Créditos: Divulgação
06-09-2026 às 10h29
Araciara Macedo*
Eu tenho uma mania. Aliás, mania não. Tenho um talento.
Sofro por antecipação.
Sou especialista em sofrer por coisas que ainda não aconteceram, podem nem acontecer e, em alguns casos, sequer têm a menor intenção de acontecer.
Se existe uma possibilidade em mil de alguma coisa dar errado, meu cérebro imediatamente escolhe a possibilidade número mil e começa a preparar o velório.
Recebi uma intimação?
Pronto.
Antes mesmo de saber do que se trata, já estou mentalmente condenada, falida, sem patrimônio e, dependendo do tamanho do susto, considerando vender o sofá para pagar advogado.
A profissão também não ajuda.
Ser jornalista e ainda ocupar cargo de direção em um grande jornal é quase uma assinatura mensal de processos.
A gente publica uma matéria e, do outro lado, alguém se sente ofendido. Publica outra, alguém discorda. Publica uma terceira e aparece aquele clássico: “Vou processar esse jornal!”
E eu?
Eu não espero o processo chegar.
Eu já sofro na audiência.
Se a audiência está marcada para daqui a três meses, passo três meses vivendo como se estivesse prestes a enfrentar o Tribunal de Haia.
Na véspera, então, é um espetáculo.
Meu cérebro começa:
— E se eu perder?
— E se o advogado esquecer alguma coisa?
— E se eu falar alguma besteira?
— E se eu olhar para o juiz de um jeito errado?
— E se eu tossir?
— E se eu respirar?
No dia da audiência, provavelmente só falta eu entrar com uma placa no pescoço:
“Meritíssimo, eu juro que foi sem querer.”
E o pior é que, muitas vezes, no final, não acontece absolutamente nada daquilo que eu imaginei.
Mas aí já sofri.
Porque meu cérebro não trabalha com fatos. Trabalha com possibilidades.
Se o cachorro espirra duas vezes, pronto.
— Meu Deus! Será que ele está doente?
Se ele fica mais quietinho:
— Está acontecendo alguma coisa.
Se ele não quer comer:
— Ele está morrendo.
O cachorro pode simplesmente estar de mau humor, ter comido demais ou estar fazendo charme.
Mas eu já estou emocionalmente preparando uma despedida, procurando veterinário e pensando em como vou sobreviver à tragédia.
Sou assim.
Se alguém demora a responder uma mensagem, já imagino três acidentes, duas brigas e uma internação.
Se alguém diz “preciso falar com você”, minha cabeça entende:
“Precisamos conversar sobre uma catástrofe nacional.”
E há coisas, porém, que não consigo transformar em piada tão facilmente.
Uma delas é o medo de morrer antes de deixar meus filhos encaminhados.
Não estou falando apenas de dinheiro.
Quero vê-los bem.
Quero vê-los trabalhando, seguindo suas vidas, sabendo se defender, pagando suas contas, fazendo escolhas e encontrando o próprio caminho.
Quero ter aquela sensação de mãe que olha para os filhos e pensa:
“Pronto. Agora eu posso descansar.”
Talvez seja uma das maiores preocupações de uma mãe: partir antes de sentir que terminou sua missão.
E existe ainda uma coisa que, para mim, torna esse medo ainda mais estranho.
Eu acredito que a morte não é o fim.
Acredito que existe continuidade, que a vida não termina simplesmente porque o coração parou de bater.
Mas justamente por acreditar nisso, tenho outro medo.
Tenho medo de ir embora e continuar vendo meus filhos sofrerem sem poder fazer nada.
Porque, se existe um lugar depois daqui, imagino que eu ainda vou querer ser mãe.
E aí está o problema.
Se eu estiver do outro lado e enxergar um filho meu passando por alguma dificuldade, vou querer correr para abraçar, aconselhar, resolver, puxar pela orelha, fazer comida, dar dinheiro escondido e dizer:
“Eu avisei!”
Só que talvez não possa.
E isso me apavora.
Porque mãe não foi feita para assistir ao sofrimento dos filhos de braços cruzados.
Mãe quer interferir.
Quer proteger.
Quer colocar o filho dentro de uma bolha.
Quer impedir que a vida machuque.
Só que a vida não aceita esse tipo de negociação.
Então, sigo aqui, tentando aprender uma coisa que deveria ser simples, mas para mim parece uma pós-graduação:
Viver o que está acontecendo, em vez de sofrer pelo que pode acontecer.
Quando chega uma intimação, tentar esperar a audiência.
Quando o cachorro espirra, esperar o segundo espirro antes de organizar o funeral.
Quando alguém demora a responder, esperar a resposta antes de chamar o SAMU.
E quando penso na morte, lembrar que ainda estou viva.
Porque talvez essa seja a grande ironia da minha mania de sofrer por antecipação:
Às vezes, passo tanto tempo com medo de perder as coisas que esqueço de aproveitar enquanto elas estão comigo.
E, no fundo, talvez seja isso que o amor faz com a gente.
Ele nos dá motivos para ter medo.
Mas também nos dá motivos para ficar.
Por isso, enquanto eu puder, quero fazer o que toda mãe deveria tentar fazer:
Amar muito, orientar enquanto há tempo, preparar os filhos para a vida e, principalmente, viver.
Porque, convenhamos…
Se eu continuar sofrendo antecipadamente por tudo, qualquer dia desses vou precisar de um processo contra mim mesma.
E, conhecendo a minha sorte, ainda vou perder a causa.
(*) Araciara Macedo é diretora de Jornalismo do grupo de comunicação “A Gazeta do Amapá”.

