Créditos: Magnific
30-08-2026 às 11h39
Mauro Bomfim*
*Lulinha, ioiô de processo: Neste ano de eleição presidencial, com o pai disputando a reeleição, num embate acirrado com o filho de Bolsonaro, quem pretende agora virar “ioiô de processo” é o Lulinha. Isso se depender do Gonet, Procurador geral da República. O parecer da PGR foi para os inquéritos descer para a primeira instância. Um dos rumorosos casos envolve apuração de intermediação de comércio de cannabis medicinal para um grupo comandado pelos empresários lobistas Fernando Bitar e Roberta Luchsinger. Descendo para a instância primeva, a eleição passa e aí os autos acabam dormitando nos braços jurídicos de Morfeu, o Deus do Sono. Foro por prerrogativa de função tem hora que é rabo de foguete. Sair condenado do Supremo não tem mais recurso. Só mesmo apelando ao Tribunal Eclesiástico de Roma, ao tempo em que se pode tentar bater às portas da Corte de Haia. Do brocardo latino se diz de uma esperada “dura lex, sed lex”. A lei é dura, mas é a lei. Aqui nos tristes trópicos, em nosso patropi, é mesmo tudo na base de “dura lex, sed látex”, como diriam Jaguar e a turma do Pasquim.
*A taxa da blusinha: Eleição é tempo de pacote de bondade. O então Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, agora candidato a governador de São Paulo, mandou taxar as compras do e-commerce. A chamada “taxa da blusinha” era para proteger o varejo brasileiro. Agora, em tempos de quebradeira geral de atacadistas e até varejista, mas com a eleição à vista, o mesmo governo federal derruba a “taxa da blusinha”. Um aceno para milhões de brasileiros viciados em comprar pela internet. Lula fechou esse acordo sob os auspícios dos presidentes do Senado e da Câmara, Alcolumbre e Hugo Mota. A lei eleitoral proíbe programa governamental novo. Dirá, porém, a defesa de Lula tentando o drible da vaca pra cima do TSE: ora, já existia uma medida provisória que simplesmente caducou. Como diria o Raulzito, “é fim de mês, é fim de mês, eu liquidei a prestação do paletó, do meu sapato, da camisa…e o fim de mês vem outra vez…. Cortesia da matriz”…
*“Ioiô” de general: Carlos Lacerda, o panfletário jornalista de oratória de fogo, que derrubou dois presidentes e levou um ao suicídio, rompeu com o regime militar em 68. Queria a eleição presidencial de 65 onde certamente disputaria com Juscelino. Não teve eleição alguma. O regime endureceu. Liberou só eleição para governadores. E o PSD venceu em Minas com Israel Pinheiro e na Guanabara o candidato de Lacerda perdeu para o também pessedista Negrão de Lima. O mesmo Negrão de Lima eu em 56 foi nomeado por JK prefeito do Rio em 56 e depois Ministro de Relações Exteriores em 58. Juscelino ainda nomeou o amigo das antigas em Belô para a embaixada do Brasil em Lisboa. Voltando ao temível polemista Carlos Lacerda, que seu rival Samuel Wainer apelidou de “o corvo”, celebrizado numa charge do Lan. Ao bater de frente com o regime militar após o AI-5, Lacerda foi preso no Regimento da PM na Guanabara, dividiu cela com o ator comunista Mário Lago, fez greve de fome, foi colocado em um carro, levado de quartel em quartel, as autoridades militares batiam cabeça e trocavam telefonemas para decidir para onde levá-lo, daí seu desabafo: “Eu não sou ioiô de general”. Lembrei-me de Carlos Lacerda a propósito do lançamento da esplendorosa biografia Lacerda, Coração de Tempestade”, de autoria do jornalista e Mário Magalhães, que acaba de sair do prelo pela Companhia das Letras. Comecei a ler os primeiros capítulos. Eletrizante.
*O Supremo de antigamente: o Ministro Ribeiro da Costa era presidente do Supremo Tribunal Federal. Corria o ano de 1965. Tempos de chumbo do regime militar. O Marechal Castelo Branco era o presidente, mas o homem da linha dura era o Ministro da Guerra, General Costa e Silva. Pressões, ameaças de intervenção militar na Corte Suprema, o escambau. O Supremo acabara de conceder um habeas corpus determinando a soltura do governador de Pernambuco, Miguel Arraes, bravo combatente da esquerda. O Ministro Ribeiro da Costa, com uma serenidade dos juízes iluminados, simplesmente afirma que se fosse violada a autonomia do Supremo, fecharia o Tribunal, atravessaria a Praça dos Três Poderes e entregaria as chaves do edifício na portaria do Palácio do Planalto. Nada mais disse, nem lhe foi perguntado. Símbolo marcante da defesa da toga contra os tanques. E tudo ficou como dantes no Quartel de Abrantes.
(*) Mauro Bomfim é advogado, jornalista e escritor – texto artesanal, sem uso de IA.
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