05-10-2026 às 07h21
Samuel Arruda*
Belo Horizonte — 5 de outubro de 2026. O primeiro turno das eleições em Minas Gerais produziu um resultado politicamente expressivo: Cleitinho Azevedo (Republicanos) foi eleito governador já no primeiro turno, enquanto a disputa presidencial no estado terminou com Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Lula (PT). Para o Senado, Domingos Sávio (PL) e Marília Campos (PT) conquistaram as duas vagas em disputa.
Cleitinho vence com folga e evita segundo turno
A principal notícia da eleição estadual foi a vitória de Cleitinho Azevedo. Segundo o TSE, com 99,99% das urnas apuradas, o candidato do Republicanos chegou a 55,40% dos votos válidos, elegendo-se governador sem necessidade de uma segunda rodada.
Patrus Ananias (PT) terminou em segundo, com 26,34%, seguido por Flávio Roscoe (PL), com 6,97%; Mateus Simões (PSD), com 4,65%; e Alexandre Kalil (PDT), com 3,54%.
O resultado é particularmente relevante porque Cleitinho conseguiu transformar uma candidatura associada à direita e a um discurso de forte comunicação digital em uma vitória majoritária de grande dimensão. A campanha também se beneficiou de sua conhecida presença política no interior do estado.
Impressão política: a votação de Cleitinho não representa apenas uma vitória pessoal. Ela sugere que, em Minas, o eleitorado estadual esteve mais receptivo a uma candidatura identificada com a direita do que a uma candidatura petista. A magnitude da diferença — quase 29 pontos percentuais entre os dois primeiros colocados — torna difícil classificar o resultado como uma eleição apertada ou meramente circunstancial.
Senado: direita e esquerda dividem as duas cadeiras
Na eleição para o Senado, o resultado foi mais equilibrado. Domingos Sávio (PL) foi eleito com 24,21% dos votos válidos, enquanto Marília Campos (PT) conquistou a segunda vaga, com 19,44%.
A combinação é politicamente significativa. Enquanto Cleitinho obteve uma vitória expressiva para o Executivo estadual, o eleitor mineiro não reproduziu integralmente esse comportamento na eleição majoritária para o Senado.
Impressão política: a eleição dos dois senadores mostra que Minas Gerais não pode ser interpretada simplesmente como um estado que “virou à direita”. O eleitorado apresentou comportamentos diferentes conforme o cargo. A direita ganhou força no governo estadual e uma das cadeiras do Senado, mas o PT preservou uma representação importante no Senado mineiro.
Presidente: Flávio Bolsonaro supera Lula em Minas
É na disputa presidencial que aparece a maior surpresa em relação às pesquisas da reta final.
No resultado mineiro do primeiro turno, Flávio Bolsonaro terminou na frente de Lula, levando aproximadamente 48,25% dos votos válidos contra 43,31% do petista, de acordo com a apuração divulgada após a votação.
O resultado chama atenção porque a pesquisa Datafolha divulgada em 2 de outubro apontava Lula à frente em Minas, com 45% dos votos válidos, contra 38% de Flávio Bolsonaro. UOL Notícias
Ou seja, houve uma diferença considerável entre o cenário projetado nas pesquisas na reta final e o comportamento efetivo das urnas.
Isso torna Minas um dos principais estados a serem observados no segundo turno presidencial.
O que o resultado mineiro revela?
Há pelo menos quatro leituras importantes.
1. Minas deu uma vitória inequívoca ao campo da direita no governo estadual
A eleição de Cleitinho por mais de 55% dos votos válidos indica uma preferência clara por uma candidatura de direita no Executivo estadual. O resultado também ocorre em um cenário nacional no qual o PL teve desempenho muito forte.
2. A força da direita não eliminou o PT
A eleição de Marília Campos para o Senado e os mais de cinco milhões de votos de Lula no estado mostram que existe uma parcela muito expressiva do eleitorado mineiro alinhada ao campo petista.
Portanto, seria precipitado interpretar o resultado como uma hegemonia absoluta da direita.
3. A eleição presidencial em Minas está longe de estar decidida
A vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno dá ao candidato uma posição muito relevante, mas não significa que Minas esteja automaticamente definida para o segundo turno.
Lula tem uma base superior a cinco milhões de votos no estado, e a disputa entre os dois candidatos será diretamente afetada pela capacidade de cada campanha de atrair os eleitores que votaram em Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e outros candidatos no primeiro turno.
Além disso, o comportamento dos eleitores de Zema merece atenção: o ex-governador terminou com menos de 1% dos votos para presidente em Minas, segundo a apuração divulgada. UOL
4. O desempenho de Cleitinho fortalece uma nova liderança política mineira
Cleitinho deixa o Senado para assumir o governo de Minas com uma votação expressiva. A vitória também ocorre paralelamente ao desempenho muito forte de Nikolas Ferreira, que obteve mais de 3,1 milhões de votos para deputado federal e se consolidou como uma das principais lideranças eleitorais da direita brasileira.
Isso aponta para uma renovação importante das lideranças conservadoras mineiras.
Um mapa político diferente de 2022
O resultado de 2026 também ganha importância quando comparado ao ambiente eleitoral anterior. Minas Gerais volta a aparecer como estado-chave para a disputa presidencial, mas agora com uma configuração diferente: a direita conquistou o governo estadual e colocou seu candidato presidencial na liderança no primeiro turno.
Ao mesmo tempo, o PT não sofreu uma derrota completa: Patrus ficou em segundo na disputa pelo governo e Marília Campos conquistou uma das vagas do Senado.
O quadro, portanto, é menos de uma substituição total de um campo político por outro e mais de uma forte ampliação da competitividade da direita em um dos maiores colégios eleitorais do país.
O que esperar do segundo turno
A eleição presidencial de Minas Gerais será, provavelmente, uma das disputas estaduais mais importantes até 25 de outubro. O estado tem peso eleitoral suficiente para influenciar decisivamente a margem nacional.
O primeiro turno deixa uma mensagem clara: Flávio Bolsonaro entra no segundo turno em Minas com vantagem e com o impulso da vitória estadual de Cleitinho. Lula, por sua vez, precisa recuperar terreno entre os mineiros e transformar sua votação de mais de cinco milhões de eleitores em uma base capaz de crescer no segundo turno.
Para Cleitinho, o desafio será outro: administrar a vitória com um discurso capaz de dialogar para além do eleitorado que o levou ao governo. A diferença expressiva sobre Patrus lhe dá capital político para iniciar o mandato com força, mas também aumenta a expectativa sobre a capacidade de articulação do novo governo.
Em síntese: o primeiro turno de 2026 deixa Minas Gerais com um governador de direita eleito com ampla vantagem, um Senado dividido entre PL e PT e uma disputa presidencial em que a direita saiu na frente. O estado, porém, continua politicamente dividido o suficiente para que o resultado nacional de 25 de outubro permaneça aberto.
Fontes: Tribunal Superior Eleitoral e Tribunal Regional Eleitoral. Veja vídeo de Cleitinho comemorando resultado com a família:

