Legenda – Sr. Antõezinho ao lado de sua charrete. Créditos: Divulgação
02-10-2026 às 08h27
Sérgio Augusto Vicente*
De meio de transporte a lugar de memória. Foram muitos os passeios, os caminhos percorridos e as jornadas do sítio à escola. Durante muito tempo, ela nos serviu como principal meio de transporte. Refiro-me à charrete de meu saudoso Pai, Antônio Vicente, mais conhecido como Sr. Tõezim do Buraco Fundo, que a adquiriu de um amigo e compadre, Didi Bechara, em 1970.
Inicialmente puxada pelas éguas Branca e Rainha, pelos cavalos Gaúcho e Sereno, e, mais recentemente, pela Potira, a charrete se tornou amiga inseparável de meu Pai, que zelava por ela como sua BMW de tração animal, renovando-lhe a pintura laranja e lhe fazendo reparos periódicos. Tudo isso sem dispensar as aplicações do bom e tradicional Durepox.
Até meados dos anos 1990, a charrete nos levava à Escola Municipal Erotides Leal Teixeira, em Sobragy (distrito de Belmiro Braga – MG). O momento era de transição no processo de reconhecimento da educação formal como direito previsto na recém-promulgada Constituição de 1988. Não demorou muito para que a Kombi da prefeitura ocupasse esse papel de levar as crianças das comunidades rurais às unidades escolares. Sendo eu o caçula de uma prole de seis, fui o único da família que se beneficiou diretamente dessa política pública na infância e na adolescência. Não sem antes experimentar a charrete, a carroça e a garupa de nosso cavalo trotão, o Gaúcho. Sou do tempo em que o percurso de charrete era feito com nosso memorável Sereno servindo de motor, acompanhado de seu inseparável Bob, o fiel cão escudeiro, que andava à sua frente lhe abrindo os caminhos e lhe escoltando.
Mesmo com o advento do transporte escolar municipal e do primeiro veículo automotivo da família (uma Brasília verde comprada por meus irmãos Carlinhos e Zé) ameaçando seu protagonismo, ela permaneceu em plena atividade. Em 1997, chegou a ser alçada, inclusive, ao status de estrela cinematográfica, conduzida pelo ator Antônio Pitanga no filme “A Terceira Morte de Joaquim Bolívar”.

Legenda – Charrete sendo utilizada, nos anos 1990, pelo ator Antônio Pitanga numa das cenas do filme “A Terceira Morte de Joaquim Bolívar”. Assista à cena clicando no link a seguir: https://bit.ly/46PXCnu
Enquanto vivo esteve, meu Pai jamais a condenou ao mofo e à poeira. Também pudera: através dela, conseguia manter sua tão cara e indispensável autonomia de ir e vir. Sem vocação para o volante, era ela seu meio de locomoção predileto, a responsável por levá-lo a Sobragy, onde, desde a mais tenra idade, cultivava seus mais profundos laços de amizade e afeto.
Motivos não lhe faltavam para arrear o cavalo, prendê-lo à charrete e seguir pela estrada de Sobragy, com seus morros, curvas, poeiras, lamas, o inesquecível trecho do “barro-mole” e a centenária ponte de ferro resistente aos longos anos de descaso do poder público. Sobragy era seu oásis, o divã que lhe aliviava as agruras e angústias. Talvez uma forma de não perder as rédeas de sua própria identidade.
Até poucos anos atrás, perseverou no hábito dominical de entregar encomendas de queijos para os amigos nesse arraial vizinho. Fazia tudo com gosto, sob o pretexto de ajudar meu irmão, Carlinhos, nas vendas. Arrumava tudo na charrete e partia com a caderneta dos fiados debaixo do braço. Lá, bebia sua cervejinha e comia seus petiscos no comércio dos amigos: ora no Bar do Luís, ora na venda do Manoel, ora no Bar do Eli, ora no Zé Joaquim… Um verdadeiro deleite para a alma e… o estômago! Raras eram as vezes em que chegava em casa com fome. Por vezes, nos trazia, inclusive, algum mimo: torresmo, balas, biscoito, etc.
Em 2020, com o advento da pandemia de Covid-19 e a queda da centenária ponte de Sobragy, essa tradição se quebrou. A interrupção do acesso ao lugar que tanto amava foi brusca. Nesse interim, vieram a descoberta da doença na bexiga e na próstata, o tratamento médico e uma certa debilitação física. Em 2024, com a inauguração da nova ponte de Sobragy, concretizava-se o longo desejo do retorno. Contudo, depois de quatro anos sem fazer o percurso a que estava acostumado, perdeu a segurança das rédeas. Também temíamos que ele o fizesse sozinho. Meu irmão, Carlinhos, passou a levá-lo de carro. Para matar a saudade, um amigo, André, chegou a acompanhá-lo de charrete em um domingo de manhã. Mas essa experiência não voltou à rotina. Havia deixado de ter o mesmo sabor.
Os passeios de charrete foram saindo de cena. Cada vez mais, a tradição foi cedendo espaço às memórias. Em agosto de 2025, enquanto o empurrava pelo terreiro do sítio numa cadeira de rodas, uma cena me tocou. Ao mirar a charrete, já empoeirada embaixo de um galpão, perguntou-me se um dia voltaria a andar nela. Resposta que lhe dei depois de alguns segundos de silêncio. Preferíamos acreditar, é claro, que tudo não se passava de uma condição temporária e passageira.
Não demorou muito, porém, para que ele partisse. Uma partida surpresa, diferente daquelas que fazia de charrete nos domingos de outrora. Partiu para a eternidade. Talvez ao encontro dos muitos amigos que já haviam partido antes dele. Amigos de um Sobragy de outros tempos, que já não existia e não existe mais.
A charrete, enquanto isso, permanece guardada no mesmo lugar. Passado um ano da despedida de seu dono, tomamos a iniciativa de lhe remover a espessa camada de poeira depositada sobre a superfície. Como num sopro das cinzas que ocultam a brasa, recobramos sua cor laranja, tornando-a mais viva, em evidência. Com esse simples gesto, acabamos de lhe ressignificar o papel. Não mais o de mero meio de transporte, mas o de lugar de memória, de patrimônio material que simboliza e estimula a evocação de ricas e profundas lembranças de um Pai, esposo e produtor rural que viveu e honrou suas raízes da maneira mais genuína possível.
De meio de transporte a lugar de memória, a charrete cumpre, agora, uma missão ainda mais grandiosa: a de “elo” de afetos imprescindíveis à preservação de um passado comum a filhos e netos. Cimento indispensável a que continuemos chamando de família um agrupamento de indivíduos de diferentes gerações…
*Sérgio Augusto Vicente é historiador, professor, escritor e curador, com graduação, mestrado e doutorado em História pela UFJF. Historiador da Fundação Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora – MG) e editor de cultura do Diário de Minas.

