Créditos: Divulgação
28-09-2026 às 17h56
Nathalia Silva*
Enquanto milhares de brasileiros aguardam por um órgão, quase metade das famílias abordadas diante da possibilidade de uma doação ainda diz não. Atualmente, mais de 49,5 mil pessoas estão na fila por um transplante de órgão no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde. A maior espera é por um rim: são aproximadamente 46 mil pacientes, além de cerca de 2,3 mil pessoas aguardando um fígado e mais de 500 à espera de um coração.
Na Santa Casa BH, maior hospital transplantador de Minas Gerais, os números também revelam a dimensão da espera. Segundo a coordenadora do setor de Transplantes da instituição, Thaíla Alves, atualmente 571 pacientes estão inscritos nas filas para transplantes de rim, fígado ou coração. Além deles, 642 pessoas aguardam por um transplante de córnea, de acordo com a coordenadora administrativa do Ambulatório de Oftalmologia da Santa Casa BH.
Os dados ganham ainda mais relevância neste mês, em que se celebra, no dia 27, o Dia Nacional da Doação de Órgãos. A recusa familiar é um dos principais obstáculos à ampliação dos transplantes no país. Segundo o Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), em 2025 o Brasil registrou 15.940 notificações de potenciais doadores, mas apenas 4.335 se tornaram doadores efetivos. Das entrevistas realizadas com familiares, 4.200 terminaram em recusa, o equivalente a 45%.
Em Minas Gerais, no mesmo período, foram 525 potenciais doadores notificados. Das 301 entrevistas realizadas com familiares, 121 terminaram em negativa, o equivalente a 40%.
Embora o país tenha aumentado o número de doadores efetivos, de 19,2 por milhão de habitantes em 2024 para 20,3 em 2025, o volume ainda não é suficiente para atender à demanda de pacientes que dependem de um novo órgão.
Um “sim” que depende da família
No Brasil, manifestar em vida o desejo de ser doador não garante que a doação aconteça após a morte. A autorização cabe à família, após a confirmação da morte encefálica e a avaliação das condições para doação. Por isso, especialistas reforçam a importância de conversar previamente com os familiares sobre essa decisão.
É justamente esse diálogo que a Santa Casa BH quer estimular com a campanha “Semeie a vida, cultive novos começos”, lançada durante o Setembro Verde.
Entre as ações previstas está a “Blitz – Plante essa ideia”, que vai levar informações sobre doação de órgãos a colaboradores, pacientes, familiares e pessoas que circulam no entorno da Santa Casa BH. Durante a mobilização, serão distribuídos panfletos informativos e pacotes de sementes, em referência ao conceito da campanha, além de orientações e esclarecimentos sobre a importância da doação.
Tradição em transplantes
A Santa Casa BH conta com a e-DOT (Equipe Hospitalar de Doação para Transplantes), formada por profissionais de diferentes áreas que atuam na organização do processo de doação dentro do hospital, no acompanhamento dos pacientes e em ações de conscientização junto às famílias e à sociedade.
A espera por alguns órgãos impõe desafios específicos. Segundo o coordenador do Programa de Transplante Cardíaco da Santa Casa BH, Dr. Silvio Amadeu de Andrade, quem aguarda um coração enfrenta uma situação diferente da de determinados pacientes renais, que podem permanecer em diálise enquanto esperam pelo transplante. No caso cardíaco, não existe uma terapia substitutiva de longa duração equivalente, e, em muitos casos, o transplante representa a principal possibilidade de continuidade do tratamento.
Por trás de cada posição na fila estão pessoas e famílias que convivem diariamente com a expectativa de um transplante. Para esses pacientes, a doação pode representar muito mais do que um procedimento: pode significar a possibilidade de retomar planos, recuperar qualidade de vida e seguir em frente.
Para quem deseja ser doador, a orientação é simples: converse com sua família e deixe clara a sua vontade.

