2021). O detalhe incômodo está na estratificação: o consumo moderado, e não o pesado, respondeu por um em cada sete desses casos, mais de 100 mil diagnósticos no mundo. A moderação, portanto, não funciona como escudo — ela também adoece. É esse dado, e não uma posição moral, que sustenta a conclusão de que não existe dose segura. O argumento de que “o vinho faz bem ao coração”, por conta do resveratrol, precisa considerar outros fatores.
Um estudo chinês com 512 mil adultos, acompanhados por dez anos (China Kadoorie Biobank; Millwood et al., Lancet, 2019), mostrou que beber aumenta o risco de AVC — e não o contrário. Cada quatro doses adicionais por dia, o equivalente a 280 gramas de álcool por semana, elevaram o risco de AVC em cerca de 35%; mesmo uma a duas doses diárias, o padrão que costumamos chamar de moderado, elevaram-no em 12%. O mesmo vale para o infarto do miocárdio. E, na doença arterial periférica, nenhuma quantidade de álcool apareceu associada a proteção — ao contrário: o risco cresceu com a dose.
Vale entender por que a ciência demorou a enxergar isso. Nos dados observacionais, bebedores moderados pareciam mais saudáveis que abstêmios, desenhando a famosa curva em “J”. O estudo chinês desmontou o desenho: quem herda uma variante genética que torna o álcool desagradável bebe menos, e bebe por acaso, não por virtude. Essas pessoas não tiveram menos AVC. O “J” era, muito provavelmente, um artefato — abstêmios costumam incluir gente que parou de beber justamente porque adoeceu. Já o resveratrol que aparece nos estudos está em quantidade irrisória no vinho, e as doses usadas em experimentos não caberiam em tonéis. Se o herói fosse esse produto, o suco de uva seria a solução, pois viria sem o álcool.
No meu campo, selecionei alguns sintomas relacionados ao uso do álcool — todos, vale destacar, dependentes da frequência e da quantidade ingerida:
- Sono: o álcool encurta a latência do sono, além de destruir sua arquitetura. O mesmo acontece com os benzodiazepínicos (clonazepam, diazepam…). Reduz aquela fase conhecida como sono REM e, na segunda metade da noite, pode levar à insônia. Muitos dos meus pacientes com alcoolismo me contaram que o início foi o uso frequente à noite, para conseguirem dormir — da mesma forma que os viciados em Rivotril.
- Ansiedade: como o álcool tem uma meia-vida curta, ele traz uma ansiedade rebote aproximadamente cinco horas depois. Com o passar das horas, o corpo pede mais álcool. O cérebro associou essa bebida ao alívio. Ele também nos dá, curiosamente, a sensação de calor, com uma dose cowboy de destilado. Mas pergunte a um inuit se ele usaria álcool para se aquecer dentro de um iglu. No fim das contas, o álcool nos rouba o calor.
- Depressão: está diretamente relacionada ao álcool, pois a bebida é, em si, um depressor do sistema nervoso central; além disso, por ser ansiogênico — e não o contrário —, o uso e o desgaste nos levam à depressão.
- Demência: também diretamente relacionada, e aqui a associação com os benzodiazepínicos aparece nos grandes estudos de coorte, ainda que com a ressalva de que associação não é prova de causa. Uma dessas demências tem o nome de síndrome de Wernicke-Korsakoff, com atrofia cerebral pela perda progressiva de neurônios e de suas conexões, com redução do volume cerebral.
- Suicídio: a consequência mais cruel, presente em grande parcela das tentativas de suicídio.
Se a questão for a cultura do vinho, eu vivo ligado a ela, apreciando a bebida em diversas partes do planeta e entrevistando seus produtores. Neste mês, por exemplo, estive hospedado numa vinícola a cerca de 2.600 metros de altitude, onde o proprietário me falou da tradição na produção herdada de sua família e das vantagens de aroma e paladar das parreiras em altitude. Com a idade, também reconheço, fiquei mais fraco para a bebida, mas meu organismo conservou algo que me faz perder o desejo de beber hoje se ingeri álcool ontem.
Mesmo que o vinho tenha valor cultural e simbólico e faça parte de rituais que celebram a vida humana — fatores diretamente relacionados à saúde mental —, é preciso reconhecer que o que produz saúde não é o álcool em si, mas o encontro. Eu não defendo a proibição, mas a conscientização e a regulação, desestimulando as pessoas a dirigir após ingerir álcool. Vale lembrar: mais americanos morreram em acidentes automobilísticos envolvendo álcool durante a Guerra do Vietnã do que soldados americanos em batalha.
Agora você vem me dizer que, no Mediterrâneo, se bebe e se vive mais? Considere a dieta mediterrânea — a que o estudo PREDIMED, publicado no New England Journal of Medicine em 2018, associou a menos eventos cardiovasculares — e as condições econômicas da população. E o meu avô Waldomiro, que adorava uma pinguinha e morreu com 96 anos? E se o seu médico recomendou uma taça de vinho diária? Eu pergunto: todos os dias? Não seria uma forma de iniciar o consumo e tornar-se dependente dele? Mesmo que, para viver bem, seja legítimo procurar prazer, volto a insistir: o homem tem prazer — e até necessidade — do encontro, de conexões, muitas vezes proporcionadas por momentos em que a bebida faz parte.
*Marcos de Noronha é Psiquiatra titulado pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), é psicoterapeuta e psicodramatista reconhecido pela Federação Brasileira de Psicodrama. Preside a Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural e integra entidades internacionais dedicadas à psiquiatria cultural e transcultural. É um dos fundadores da Associação Mundial de Psiquiatria Cultural, autor de artigos científicos e dos livros Terapia Social e O Cérebro e as Emoções. Atua em Florianópolis coordenando grupos de Terapia Social nos setores público e privado, além de apresentar o programa Psiquiatria Sem Fronteiras e conteúdos do Humanitas TV no YouTube.

