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30-08-2026 às 10h24
Edilma Duarte*
No romance de Márcio Metzker, um reino imaginário no Sul da Bahia vira laboratório para experimentar soluções radicais, provocadoras e, às vezes, desconcertantes para os velhos problemas do Brasil
E se fosse possível inventar um país para consertar o Brasil? Esta é a pergunta que parece estar por trás de Utopia Tropical, romance de Márcio Metzker que mistura aventura, história, política e uma boa dose de provocação.
O autor cria um reino imaginário no Sul da Bahia e em parte de Minas Gerais e, a partir dele, experimenta soluções para problemas que há décadas atormentam o Brasil. Mas não apresenta suas ideias como um tratado político. Prefere escondê-las dentro de uma história, conduzindo o leitor por personagens, amores, vinganças, conflitos e episódios históricos até chegar ao que realmente parece interessá-lo: imaginar como poderia funcionar um país governado de outra maneira.
A estratégia é inteligente. Quando o leitor percebe, já está discutindo impostos, corrupção, drogas, democracia, exportação de matéria-prima, tamanho do Estado e privilégios corporativos, temas que poderiam tornar qualquer ensaio árido, mas que, no romance, ganham a leveza da ficção.
DUAS HISTÓRIAS, UM ENCONTRO
A narrativa acompanha Álvaro Hasenberg, um homem comum, educador do Mobral, que perde o emprego e a esposa. A vida o leva para o Sul da Bahia, onde recomeça numa aldeia de pescadores e encontra um novo amor.
Em paralelo, outra história atravessa o romance: a de um militar alemão que chega ao Brasil, há dois séculos, para trabalhar na guarda do Castelo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, e acaba se aproximando da imperatriz Leopoldina.
As duas histórias avançam em tempos diferentes até que seus caminhos se encontram. O recurso dá movimento à narrativa e permite a Metzker aproximar ficção e História, realidade e imaginação.
A pesquisa para construir esse universo consumiu três anos e levou o autor à Alemanha e a Portugal. Personagens reais da História brasileira aparecem sob pseudônimos, enquanto acontecimentos históricos servem de matéria-prima para uma narrativa que, embora inventada, mantém os olhos voltados para o Brasil real.
UM REINO PARA EXPERIMENTAR IDEIAS
É quando Álvaro se transforma em rei que Utopia Tropical assume sua dimensão mais provocadora. Sem conseguir elaborar uma Constituição, o reino adota um princípio simples, tomado de empréstimo ao bispo de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga: “Vergonha na cara e amor no coração”.
A partir daí, o autor parece perguntar: o que aconteceria se princípios elementares de honestidade e responsabilidade pública deixassem de ser apenas discursos e passassem a orientar efetivamente um governo? A resposta de Metzker é radical e, muitas vezes, desconcertante.
A corrupção é tratada como crime hediondo. Um dirigente da Receita que desviou milhões de dólares é julgado e fuzilado. O tráfico de drogas é legalizado e transformado em atividade comercial tributada. O dinheiro que antes alimentava o crime passa a financiar o Ministério da Saúde. Um Imposto Único substitui os demais tributos. E a informática permite implantar um sistema de democracia direta, no qual os cidadãos votam nas iniciativas do governo.
Não é preciso concordar com essas soluções para reconhecer a provocação. É justamente aí que o romance encontra sua força: ele leva o leitor a pensar sobre aquilo que, na vida real, costuma ser aceito como inevitável.
A UTOPIA E A REALIDADE
O reino de Metzker não pretende necessariamente oferecer um manual para o Brasil. Muitas das soluções imaginadas no romance dificilmente sobreviveriam ao choque com a complexidade da vida real. Sua função parece ser outra: criar um laboratório de ideias.
No território imaginário do autor, é possível desmontar estruturas, eliminar privilégios, reduzir burocracias, mudar a política tributária, rever a relação entre Estado e cidadão e experimentar novas formas de democracia. Tudo aquilo que, no mundo real, encontra resistências de toda ordem, pode ser testado na ficção. É justamente por isso que o livro ganha interesse em um momento de discussão política tão intensa.
As eleições, com sua sucessão de promessas e discursos, tornam ainda mais atual a pergunta silenciosa do romance: por que algumas coisas que parecem tão simples são tão difíceis de realizar?
UM ROMANCE QUASE PÓSTUMO
A história do próprio livro acrescenta uma camada inesperada à sua leitura. Publicado em 2020, Utopia Tropical quase não chegou às mãos dos leitores. O mundo parou com a pandemia, livrarias e shoppings fecharam e, enquanto o livro aguardava seu destino, seu autor lutava pela própria vida.
Márcio Metzker passou 87 dias internado em uma UTI por causa da Covid-19, esteve em coma e, depois de deixar o hospital, continuou enfrentando uma série de problemas de saúde. Por muito pouco, portanto, Utopia Tropical não se tornou uma obra póstuma.
O livro chega agora às lojas da Livraria Leitura com um atraso que, paradoxalmente, pode ter lhe dado uma nova oportunidade. Em um país novamente mergulhado em debates eleitorais e disputas sobre os rumos do Estado, as provocações do romance encontram terreno fértil.
ENTRE A UTOPIA E A PROVOCAÇÃO
Há momentos em que Metzker é deliberadamente radical. Em outros, flerta com o absurdo, a ironia e soluções capazes de causar desconforto ao leitor. Mas talvez seja justamente esse o jogo. Uma utopia não precisa ser possível para cumprir sua função. Basta que nos faça olhar de outra maneira para aquilo que chamamos de realidade.
Ao longo do romance, o leitor encontrará personagens históricos apenas disfarçados por pseudônimos, episódios de violência, disputas de poder, amores, vinganças e reviravoltas. E encontrará, sobretudo, um autor que utiliza sua experiência de quatro décadas como jornalista especializado em política para construir um país imaginário no qual pode testar as ideias que acumulou ao longo da vida.
Utopia Tropical começa como uma leitura fluida e prazerosa. Aos poucos, ganha densidade, até deixar de ser apenas uma história para se transformar em uma conversa com o leitor. Afinal, e se fosse possível começar tudo de novo? É uma utopia, naturalmente. Mas é também uma maneira saborosa de pensar o Brasil.
*Edilma Duarte é jornalista


