Juscelino Kubitschek e Brasília - créditos: divulgação
23-08-2026 às 14h00
Sebastião Helvecio*
Hoje, no aniversário da morte de Juscelino Kubitschek, presto minha homenagem àquele que considero um dos maiores políticos brasileiros.
Há algumas identificações pessoais que tornam essa homenagem ainda mais especial: JK era mineiro e médico, como eu.
E há uma pequena coincidência que sempre me encanta: Juscelino nasceu em 1902, o mesmo ano em que nasceu o Fluminense Football Club, pelo qual sou, confesso, um torcedor fanático.
Talvez sejam apenas coincidências do calendário. Mas gosto de pensar nelas como pequenas pontes que a vida constrói entre nossa história pessoal e a história maior do país.
E, no caso de JK, sua trajetória ultrapassa, em muito, essas coincidências. Foi um político de visão, coragem, diálogo, conciliação e extraordinária capacidade de transformar sonhos em realizações.
Seu governo representou um momento singular de confiança no Brasil. Era o tempo de “50 anos em 5”, da industrialização, da construção de Brasília, da integração nacional e de uma aposta decidida na modernização do país.
E há algo fascinante nesse período.
Enquanto JK construía Brasília, o Brasil também construía uma nova linguagem para apresentar-se ao mundo: a Bossa Nova.
Brasília e a Bossa Nova, embora pertencentes a universos diferentes, são expressões de um mesmo espírito brasileiro dos anos 1950: modernidade, criatividade, inovação, ousadia e confiança no futuro.
De um lado, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa desenhavam uma arquitetura que rompia com o passado. De outro, João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e tantos outros criavam uma música que também rompia com padrões estabelecidos.
Era um Brasil que queria ser moderno sem deixar de ser brasileiro.
Talvez seja esse o aspecto de JK que mais me inspira.
Ele não fazia da dificuldade uma justificativa para a inação. Ao contrário: quanto maior o desafio, maior parecia ser sua disposição para realizá-lo.
Como médico, aprendi que não basta diagnosticar problemas: é preciso buscar soluções. Como mineiro, reconheço em JK a capacidade de conciliar firmeza e diálogo. E como alguém que acredita na vida pública, vejo nele a demonstração de que política pode ser também esperança, construção e visão de futuro.
Hoje, em um tempo de tanta polarização, intolerância e imediatismo, lembrar Juscelino é lembrar que o Brasil já teve líderes capazes de dizer, diante das dificuldades:
é possível fazer mais; é possível fazer melhor; é possível acreditar no futuro.
Meu tributo ao mineiro, ao médico e ao estadista que ousou sonhar um Brasil maior.
JK não apenas governou o Brasil.
Ele ajudou o Brasil a acreditar em si mesmo.
A Bossa Nova foi o sonho brasileiro transformado em música.
Música, para mim, é o som do pensamento.
E talvez seja justamente por isso que, ao olhar para o Brasil de hoje, não possamos deixar de pensar na importância deste ano eleitoral.
Quando constatamos quantos ainda agridem a democracia com pensamentos autoritários e tentativas de aniquilá-la, percebemos que a escolha que teremos pela frente é muito maior do que uma disputa eleitoral.
É uma escolha sobre que país queremos ser.
Que possa prevalecer a inteligência humana sobre o ódio, a razão sobre o negacionismo, o diálogo sobre a intolerância e o respeito ao diferente sobre qualquer tentativa de aniquilar aquele que pensa de outra maneira.
Que o Brasil de JK — o Brasil que ousou sonhar, construir e inovar — possa continuar acreditando em seu futuro.
E que, neste tempo de tanta transformação, a inteligência humana ainda seja capaz de fazer da política não o som do ódio, mas a música da democracia.
*Sebastião Helvécio é médico, político, ex-deputado estadual e presidente do TCE-MG

