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07-10-2026 às 10h14
Samuel Arruda*
O voto não é apenas um direito exercido a cada quatro anos. É uma das ferramentas mais importantes que uma comunidade possui para influenciar os rumos do desenvolvimento, definir prioridades e escolher quem terá a responsabilidade de representar seus interesses nas instâncias de poder.
Minas Gerais elegeu, em 2026, 53 deputados federais. A eleição para a Câmara dos Deputados continua submetida ao sistema proporcional: as cadeiras são distribuídas de acordo com a votação dos partidos e federações, e não simplesmente pela soma dos candidatos mais votados individualmente em cada região.
É justamente aí que precisamos amadurecer o debate regional.
O Vale precisa olhar para além do número de candidatos
O Vale do Jequitinhonha não pode medir sua força política apenas pela quantidade de candidatos que apresenta. Mais importante do que lançar muitos nomes é construir uma cultura política capaz de identificar projetos, compromissos, capacidade de articulação e verdadeira conexão com as necessidades da região.
A eleição de 2026 trouxe uma situação emblemática. Igor Timo, natural de Virgem da Lapa e deputado federal desde 2019, buscou a reeleição, mas não conquistou um novo mandato para a legislatura que começa em 2027. Em 2022, ele havia sido eleito com 74.465 votos.
Também participaram da disputa nomes ligados diretamente à história política do Jequitinhonha. Jornalista Soelson Araújo, ex-prefeito de Turmalina, concorreu a deputado federal. O advogado Luiz Fernando Alves, ex-prefeito de Itamarandiba, também colocou seu nome à disposição do eleitorado. Nenhum dos dois conquistou a cadeira federal. Luiz Fernando obteve 25.867 votos e ficou como suplente; Soelson depois de 20 anos fora das disputas políticas teve votação bem menor no conjunto do Estado, apesar de ter demonstrado em suas redes sociais estar bem preparado para o cargo.
Esses resultados não devem ser tratados simplesmente como derrotas pessoais.Eles precisam ser compreendidos como sinais para uma região que precisa discutir, com profundidade, como transforma presença eleitoral em representação política efetiva.
Voto consciente não é voto regional obrigatório
Falar em consciência regional não significa defender que o eleitor vote simplesmente porque determinado candidato nasceu em sua cidade ou pertence à sua região.
Isso seria reduzir a democracia.
O eleitor tem o direito — e a responsabilidade — de escolher livremente quem considera mais preparado para representá-lo.
Mas também é legítimo que uma comunidade conheça seus próprios desafios e pergunte aos candidatos: quem conhece a realidade do Jequitinhonha? Quem compreende as dificuldades de infraestrutura, saúde, educação, segurança hídrica, conectividade, geração de emprego, agricultura familiar, mineração, turismo, juventude e permanência das pessoas no território?
Essa consciência pode produzir uma política regional mais organizada sem eliminar a liberdade individual de escolha.
O voto consciente não precisa ser um voto uniforme. Precisa ser um voto informado.
O que o eleitor deve cobrar?
Talvez essa seja a principal mudança cultural de que precisamos.
O eleitor não deve procurar apenas o candidato que aparece mais, que promete mais ou que possui maior estrutura eleitoral.
É preciso perguntar:
- Qual é o histórico público do candidato?
- Que propostas concretas ele apresenta para a região?
- Conhece os municípios e suas necessidades?
- Tem capacidade de articulação em Brasília?
- Como pretende trabalhar pela infraestrutura e pela geração de empregos?
- Qual é sua posição sobre saúde regional, educação, estradas, ferrovias, conectividade e desenvolvimento econômico?
- Como prestará contas de sua atuação?
- Está disposto a dialogar com prefeitos, vereadores, empresários, produtores rurais, universidades, entidades sociais e a população?
Essas perguntas são mais importantes do que qualquer santinho, vídeo ou promessa de campanha.
O problema não é ter muitos candidatos. É não construir convergência
O Vale do Jequitinhonha é formado por municípios com identidades próprias, lideranças diferentes e demandas específicas. Essa diversidade é uma riqueza.
O desafio está em transformar essa diversidade em capacidade de articulação.
Uma região não precisa necessariamente votar em um único nome. Mas precisa aprender a discutir prioridades comuns.
É possível defender uma agenda regional que atravesse partidos e ideologias: melhores rodovias, segurança hídrica, saneamento, educação técnica e superior, saúde especializada, conectividade, apoio ao empreendedorismo, agricultura, turismo, mineração responsável e políticas que permitam aos jovens permanecerem e prosperarem em suas próprias cidades.
Quando uma região consegue estabelecer uma agenda mínima de desenvolvimento, seus representantes passam a ter uma referência concreta para trabalhar.
E o voto distrital?
É nesse ponto que o debate sobre a reforma do sistema eleitoral ganha importância.
Existe atualmente no Congresso uma discussão sobre a adoção do voto distrital misto. A PEC 2/2025, por exemplo, propõe mudanças no sistema eleitoral e prevê voto distrital misto, mas sua tramitação e suas regras ainda precisam ser acompanhadas cuidadosamente. Não é correto tratar, neste momento, uma eventual mudança para 2030 como decisão já definitivamente aprovada pelo Congresso. O debate, entretanto, é extremamente relevante para regiões como o Jequitinhonha e o Norte de Minas.
O voto distrital parte de uma lógica simples: aproximar o representante de um determinado território e tornar mais clara a relação entre eleitor e eleito.
Para uma região historicamente marcada pela distância geográfica dos grandes centros de decisão, essa discussão merece atenção.
Mas o voto distrital, por si só, não resolverá todos os problemas.
Nenhum sistema eleitoral substitui a consciência do eleitor, a qualidade das instituições, a organização da sociedade e a responsabilidade dos partidos.
Uma nova regra pode mudar a forma de escolher. Não pode substituir a necessidade de escolher bem informado.
A eleição termina; a cidadania continua
Talvez a maior lição das eleições de 2026 seja justamente esta: não podemos lembrar da política apenas durante o período eleitoral.
A cidadania começa antes da campanha e continua depois da apuração.
É preciso acompanhar os mandatos, cobrar compromissos, fiscalizar recursos públicos, participar das audiências, conhecer as emendas parlamentares, acompanhar as votações e exigir transparência.
O eleitor que vota e desaparece até a próxima eleição abre mão de uma parte importante de seu poder.
O eleitor que acompanha, questiona e participa transforma o voto em instrumento permanente de cidadania.
Um novo pacto regional
O Vale do Jequitinhonha e o Norte de Minas não precisam entrar em uma disputa entre municípios, partidos ou lideranças.
Precisam construir um novo pacto regional.
Um pacto baseado em uma ideia simples: a política deve ser instrumento de desenvolvimento das pessoas e dos territórios.
Que cada município possa apresentar suas prioridades. Que as associações regionais, universidades, entidades empresariais, movimentos sociais, produtores rurais e organizações comunitárias participem desse debate.
Que os candidatos sejam chamados a apresentar propostas antes das eleições — e a prestar contas depois delas.
Que a região não seja lembrada apenas como território eleitoral, mas como território de desenvolvimento.
A perda de mandatos ou a não eleição de determinados nomes não deve produzir apenas frustração. Deve produzir aprendizado.
Igor Timo, Soelson Araújo, Luiz Fernando e tantos outros nomes que participaram da vida política regional representam momentos e trajetórias diferentes. O eleitor é soberano para reconhecer ou não essas trajetórias nas urnas. O papel da sociedade, entretanto, é transformar cada eleição em aprendizado coletivo.
O Jequitinhonha e o Norte de Minas possuem gente, inteligência, história, recursos naturais, cultura, capacidade produtiva e lideranças.
O que precisamos fortalecer é a capacidade de transformar tudo isso em consciência política, organização regional e representação institucional.
O voto tem força.
Mas sua força aumenta quando é acompanhado de conhecimento, participação e responsabilidade.
Que a eleição de 2026 não seja lembrada apenas pelos nomes que ganharam ou perderam.
Que seja lembrada como o momento em que o eleitor do Vale e do Norte começou a compreender, de maneira ainda mais madura, que votar é escolher o futuro que deseja construir — e acompanhar aqueles que receberam a missão de construí-lo, não obstante o Norte de Minas ter dado exemplo de maior consciência eleitoral, elegendo 10 deputados, enquanto o Vale do Jequitinhonha perdeu o único deputado federal com mandato que tinha. Deputado federal Igor Timo.
*Samuel Arruda é jornalista e editor de política

