Créditos: Magnific
29-08-2026 às 15h53
Rogério Reis Devisate*
A realidade tem um defeito incômodo para as paixões políticas: ela não se filia. Não vota, não usa camiseta, não participa de passeatas e tampouco demonstra respeito pelas certezas que construímos ao redor de nós mesmos; simplesmente acontece, com aquela indiferença meio irritante e quase ofensiva dos fatos, e por isso talvez seja tão difícil olhá-la quando aquilo que ela nos mostra ameaça não apenas uma opinião, mas a identidade que formamos, os grupos aos quais pertencemos e até a imagem que fazemos de nós mesmos.
Pintar a parede de uma casa sem antes descobrir de onde vem a infiltração, retirar a umidade, corrigir a fissura e refazer aquilo que foi malfeito pode produzir, durante algum tempo, uma impressão agradável, porque a nova camada de tinta encobre as manchas e permite acreditar que o problema desapareceu, embora a água permaneça trabalhando silenciosamente por trás da superfície e, mais cedo ou mais tarde, volte a atravessá-la. Talvez façamos algo parecido com a política, sobretudo quando se aproximam as eleições e reaparecem promessas de reconstrução, prosperidade, segurança, emprego e desenvolvimento, palavras suficientemente amplas para que cada candidato nelas deposite aquilo que imagina que o eleitor deseja ouvir.
O problema não está na esperança, sem a qual nenhuma sociedade construiria aquilo que ainda não existe, mas naquele conteúdo que se descola da experiência e passa a funcionar como suspensão voluntária do que já sabemos. Discursos políticos deveriam, por isso, ser comparados com a realidade que os antecede, porque nenhum candidato chega ao eleitor sem passado, sem alianças, sem resultados, sem erros e sem consequências produzidas por decisões anteriores; a campanha pode falar do futuro, mas sua avaliação começa, inevitavelmente, pelo passado.
Se alguém promete criar empregos, por exemplo, não basta achar que surgirão do nada, porque emprego depende de uma economia capaz de crescer, de empresas que invistam, de crédito, confiança, produtividade, consumo, infraestrutura e segurança jurídica. Quando uma empresa quebra, entra em recuperação judicial, reduz suas atividades ou deixa de investir, o episódio pode parecer isolado, embora seus efeitos raramente terminem ali. É nesse ponto que Niklas Luhmann ajuda a compreender o que a retórica eleitoral costuma simplificar, pois sociedades complexas não funcionam como compartimentos estanques, mas como sistemas diferenciados que se afetam e precisam reagir às perturbações que recebem. A recuperação judicial de uma indústria pode significar fornecedores recebendo menos, transportadoras com menos fretes, trabalhadores adiando compras, famílias revendo despesas, escolas perdendo matrículas, restaurantes vendendo menos, bancos recalculando riscos e empresas suspendendo investimentos; aquilo que começou como notícia econômica distante pode chegar ao mercado do bairro, ao verdureiro da esquina e, finalmente, à mesa de uma família que talvez jamais tenha ouvido falar daquela empresa.
Não há reações lineares de causa e efeito e a natureza não faz linhas retas. Por isso, precisamos compreender a complexidade das questões para perceber o alcance dos fatos. Isso significa que prometer crescimento, emprego e renda sem explicar como serão produzidas as condições sistêmicas de que dependem é oferecer tinta nova para uma parede cuja infiltração permanece intocada. O endividamento imenso das famílias e empresas é sinal de que as coisas não vão bem e não melhorarão por desejo ou promessas; o mesmo se diga com questões ligadas à violência, juros, competitividade e meio ambiente. Aliás, nesta semana, ao menos 18 ônibus foram usados em barricadas no Rio de Janeiro; 18! Isso é normal? Basicamente, podemos dizer que há tempos estamos abandonados à própria sorte.
Conhecemos as trajetórias dos candidatos, sabemos com quem caminharam, observamos o que fizeram quando tiveram poder, ouvimos o que disseram e conhecemos as promessas que abandonaram; apesar disso, durante as campanhas parece surgir uma curiosa disponibilidade coletiva para imaginar que a eleição produz uma espécie de nascimento, como se os personagens chegassem às urnas sem história e pudessem ser avaliados apenas pelo que prometem ser. É nesse ponto que talvez se encontre uma das falsas esperanças mais persistentes da política: escolher o futuro esquecendo deliberadamente aquilo que o passado já ensinou.
Depois reclamamos, e reclamar é legítimo, porque nenhum voto representa procuração irrevogável, nenhum governante adquire imunidade contra a crítica e nenhuma maioria eleitoral transforma decisões equivocadas em corretas; há, contudo, uma diferença importante entre reclamar porque fomos surpreendidos e reclamar fingindo que jamais tivemos condições de perceber aquilo que estava diante de nós.
Essa dificuldade não é apenas política, mas psicológica. Freud, em Psicologia das Massas e Análise do Eu, mostrou como o indivíduo, quando integrado a uma massa, passa a agir sob forças de identificação, afeto e pertencimento que alteram sua relação consigo e com os demais. O grupo oferece segurança, reconhecimento e companhia, mas também produz fronteiras, e, se existem aqueles que pertencem, existem os que estão fora.
É aí que o medo do outro adquire força política, não necessariamente porque o outro represente perigo objetivo, mas porque pode ser apresentado como ameaça aos valores que julgamos defender e ao lugar simbólico que ocupamos no mundo. O adversário deixa então de ser apenas alguém que pensa de maneira diferente e passa, pouco a pouco, a parecer ameaça à nossa própria identidade, enquanto fenômenos complexos como inflação, desemprego, violência, crise fiscal ou perda de renda podem ser atribuídos a um “eles” facilmente reconhecível, porque o medo simplifica aquilo que a realidade complica.
Talvez exista, entretanto, um medo ainda mais silencioso: o medo de pensar por si próprio. Pensar verdadeiramente significa admitir a possibilidade de chegar a uma conclusão diferente daquela esperada pelos amigos, pela família, pelo grupo político ou pela comunidade virtual à qual pertencemos, e aceitar que uma investigação honesta pode nos levar a reconhecer que aquele em quem votamos errou, que o adversário acertou em determinado ponto ou que uma convicção defendida durante anos não resiste ao confronto com os fatos.
Há uma solidão potencial no pensamento autônomo, e talvez por isso tantas pessoas prefiram o erro compartilhado à dúvida solitária; a inversão torna-se perceptível quando passamos a sustentar determinadas ideias porque pertencemos ao grupo. Nesse momento, já não perguntamos apenas se uma informação é verdadeira, mas o que a admissão dessa verdade fará com nossa posição diante dos nossos.
A realidade, porém, continua sem se filiar. Uma empresa que fecha não pergunta em quem votou o empregado que perde o trabalho; os juros não diminuem por afinidade partidária; a inflação não escolhe a mesa da família conforme sua orientação ideológica, e uma escola que perde alunos porque famílias tiveram queda de renda não pode pagar professores com discursos sobre quem deveria ser responsabilizado.
Nenhum presidente, governador, prefeito ou parlamentar pode, sozinho, resolver aquilo que uma sociedade levou décadas para construir ou destruir, e campanhas eleitorais raramente sobrevivem dizendo que problemas complexos exigem tempo, custo, escolhas difíceis e frustração de interesses, porque a complexidade não cabe facilmente num slogan, enquanto a esperança, o medo e a promessa de que bastará derrotar “os outros” cabem perfeitamente.
É por isso que a expressão “depois não adianta reclamar” está afeta ao fato de que as consequências não estão divorciadas do que já percebemos ou sabemos antes de votar, como se trajetórias não existissem, como se números não significassem nada, como se falências, recuperações judiciais, desemprego, endividamento e perda de renda fossem fatos isolados, ou como se o conforto de pertencer ao grupo nos dispensasse da tarefa incômoda de pensar por nós mesmos.

