Créditos: Divulgação
09-09-2026 às 08h46
Sérgio Augusto Vicente*
Ele ainda permanece de pé, intacto, tal como seu dono o deixara antes de partir. “Intacto” talvez não seja a palavra adequada. Como tudo que interage com a vida pulsante, são notáveis as avarias e as marcas provocadas por anos de uso.
Revestido de “courvin” marrom, com braços e pés de madeira maciça, torneados, o sofá lá está, no canto da pequena sala de estar, assoalhada, ladeado por duas poltronas para assentos individuais, entre as quais se destaca uma centenária porta azul de duas bandeiras, guarnecidas de trincos de ferro.
Meu pai adquiriu aquele jogo de sofás de um amigo, juntamente com outras mobílias usadas. Sua intenção era conferir algum conforto e comodidade a uma casa rural, colonial, antiga e rústica.
Sua chegada se deu muito antes da energia elétrica se fazer presente naquela residência. Com a televisão ganhando protagonismo na rotina familiar, tornava-se cada vez mais rotineiro o hábito de nos sentarmos ali na sala para assistirmos aos programas, novelas e filmes.
O sofá grande era reservado ao chefe da casa, meu Pai, que chegava do curral com os pés cheios de barro e bosta de vaca e se esticava sobre ele para assistir aos programas da manhã. À tarde, uma pausa para o “Vale a Pena Ver de Novo”, da Globo, que ele emendava com a novela das seis e o MGTV. Depois, vinha o sono dos justos e ele ali mesmo dormia até o final da novela das nove, quando minha mãe o chamava para mudar-se para a cama de casal. Sonolento, com a língua ainda mole de sono, com as vistas embaçadas e o rosto amarrotado, respondia ao seu chamado e seguia, a passos ébrios, em direção ao quarto. Deitava-se na cama, de onde ouvíamos seu pigarrear e sua típica tosse de fumante longevo (começou a fumar aos treze anos de idade).
No frio, a travessia da sala até o quarto era feita com uma coberta arrastada pelo assoalho, cena que mais se assemelhava à de um bebê arrastando a fralda pelo chão.
Não tinha medo do trabalho. Começou desde muito novo na labuta diária. Mas dormia como ninguém. O sofá, com o advento da televisão, tornou-se seu repouso predileto.
Da minha cama, no escuro do quarto, eu podia sentir a atmosfera de domingo. Na sala, o som alto da TV, sintonizada nos programas sertanejos de Teodoro & Sampaio, Rolando Boldrin, Inesita Barroso ou nos programas religiosos da TV Aparecida, ditava o ritmo das manhãs dominicais. O momento era de nostalgia da juventude e de inspiração romântica. Por vezes, levantava-se do sofá e ia até a cozinha lambiscar a moela de galinha caipira preparada por minha mãe no fogão à lenha, prazer quase sempre sucedido por uma declaração de amor para a mulher de sua vida: a “Canarinha”, apelido carinhoso dado à sua eterna menina, prima e esposa, por quem se encantara desde os tempos de menino, nas vezes em que era requisitado pelas tias para a tarefa de espantar os passarinhos das parreiras de uva.
Quando a música ou o artista muito lhe tocava a alma, fazia questão de nos chamar para dividir conosco sua experiência. Lindo gesto, de quem sabia que arte é tudo aquilo que, ao nos encantar, não nos contentamos de apreciar sozinhos.
Sentado, de pernas cruzadas, pitando um cigarro, ou deitado roncando, sem camisa ou debaixo das cobertas, ele sempre marcava presença naquele sofá. Quando a saída de casa demorava mais do que devia, logo reclamava da distância do sofazinho. Brincávamos que o jeito era carregá-lo nas viagens e passeios.
Era do sofá que ele nos contava histórias e memórias e se gabava de sua disposição física, do tanto de serviço que fizera pela manhã, da quantidade de esterco ensacado, do terreiro capinado e outras proezas. Também era do fofo do sofá que ele xingava os políticos corruptos, sem escrúpulos, e tecia suas mais impiedosas críticas às novidades da moda feminina. De bom ou mau humor, o sofá era seu companheiro, seu mimo, uma espécie de colo ou útero que o levava ao aconchego materno. Talvez um símbolo de família em paz, com saúde e feliz, que ele tanto valorizava. O mundo cabia naquele sofá, um mundo que a ele se moldou ao ponto de selaram um casamento perfeito. Tão perfeito que, até hoje, a matéria inanimada ainda mantém a forma e o cheiro do corpo de seu usuário mais fiel. Uma presença ausente que continuará resistindo ao tempo e nos habitando.
Poucos meses antes de partir, no instante mesmo em que deixara de andar, ambos se divorciaram. O sofá não mais lhe fazia sentido, assim como a TV. Mas seus vestígios, sua forma e seu cheiro continuam lá, impregnados no revestimento de “courvin”, refeito em 2010 por nossa querida vizinha e amiga, Dona Lenir, que nos deixou desse plano a quase um mês dele partir.
Essas breves memórias me fazem pensar sobre a relação que estabelecemos com as coisas/objetos. Inevitável dizer o quão inevitável é biografar alguém sem apartar esse alguém de sua relação com os objetos que lhe fizeram parte da existência e lhe constituíram até mesmo a identidade. Como não nos lembrarmos, nesse sentido, da música de Nelson Gonçalves, a quem peço permissão para trocar a mesa pelo sofá?!…
“Naquela mesa [sofá] ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa [sofá] ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa [sofá] ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã. […]”
*Sérgio Augusto Vicente é historiador, professor, escritor e curador, com graduação, mestrado e doutorado em História pela UFJF. Trabalha na Fundação Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora – MG). Editor de cultura do Diário de Minas, no qual coordenou as colunas “D. Pedro II – 200 anos” e “Diário de Minas 160 anos – um tributo a Carlos Drummond de Andrade”.

