Créditos: JairAmaral/EM/D.A Press
28-09-2026 às 10h09
Samuel Arruda*
A informação de que Romeu Zema poderia abandonar a candidatura presidencial para apoiar Flávio Bolsonaro ainda no primeiro turno ganhou força nos últimos dias, mas, até o momento, há uma contradição importante entre as apurações de bastidor e as declarações públicas do próprio Zema e de integrantes de sua chapa.
O ponto central é este: há, sim, movimentação dentro do NOVO em favor de Flávio Bolsonaro, mas não encontrei confirmação de que o partido tenha formalmente decidido retirar Zema da eleição. Ao contrário, as informações mais recentes indicam que Zema decidiu manter a candidatura.
O que provocou os rumores
A possibilidade de desistência foi divulgada inicialmente como uma articulação entre setores do NOVO e aliados de Flávio Bolsonaro. Segundo reportagem da Revista Oeste, o partido avaliaria até 28 de setembro a retirada de Zema, condicionando a decisão a pesquisas internas do NOVO e do PL. A publicação chegou a tratar a desistência como um cenário em avaliação concreta.
Esse relato, entretanto, passou a ser confrontado por informações posteriores.
A CNN Brasil publicou no dia 26 que interlocutores da direção nacional do NOVO e pessoas próximas a Zema afirmavam que ele não pretendia desistir. O senador Eduardo Girão, candidato a vice na chapa, também declarou: “Em hipótese alguma vamos desistir”.
No mesmo dia, Zema negou publicamente a possibilidade de retirada. Em entrevista à Itatiaia, chamou os rumores de “fake news” e afirmou que pretende levar a candidatura até o primeiro turno.
Então de onde vem a história de que o NOVO quer apoiar Flávio?
Aqui existe um fato concreto.
Candidatos do próprio NOVO já receberam autorização para declarar apoio a Flávio Bolsonaro no primeiro turno.
A CNN informou que Marina Helena, candidata do NOVO a deputada federal por São Paulo, conversou previamente com Zema e recebeu autorização para manifestar apoio a Flávio. Sebastião Coelho, candidato ao Senado pelo NOVO no Distrito Federal, também entrou nesse movimento.
Isso é bastante diferente de dizer que o NOVO decidiu substituir Zema por Flávio.
A situação, portanto, parece estar dividida em duas frentes:
- Zema continua oficialmente candidato à Presidência pelo NOVO.
- Alguns candidatos do NOVO estão livres para apoiar Flávio Bolsonaro no primeiro turno.
- Existem setores do partido defendendo que Zema também faça esse movimento.
- Não há, nas fontes que consegui verificar, anúncio oficial do NOVO retirando Zema da disputa.
Há pressão interna dentro do NOVO?
Sim.
Um dos casos mais explícitos é o de Marco Antônio “Superman” Costa, candidato do NOVO ao Senado por Minas Gerais. Ele pediu publicamente que Zema desistisse e apoiasse Flávio já no primeiro turno. A manifestação, entretanto, ocorreu em meio a um conflito dele próprio com a direção estadual do partido.
Também há relatos de pressão de integrantes de diretórios do NOVO em São Paulo e na região Sul para que Zema abandone a candidatura.
Ou seja: não é correto dizer que o rumor surgiu do nada. Há efetivamente uma corrente dentro da legenda defendendo a concentração de votos em Flávio.
Mas também seria precipitado afirmar que essa corrente representa uma decisão nacional já tomada pelo partido.
Um detalhe importante: Zema já declarou que apoiará Flávio no segundo turno
Essa é uma informação confirmada e ajuda a entender a atual movimentação.
Em 24 de setembro, Zema declarou que apoiaria Flávio Bolsonaro caso o senador chegasse ao segundo turno contra Lula. A CNN registrou a declaração e também relatou a autorização dada por Zema para que integrantes do NOVO apoiassem Flávio já no primeiro turno.
Portanto, existe uma diferença significativa entre três posições:
1. Apoiar Flávio no segundo turno: Zema já declarou que faria isso.
2. Liberar integrantes do NOVO para apoiar Flávio no primeiro turno: isso já aconteceu em casos concretos.
3. Retirar a própria candidatura e apoiar Flávio no primeiro turno: isso foi objeto de especulação e pressão, mas Zema negou que fosse fazer isso.
Essa distinção é fundamental para não transformar uma articulação política em uma decisão já tomada.
E existe uma decisão formal do NOVO para retirar Zema?
Até o momento, não encontrei evidência pública de uma decisão formal nesse sentido.
Há inclusive um dado institucional relevante: o TSE confirmou em 2 de setembro o registro da chapa Romeu Zema/Eduardo Girão pelo NOVO para a Presidência.
Mais importante: a legislação eleitoral torna a questão bastante sensível neste momento.
O TSE informa que o prazo normal para substituição de candidaturas nas eleições de 2026 terminou em 14 de setembro, salvo as exceções previstas em lei.
A legislação prevê mecanismos específicos para substituição em situações como renúncia, cancelamento ou cassação, mas há um limite de 20 dias antes da eleição para que a substituição seja efetivada, com exceção de falecimento.
Como o primeiro turno será em 4 de outubro, a data de 14 de setembro é particularmente importante. Portanto, a ideia de que o NOVO simplesmente poderia, agora, “trocar Zema por Flávio” não corresponde ao procedimento eleitoral normal — Flávio, além disso, é candidato registrado pelo PL, não pelo NOVO.
O que parece estar acontecendo nos bastidores
A leitura mais segura das informações disponíveis até 27 de setembro de 2026 é a seguinte:
| Informação | Situação |
|---|---|
| Zema é candidato registrado pelo NOVO | Confirmado |
| Zema continua dizendo que não desistirá | Confirmado publicamente |
| Girão diz que a chapa não desistirá | Confirmado |
| Candidatos do NOVO receberam autorização para apoiar Flávio | Confirmado |
| Há integrantes do NOVO pressionando Zema a apoiar Flávio | Confirmado |
| Há articulação para concentrar votos da direita em Flávio | Relatada por diferentes veículos |
| NOVO decidiu oficialmente retirar Zema | Não confirmado |
| Zema decidiu oficialmente abandonar a candidatura | Contrariado por sua declaração pública mais recente |
| Existe uma decisão oficial de apoio do NOVO a Flávio no primeiro turno | Não localizada nas fontes oficiais consultadas |
O ponto mais interessante da história
O movimento que está acontecendo não é exatamente “NOVO contra Zema”.
O que as informações recentes mostram é algo mais complexo: parte da estrutura e de candidatos do próprio NOVO passou a admitir ou defender voto em Flávio Bolsonaro no primeiro turno, enquanto Zema mantém sua candidatura presidencial.
Isso cria uma situação politicamente incomum: candidatos de um partido fazendo campanha ou declarando voto presidencial para um candidato de outra legenda, enquanto o próprio partido mantém um candidato à Presidência.
A CNN, inclusive, descreveu a autorização dada por Zema aos candidatos como uma forma de permitir essa dissociação entre a candidatura presidencial e as escolhas individuais dos candidatos da legenda.
Portanto, até este momento, a informação “Zema vai desistir e o NOVO vai apoiar Flávio” deve ser tratada como uma hipótese que circulou nos bastidores, não como uma decisão consumada. A informação mais recente e diretamente atribuída a Zema é justamente o contrário: ele afirma que continuará candidato.
E há uma diferença importante entre as fontes: a Oeste publicou que uma decisão poderia ocorrer até 28 de setembro, enquanto CNN e Itatiaia, em informações posteriores, relataram que Zema havia decidido permanecer na disputa.
*Samuel Arruda é jornalista e editor de politica

