04-10-2026 às 07h50
Por Caio Brandão
Nicanor trabalha no Congresso Nacional e está realizado. Comprou o terceiro carro e um apartamento para a filha mais velha no Guará, uma das regiões mais tradicionais da capital federal. Sua função é de auxiliar de portaria, mas, com o tempo de casa e alguns adicionais, tornou-se o mais endinheirado da família de oitenta pessoas, quase todas vindas do Nordeste, principalmente da Paraíba.
Contudo, Nicanor não anda bem do juízo — ou do espírito. Vem escutando vozes estranhas. Não aquelas dos deputados, vez por outra recheadas de impropérios, mas outras, guturais, que parecem ecoar de um lugar onde o silêncio deveria ser absoluto.
Quando faz serão, em trabalho noturno eventual, escuta barulhos macabros nos corredores da Câmara, principalmente nas proximidades do chamado “Túnel do Tempo”, passagem que liga o edifício principal do Congresso ao Anexo II do Senado Federal.
Não por acaso.
Nicanor é médium vidente e intuitivo. Além de enxergar vultos e cenas do extrafísico, recebe informações do além-túmulo. No Túnel do Tempo, segundo relata, já viu muita gente ir e não voltar, e outros tantos que retornaram sem nunca ter ido.
O local, garante ele, é uma mistureba de encarnados e desencarnados, de gente viva, de gente morta e de mortos-vivos: aqueles que perderam a eleição e continuam por lá, indo e vindo cumprimentando os passantes e fazendo pose de autoridade.
Historiador amador, leitor entusiasta da história de Brasília e quase um bibliófilo, por colecionar memórias escritas da capital, Nicanor fez descobertas insólitas sobre a arquitetura do Palácio do Congresso.
Para ele, as duas cúpulas hemisféricas têm significado místico e elevada importância espiritual. A cúpula côncava, voltada para baixo, fica acima do plenário do Senado Federal. A convexa, voltada para cima, abriga o plenário da Câmara dos Deputados.
Entre ambas, as torres gêmeas erguem-se sobre a imensa plataforma de concreto, deixando passar a luz do crepúsculo, que, segundo Nicanor, realiza diariamente a assepsia místico-esotérica do ambiente.
Mas é sob a cúpula côncava que a história fica realmente interessante.
Ali, a visão mediúnica de Nicanor revela um cenário sombrio.
Durante o dia, espíritos trevosos e de baixa vibração escondem-se as centenas. Ficam quietos, aparentemente inofensivos, esperando a hora de agir. Quando o movimento aumenta, começam os conluios.
Não são reuniões desorganizadas. Há pauta, ata, hierarquia e até distribuição de tarefas.
Os trevosos tramam ardis de influência negativa para inspirar não apenas os parlamentares eleitos, mas todos os que por ali transitam.
É uma multidão heterogênea em busca dos mais diversos propósitos. Prefeitos reivindicam verbas. Lobistas procuram espaço. Servidores pleiteiam reajustes. Representantes de entidades chegam com projetos debaixo do braço. Há gente sincera, gente interesseira e gente que, segundo Nicanor, “nem o próprio anjo da guarda recomenda”.
Os espíritos sabem disso.
E trabalham.
«Há os encarregados da intriga, os especialistas em ressentimento e os que se dedicam exclusivamente a convencer um homem de que ele é muito mais importante do que realmente é.»
Nicanor percebe que os moradores da cúpula côncava emanam ondas magnéticas de forte intensidade. Elas se propagam pelos plenários e comissões, atravessando gabinetes, corredores e elevadores.
Seu efeito é variado.
Às vezes inviabilizam um projeto útil.
Às vezes transformam uma discussão simples em batalha campal.
Às vezes fazem um parlamentar falar durante duas horas sem conseguir explicar exatamente o que queria dizer.
Os trevosos consideram este último fenômeno uma obra-prima.
Há, inclusive, especialistas para cada tipo de intervenção.
Uns cuidam da vaidade. Outros, da ambição. Há os encarregados da intriga, os especialistas em ressentimento e os que se dedicam
exclusivamente a convencer um homem de que ele é muito mais importante do que realmente é.
Esse último departamento está sempre sobrecarregado.
A organização da cúpula côncava é rigorosa. Os trabalhos começam cedo, com a análise detalhada da pauta do dia.
O impulsionamento de enfermidades preexistentes nos parlamentares é alvo constante.
Os trevosos comemoram quando provocam um mal-estar súbito, uma queda ou uma fratura. Mas o verdadeiro delírio ocorre diante de um acidente vascular cerebral.
Nessas ocasiões, a cúpula entra em festa.
O titular é afastado imediatamente e o suplente começa a fazer contas.
Nicanor diz que é nesse momento que os espíritos mais experientes assumem o comando:
— Agora deixem comigo. Esse aqui eu conheço.
Integrar a elite da cúpula côncava é um privilégio na hierarquia demoníaca. O espírito passa por testes e entrevistas para demonstrar pendor pela maldade intelectual, a qual antecede e viabiliza a financeira.
A finalidade é simples: maximizar prejuízos materiais e danos morais por meio de infortúnios coletivos.
Nicanor enxerga o Congresso como terreno particularmente fértil para a atuação dessas entidades.
Há figuras incorruptíveis por lá, sim. Segundo ele, são uns chatos. Alguns dependem de diazepam para controlar a ansiedade e dormir.
Os trevosos têm dificuldade com esses.
— Não insistam nesse — ordena um supervisor. — Esse aí ainda tem consciência.
Mas há também parlamentares honestos prestes a ceder e desonestos dispostos a ampliar suas ambições.
Para os espíritos da cúpula, uns e outros oferecem oportunidades diferentes.
«O momento de maior júbilo ocorre durante a votação do orçamento anual da União. É quando a cúpula côncava parece uma bolsa de valores do inferno.»
Os espíritos acompanham cada remanejamento de verba, cada dotação, cada emenda. Quando percebem uma oportunidade de desviar uma boa intenção para um mau negócio, quase entram em transe.
Ambulâncias, medicamentos, equipamentos hospitalares, tratores, obras e praças esportivas transformam-se, na visão dos trevosos, em verdadeiros pratos de banquete.
— Essa aqui dá para trabalhar — diz um.
— Não. Essa é pequena demais.
— Então mande para aquele município.
— Qual?
— O que ninguém fiscaliza direito.
E todos riem.
— Ah, que alegria estar aqui! — murmuram os trevosos nas percepções de Nicanor.
O grupo também adora disseminar intrigas, calúnias e boatos. Trata-se de um hobby sofisticado, reservado aos escalões superiores da hierarquia.
Escolhem cuidadosamente os porta-vozes.
Nunca um desconhecido.
Preferem alguém com credibilidade, boa aparência, voz segura e, de preferência, uma legião de seguidores.
O boato precisa sair com roupa de notícia.
A lascívia também recebe atenção, embora não seja considerada atividade de alta complexidade. Segundo Nicanor, o setor trabalha com matéria-prima abundante e não encontra dificuldade para cumprir suas metas.
O problema é que alguns trevosos exageram.
Por isso, de tempos em tempos, a chefia precisa adverti-los:
— Menos entusiasmo, senhores. Estamos trabalhando no Congresso, não numa casa de tolerância.
A tentativa de induzir os parlamentares ao abuso de álcool, entretanto, não alcançou os resultados esperados.
A turma do contra-ataque entrou em cena.
Os pinguços passaram a enfrentar vigilância, ameaças de sanções e constrangimentos públicos.
Os trevosos ficaram contrariados.
Já em outras tentações, segundo Nicanor, a resistência foi menor. O problema, nesse caso, é que alguns resultados se tornaram tão visíveis que até os espíritos começaram a recomendar cautela.
— Excesso de entusiasmo também compromete o trabalho — teria dito o chefe do setor.
Grandes nomes da demonologia lideram as operações na cúpula côncava: Asmodeus, ligado à luxúria e à destruição; Belial, à perversão; e Astaroth, ao domínio dos segredos.
Mas Nicanor captou recentemente uma informação que deixou a cúpula em alerta.
Os clérigos da Catedral Metropolitana de Brasília, situada a poucos quilômetros do Palácio, resolveram intervir.
Com a chegada de um novo presidente da Câmara, começaram a organizar novenas e preces prolongadas a São José Operário, São Mateus e São Judas Tadeu.
A notícia provocou uma reunião extraordinária na cúpula.
— Estão rezando por ele — informou um espírito.
— Quantos?
— Muitos.
Silêncio.
— E com fé?
— Parece que sim.
Outro silêncio.
Asmodeus levantou-se lentamente.
— Então teremos trabalho.
Para Nicanor, o alívio está longe de acontecer.
A disputa apenas começou.
«As eleições se aproximam. Parlamentares com a aura exaurida deixarão o Congresso, e uma nova safra de carne fresca chegará desprotegida, ávida por se curvar às seduções e vantagens do poder.»
Lá do alto da cúpula côncava, Asmodeus, o mais impetuoso dos patronos, abriu os braços, entrou em êxtase e bradou para os seus:
— Maravilhoso! A clientela vai aumentar.

Caio Brandão é jornalista

