Créditos: Divulgação
08-10-2026 às 16h42
Pietra Ribeiro
Mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais foram concedidos no Brasil em 2025, segundo dados do Ministério da Previdência Social. O número, que representa um aumento de 15,66% em relação ao ano anterior, ganha relevância às vésperas do Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro, e reforça a dimensão dos desafios relacionados ao bem-estar emocional no país. Nesse cenário, a discussão também passa por situações presentes no cotidiano, como a dificuldade de reconhecer limites, a pressão para corresponder às expectativas dos outros e a repetição de comportamentos que podem influenciar as escolhas.
Para a filósofa e psicanalista Ana Matos, o autoconhecimento pode ajudar nesse processo. Ao compreender melhor as próprias emoções, necessidades e padrões de comportamento, uma pessoa tem mais condições de avaliar situações que provocam desconforto e identificar quando suas decisões estão sendo influenciadas por cobranças externas. Isso não significa evitar o sofrimento ou impedir o desenvolvimento de transtornos mentais, mas ampliar a consciência sobre a própria maneira de agir e se relacionar.
Para Ana, o autoconhecimento não torna ninguém imune ao sofrimento, às frustrações ou aos conflitos que fazem parte da vida. Segundo a filósofa, o processo oferece ferramentas para ampliar a consciência sobre a maneira como cada pessoa responde ao que acontece. Nesse sentido, ela propõe algumas perguntas como ponto de partida para essa reflexão: quantas vezes alguém ultrapassou ou negociou os próprios limites? Quantas situações que fazem mal continuam sendo sustentadas? E quantas escolhas foram feitas mais pela necessidade de corresponder às expectativas dos outros do que por aquilo que realmente se deseja? Ao reconhecer os padrões que se repetem na própria história, explica Ana, também é possível perceber o que se tenta sustentar por meio deles e por que determinadas situações continuam ocupando tanto espaço na vida. “Conhecer-se não significa ter controle sobre tudo o que sentimos ou sobre aquilo que irá nos acontecer, mas ter mais condições de distinguir o que é uma escolha consciente e coerente com quem somos, e queremos, daquilo que apenas continuamos repetindo sem perceber”, afirma.
Na prática, essa relação aparece em situações comuns, como a dificuldade de recusar demandas no trabalho, a permanência em relações insatisfatórias ou a sensação de precisar corresponder às expectativas de familiares e colegas. Embora pareçam decisões isoladas, essas atitudes podem estar relacionadas a padrões de comportamento que nem sempre são percebidos por quem os repete.
Como a falta de autoconhecimento influencia as escolhas
A necessidade de aprovação, o medo de decepcionar e a dificuldade de estabelecer limites podem interferir tanto nas relações pessoais quanto na vida profissional. Uma pessoa que assume responsabilidades além da própria capacidade, por exemplo, pode ter dificuldade de reconhecer o momento de desacelerar. Outra pode adiar decisões importantes por receio de frustrar alguém ou de não corresponder ao que esperam dela.
Esses comportamentos não explicam, isoladamente, os problemas de saúde mental, que envolvem diferentes fatores individuais e sociais. Ainda assim, compreender o que está por trás de determinadas reações pode ajudar a identificar conflitos recorrentes e a avaliar alternativas para lidar com eles. Na perspectiva psicanalítica, esse processo envolve investigar não apenas o que uma pessoa faz, mas também as motivações e experiências que podem influenciar suas atitudes. O objetivo não é encontrar uma resposta pronta para cada situação, mas ampliar a compreensão sobre os próprios comportamentos.
Na avaliação de Ana Matos, esse processo pode ser observado em escolhas aparentemente simples do cotidiano. Uma pessoa pode passar anos dizendo “sim” a situações que gostaria de recusar sem perceber o que está por trás daquele consentimento. Isso pode acontecer, segundo a filósofa, quando alguém aceita uma sobrecarga no trabalho por ter aprendido a associar seu valor à capacidade de dar conta de tudo, permanece em uma relação que já não lhe faz bem por medo de decepcionar ou toma decisões pensando primeiro em como serão recebidas pelos outros.
Quando a necessidade de aprovação ocupa um espaço muito grande, explica Ana, desagradar pode ser vivido como uma ameaça de rejeição, perda ou abandono. O problema, para ela, é que essas experiências podem começar a aparecer antes mesmo de uma eventual ruptura. “O abandono, a perda e a rejeição já estão acontecendo quando o medo de desagradar o outro é maior do que o de ser coerente com aquilo que de fato se escolheria se não fosse esse medo”, afirma.
A questão está justamente na relação entre a necessidade de corresponder ao outro e a possibilidade de escolher de acordo com aquilo que se deseja. Ana observa que, nesse movimento, a pessoa pode acabar sustentando a escolha de se abandonar, se perder e se rejeitar para não abrir mão da necessidade de corresponder ao “Grande Outro”, conceito associado à obra do psicanalista Jacques Lacan. É por isso, segundo a filósofa, que conhecer a própria história importa: nem sempre aquilo que chamamos de escolha está tão separado das formas que aprendemos, ao longo da vida, de preservar vínculos, garantir pertencimento e corresponder ao que esperavam de nós.
“Nesse caminho do autoconhecimento, ‘voltar para a casa’ é indispensável”, conclui.
Saúde mental também envolve reconhecer os próprios limites
O cuidado com a saúde mental costuma ganhar visibilidade em momentos de crise, quando os sintomas começam a interferir na rotina, no trabalho ou nos relacionamentos. A discussão sobre autoconhecimento, porém, permite abordar também as dificuldades que se acumulam no dia a dia, como a sobrecarga, os conflitos interpessoais e a sensação de não conseguir corresponder às próprias expectativas.
Reconhecer esses sinais pode ajudar a pessoa a avaliar o que precisa mudar e quando é necessário buscar apoio. O acompanhamento psicológico, nesse contexto, pode contribuir para a compreensão de conflitos, a identificação de padrões de comportamento e o desenvolvimento de formas mais conscientes de lidar com as próprias emoções. Isso não significa atribuir ao indivíduo toda a responsabilidade por seu bem-estar. Condições de trabalho, situação financeira, relações familiares e acesso a serviços de saúde também influenciam a saúde mental. O autoconhecimento é uma dimensão desse cuidado, e não uma solução isolada para problemas que muitas vezes exigem apoio profissional e mudanças nas condições de vida.
Para Ana Matos, a proposta é ampliar o debate sobre saúde mental para além dos momentos em que o sofrimento se torna difícil de administrar. Compreender os próprios limites, identificar comportamentos recorrentes e reconhecer as pressões que influenciam as decisões são caminhos para construir escolhas mais coerentes com as necessidades de cada pessoa, sem a expectativa de ter que alcançar um estado permanente de equilíbrio.

